A criação da Biblioteca Afrodiaspórica e Africana e do seu Guia de navegação reforçou a literatura como potência para a ampliação de afetos e imaginários
TEXTO Wellington Soares. REPORTAGEM Gabriely Araújo

Ao longo de 2025, um incômodo surgiu entre as turmas do G5 ao 2º ano. Na volta do intervalo, o coletivo se deu conta de que a areia das áreas externas invadia os demais espaços da escola. Em vez de delegar a questão à equipe de limpeza, as educadoras viram ali uma chance de reforçar o cuidado com locais coletivos, o que já era feito em ações como o “guarda-guarda”, momento em que os grupos organizam os brinquedos que utilizam. As crianças toparam, então, a tarefa de ajudar a cuidar melhor dos ambientes, realizando um mutirão de varredura, retirando o excesso de areia que vinha do pátio.
Com as crianças engajadas nas discussões sobre o cuidado coletivo, as educadoras viram uma oportunidade para aprofundar o tema com o livro Quem limpa?, de Bianca Santana. A obra conta a história de um país fictício onde os cidadãos deixam todas as tarefas de limpeza para uma única pessoa. A leitura convidou as crianças a refletirem sobre o trabalho doméstico e sobre como as relações raciais e de gênero se apresentam na divisão das tarefas de limpeza e cuidado.
“Todas as turmas viveram mediações de leitura em um contexto de apreciação e fruição literária que já faz parte da rotina diária. As conversas em torno do livro suscitaram boas reflexões e perguntas”, diz Juliana de Paula Costa, coordenadora do G5 ao 2º ano.
A mediação de leitura com o livro de Bianca Santana reflete uma prática já comum no Vera. Em todos os segmentos, os educadores e educadoras têm ampliado os acervos literários para incluir autores/as africanos/as, afro-brasileiros/as e afrodescendentes de outras partes do mundo.
“O encontro com os livros que por tanto tempo foram apartados ou impedidos de fazer parte dos currículos, amplia o repertório cultural, promove o letramento racial e transforma imaginários, rompendo com estereótipos”, diz Juliana. “Isso acontece sem perder de vista a relação literária como prática viva e inventiva, e não apenas formativa.”
Em 2025, essa proposta se aprofundou com o projeto de criar uma biblioteca temática africana e afrodiaspórica e um guia de navegação da biblioteca. A iniciativa mobilizou toda a escola na realização de formações, na seleção das obras e na ampliação das leituras em sala de aula.
Nasce a biblioteca e seu guia de navegação
A ideia da biblioteca, conta Juliana, nasceu de um trabalho anterior da coordenadora em parceria com a escritora Bianca Santana, em que elas fomentaram a criação de um acervo afrocentrado para estudantes de outra escola. Ao compartilhá-lo com os/as demais educadores/as do Vera, essa experiência se ampliou para pensar no acervo da própria escola e criar a Biblioteca Afrodiaspórica e Africana, que recebeu o nome da autora.
A experiência de Juliana também serviu de base para as formações de educadores e educadoras mediadas por ela em parceria com Luiza Gaia, coordenadora de Práticas de Linguagem. Nelas, professores e professoras puderam discutir como a ampliação do repertório de leituras estava alinhado com o projeto de educação para as relações étnico-raciais da escola, pensando tanto nos pressupostos do campo da literatura, quanto de um currículo intercultural e crítico. Os momentos serviram para que todos compartilhassem as práticas já realizadas em sala de aula.
Durante as formações, educadores e educadoras também se dedicaram a analisar as obras do acervo, sugerindo a retirada de livros que apresentavam visões racistas, por exemplo, uma prática necessária em constante revisão. Além disso, organizaram os títulos em sete seções, de acordo com o tema identificado pelos/as docentes em cada obra.
As discussões ocorridas durante esses encontros formativos serviram de subsídio para Juliana escrever o Guia de Navegação Conceição Evaristo para a Biblioteca Afrodiaspórica e Africana Bianca Santana (acesse aqui). No material, Juliana, acionando memórias de suas vivências, propõe metáforas marítimas para compreender a organização da biblioteca e a realização do trabalho de mediação de leitura. Nesse contexto, as diferentes seções se tornaram “rotas de navegação”.
“As seções não limitam o encontro com a leitura, mas inspiram e ampliam percursos. Funcionam como rotas que sugerem a intencionalidade ao educador, que atua como um timoneiro, apoiando a travessia sem engessá-la”, explica Juliana.
O acervo em sala de aula
A equipe decidiu inaugurar a biblioteca e lançar o Guia de navegação durante a fliVerinha (Festa Literária do Vera). Além de Bianca, os/as educadores/as do 1º ano listaram sete outras autoras que seriam homenageadas no evento e se tornaram foco do trabalho com leitura ao longo do ano: Cidinha da Silva, Heloisa Pires Lima, Kiusam de Oliveira, Mafuane Oliveira, Priscila Obaci, Nina Rizzi e Paty Wolff.

“Nesse contexto, as turmas passaram a se relacionar não só com as narrativas das obras, mas também com suas autoras. Com uma articulação cheia de afeto e esperança, a equipe da gestão conseguiu fazer contato com cada uma delas, e agendar encontros presenciais ou virtuais com os estudantes. Isso permitiu o desenvolvimento da oralidade, leitura e escrita das crianças, na relação com a prática de entrevista”, afirma Juliana.
A turma que homenageou Heloisa Pires Lima, grande referência da literatura, a conduziu em cortejo até um baobá, na praça vizinha à escola. Heloisa ficou encantada. Lá, ouviram da autora a história dessa árvore que, em culturas de diversos povos do continente africano, é o lugar onde, ao longo do tempo, gerações compartilham histórias e ensinamentos. Outro grupo se envolveu com o livro Azul Haiti, de Paty Wolff, e levou as inspirações da obra para as aulas de Artes, traduzindo sentimentos e paisagens em criações visuais.

Nas conversas com as autoras, uma pergunta sempre surgia: “quais suas escritoras favoritas?”. As respostas permitiram que as crianças ampliassem seu repertório e conhecessem novas obras.
O compartilhamento das leituras foi uma parte importante do projeto. Além das indicações dadas pelas escritoras, os/as estudantes também trocaram correspondências com colegas de outras turmas. Para isso, foram instaladas “caixas de correios” nas salas, nas quais os alunos e alunas podiam deixar bilhetes indicando livros para os/as colegas.

As famílias também foram envolvidas no processo de leitura e até lançaram uma iniciativa própria, o projeto Griô. Criado por Maria Carolina Venuto e Rômulo Oliveira, pais de estudantes do Vera, o Griô começou como uma proposta para fazer circular entre as demais famílias os livros que eles tinham em suas casas. Hoje, o projeto permite que pessoas de fora da comunidade também participem dessas trocas.
“Ao relacionar-se com o acervo atualizado, novas perguntas e anseios foram incorporados ao cotidiano escolar: narrativas antes silenciadas promoveram mudanças de olhares, isto é, o que antes era pouco tangível passou a ser enxergado, como o fato de as diferenças serem parte da vivência humana e, portanto, também do cotidiano escolar”, diz Juliana.
Na fliVerinha, a homenagem às autoras

O lançamento do Guia de navegação Conceição Evaristo, e a inauguração da biblioteca aconteceram durante a 35ª fliVerinha, que teve a participação da autora Bianca Santana. “Batizar esse importante espaço da Escola Vera Cruz com seu nome é reconhecer uma linhagem de mulheres negras que, por meio da palavra e da ação coletiva, constroem formas de existência ancoradas em afeto, memória e ancestralidade”, afirma Juliana. “A homenagem a todas as autoras foi celebrada durante a festa literária. Em cada sala de aula das 7 turmas de 1º ano, havia exposições sobre os aprendizados das crianças na relação com a obra e suas autoras”, diz a coordenadora.
Os livros reorganizados estão divididos em dois espaços: na sala dos professores, de onde as obras são selecionadas para serem enviadas para as bibliotecas de sala de aula; e na sala leitura, onde os/as estudantes podem acessá-las livremente.
O trabalho com as leituras do acervo – que será permanente em todos os níveis do Vera – já deixa legados. A proposta de uma biblioteca temática, afrodiaspórica e africana fica não só como um espaço de valorização, mas sobretudo como uma oportunidade de promover experiências que fomentam valores humanos, rompem com estereótipos e ampliam imaginários, fortalecendo a formação leitora e cidadã.
Para saber mais
ENTREVISTA Bianca Santana fala sobre a escrita do livro Quem limpa?”
LIVRO Poemas da recordação e outros movimentos, de Conceição Evaristo
PROJETO “BIBLIOTECA AFRODIASPÓRICA E AFRICANA BIANCA SANTANA”
PROFESSORES/AS André Papineanu, Bárbara Nascimento Silva, Beatriz Freire Siqueira de Carvalho, Célia Mendes, Cláudia Stefanelli Julien Ribeiro, Elisabete Ferreira da Mota, Giulia Fava, Maria Carolina Gonçalves Venuto, Mariana Cavalcante Albuquerque, Mariana Serri Francoio, Paula Tonetto, Rafael José da Silva, Silvia Mendonça, Sofia Ferraz da Costa, Sheila Perina de Souza, Thainná Santana Rodrigues, Thatiany Candido Oliveira dos Santos, Viviane Azeredo Noguchi
ORIENTADORAS Marcia Moraes e Juliana Parreira
COORDENADORA DE PRÁTICAS DE LINGUAGEM Luiza Gaia