Em uma célebre entrevista concedida ao jornalista Joel Silveira, o escritor Graciliano Ramos comparou seu ofício ao das lavadeiras, afirmando que ambos exigiam o mesmo procedimento. Com tecidos ou palavras, um bom trabalho dependeria de uma sucessão de ações de limpeza antes de se pôr a roupa para secar no varal ou a folha para descansar na gaveta – e um dia tornar-se texto publicado. Ele terminou sua comparação com uma afirmação peremptória: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”. Tal passagem, citada no texto Autobiografia e representação de si mesmo: Graciliano segundo Graciliano, de Márcia Vescovi Fortunato, diz muito sobre a preocupação desse escritor com a precisão da linguagem. Em seu artigo, a autora estabelece um diálogo entre a obra Infância e os dilemas que envolvem o gênero autobiográfico quando praticado por um escritor que, sem deixar de ser fiel ao relato de sua vida, persiste em busca da forma literária.