Amor e liberdade em minúsculas: o legado de bell hooks para a educação antirracista

Beatriz Calais e Maria Laura Saraiva

“A minha experiência de vida mostrou-me que, no momento do meu nascimento, dois fatores determinaram o meu destino: ter nascido negra e ter nascido mulher” – bell hooks

Em 1952, na pequena cidade de Hopkinsville, Estados Unidos, nascia Gloria Jean Watkins, nome que algumas décadas depois daria lugar ao pseudônimo de bell hooks. É assim mesmo, em minúsculas. Escolhido em homenagem à avó, a grafia da alcunha dá indícios quanto ao posicionamento da autora sobre a própria obra: “O mais importante em meus livros é a substância – e não quem sou eu”, afirma ela.

Filha de uma empregada doméstica e de um zelador, hooks frequentou durante a infância, ao lado de sete irmãos, uma escola exclusiva para negros. Mais tarde, quando já estudava letras na Universidade de Stanford, a experiência de crescer em uma comunidade segregada inspirou parte das reflexões de seus livros. Suas mais de quatro dezenas de obras contribuíram para áreas como Relações Étnico-Raciais, Feminismo, Estudos Culturais e Pedagogia.

“Seu legado é gigantesco”, afirma Silvane Aparecida da Silva, coordenadora da pós-graduação de educação antirracista do Instituto Vera Cruz. A historiadora, responsável pelo prefácio da edição brasileira de Tudo sobre o amor, de autoria da norte-americana, explica que as obras de bell hooks possuem um recorte aberto da sociedade que vai muito além do debate sobre gênero e raça. “Ela é uma escritora de linguagem simples, que usa a própria vida como exemplo e toca em assuntos universais”, destaca. 

Com produção acadêmica permeada por referências autobiográficas, bell acreditava que a verdadeira teoria passava pela prática. Ou seja, era preciso fomentar, engajar e agir para mobilizar aquilo de que só o texto escrito não daria conta. Foi assim que o ativismo da escritora ganhou força: antisexista, antirracista e anticapitalista, ela chegou a ser apontada pelo jornal norte-americano The Washington Post como uma das responsáveis por ampliar o movimento feminista para fora da bolha das mulheres brancas de classe média.  

Como professora universitária de instituições prestigiadas como a Universidade da Califórnia, Universidade do Estado de São Francisco e a Universidade de Yale, entre outras, bell hooks entendia que o vínculo entre estudantes e educadores era a chave para a formação de um ambiente mais pacífico. “Ela tinha uma preocupação real com os alunos negros que estavam na sala de aula, porque muitos deles estavam em estado de sofrimento causado por situações de discriminação”, explica Silvane. 

Para hooks, os professores devem adotar uma posição de observação em relação à vivência em sala de aula, percebendo aqueles que se mantinham afastados de discussões ou que se incomodavam com determinados assuntos. Uma vez conectado com o estudante, seu papel é acolher e amar para iniciar o processo de troca a partir da individualidade e significância de cada um. “Não tem nada de piegas no amor descrito por bell hooks. Pelo contrário, ele é um ato político”, afirma Silvane, que entende o afeto descrito pela ativista como aquele que une as pessoas em grupo, que fortalece as comunidades. Nas palavras da própria:  “O amor é o fundamento de toda mudança social significativa”.


Uma herança generosa

As implicações para a luta antirracista são grandes. Para Linalva Santos, advogada, professora e integrante da ONG Educafro, o pensamento da autora é essencial para o desenvolvimento de novos cidadãos. “O respeito à diversidade impacta tanto os jovens negros quanto os brancos”, ressalta. “Ler bell hooks faz com que as pessoas brancas que não se atentaram ainda para a presença do racismo na sociedade compreendam melhor como isso se apresenta”, completa Silvane. “Percebendo a existência e a agressividade do racismo, descrito em diversas obras da ativista, estudantes e educadores podem desenvolver empatia e compreender o que os seus colegas de classe sofrem na pele.” Para os estudantes negros em especial, as palavras de hooks trazem pertencimento e força. “O texto mostra que há alguém olhando por eles e reconhecendo as suas vivências. Acho que bell hooks faz com que as pessoas se enxerguem como são.”

Apesar das dificuldades, o todo de sua obra carrega em si o otimismo da transformação, uma certa “pedagogia da esperança” que vê a chance de um futuro melhor. “Ela nos situa em termos de humanidade. Em nenhum momento escreve diretamente o que as pessoas brancas devem fazer, mas abre uma lente para que vejam uma realidade que pode ter passado despercebida”, diz Linalva. Sua mensagem é a um só tempo simples e complexa, mas resume bem o ponto central para uma sociedade mais justa. “Educação é o que liberta”, conclui a advogada e professora. 

Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.