Jogos africanos e indígenas unem gerações diferentes 

Estudantes do Ensino Médio produziram opções em tabuleiro para brincar, ensinar e aprender com crianças de escola próxima

REPORTAGEM Mariana Gonzalez

A construção dos jogos fez com que os/as estudantes colocassem em exercício competências em design, prototipagem e resolução de problemas. Crédito: Acervo/Escola Vera Cruz

Durante as quintas-feiras do segundo semestre de 2025, estudantes do Ensino Médio da Escola Vera Cruz foram à EMEI Dona Leopoldina, no mesmo bairro da escola, para se encontrarem com as crianças para sessões de jogos de tabuleiro inspirados nas culturas africanas e indígenas. Essa foi apenas uma das etapas de uma iniciativa conjunta entre os projetos Entrelaços, conduzido pelo professor Luiz Felipe Busse Penna, e Prototipagem, conduzido pela professora Marcella Fogliano Marini. 

Primeiro, um grupo de 12 jovens do Ensino Médio mergulhou nos jogos dessas culturas tradicionais, estudou quais brincadeiras seriam adequadas para a faixa etária das crianças da EMEI e chegou a quatro opções: Achi, Borboleta, Fanorona e Mancala, que exigem habilidades como comunicação e estratégia, mas especialmente lógica. Depois, na Oficina de Prototipagem, atividade extracurricular ministrada pela professora Marcella, fabricaram esses jogos, usando sistemas de código aberto para desenhar os modelos no computador e máquinas de prototipagem e, então, transformaram materiais como EVA e MDF em tabuleiros e peças. 

Encontro entre jovens estudantes do Vera e crianças da EMEI Dona Leopoldina coloca em prática aspecto comunitário dos jogos indígenas e de matriz africanas e permite diálogo entre diferentes gerações. Crédito: Acervo/Escola Vera Cruz

Ao longo de 12 encontros, a turma desenvolveu alguns protótipos; a cada versão, estudantes e professores/as jogavam entre si para testar as regras e o funcionamento prático do que estavam criando. Em alguns casos, foi preciso rever tamanho e cores das peças, conta o professor Luiz Felipe. 

Segundo ele, a construção dos jogos envolveu desde o planejamento das regras até a elaboração estética e o design dos componentes, exigindo dos/as estudantes uma postura ativa, crítica e criativa, além do desenvolvimento de competências em design, prototipagem e resolução de problemas. “Os jogos cumprem papel relevante não apenas como ferramenta lúdica, mas como dispositivos de aprendizado e transmissão cultural. A criação e o estudo desses jogos promovem valores éticos, cognitivos e colaborativos, além de abrir espaço para o reconhecimento da ancestralidade e da pluralidade cultural africana e afro-brasileira”, afirma Luiz Felipe.

A professora Marcella acrescenta que pesquisar, planejar, desenhar e produzir os próprios jogos é uma experiência rica para os alunos e alunas, especialmente no contexto contemporâneo, em que jogos e brinquedos são comprados todos prontos, na prateleira de uma loja.

Em paralelo à prototipagem dos jogos, professor e adolescentes estudavam, também, a melhor forma de levar essas brincadeiras aos/às pequenos/as da EMEI, em um exercício de empatia, trabalho em equipe e pensamento crítico. “Conversamos sobre como ensinar as regras do jogo, organizar o espaço e dividir as crianças em pequenas turmas, além de elaborar algumas estratégias para mediar eventuais conflitos durante as brincadeiras. Esse processo é bonito de ver, porque os alunos do Ensino Médio percebem como é difícil trabalhar com crianças, educar e ensinar”, fala Luiz Felipe. Além disso, completa o educador, essa troca fortalece o diálogo entre diferentes gerações e valoriza o aspecto comunitário dos jogos indígenas e de matriz africana. 

Ao final do semestre, os/as estudantes do Vera produziram uma versão final do jogo Mancala, com acabamento e embalagem personalizada, para presentear a EMEI. “Os nossos alunos ensinaram os jogos para as crianças da EMEI, mas elas também nos levaram para conhecer outros jogos e brincadeiras que há por lá. Foi uma verdadeira troca entre escolas e diferentes gerações”, relatou o professor. 

Para saber mais

PROJETO ENTRELAÇOS

PROFESSOR Luiz Felipe Busse Penna

PROJETO OFICINAS DE PROTOTIPAGEM

PROFESSORA Marcella Fogliano Marini

AUXILIAR DE LABORATÓRIO Jonatas Palumbo Ribeiro

ORIENTADORA Maria Teresa Mendes de Oliveira

COORDENADORA Ana Maria Bergamin

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Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.