Sequestro indígena: a história pela escrita disruptiva de Micheliny Verunschk

Maria Laura Saraiva

“Esta é a história da morte de Iñe-e.
E também a história de como ela perdeu o seu nome e a sua casa.
E ainda a história de como permanece em vigilância”

— Micheliny Verunschk

Em 1817, a dupla de pesquisadores Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius desembarcou no Brasil com o objetivo de descrever a fauna e a flora da colônia portuguesa. Três anos depois, a dupla voltou a Munique, na Alemanha, levando não apenas o relato de viagem, mas também duas crianças indígenas do povo Miranha que morreriam pouco tempo depois de pisar em solo europeu.

Com base nesse episódio real, a escritora pernambucana Micheliny Verunschk redigiu seu quinto romance, O som do rugido da onça. Selecionada pela professora Aline Borrely para a atividade de leitura compartilhada do 8o ano, a narrativa dá voz a Iñe-e, uma das crianças raptadas pelos bávaros, e Josefa, jovem paraense do século XXI que descobre suas origens indígenas.

Além de trazer à tona o crime cometido pelos europeus, o livro ainda ganha fôlego social ao mostrar a perspectiva indígena em conflito com documentos históricos expostos em museus e enciclopédias. “Trata-se de uma obra potente e urgente de ser lida”, destaca a professora.

De acordo com ela, um dos objetivos da proposta foi dar acesso a uma narrativa que confrontasse a historiografia hegemônica, que costuma prevalecer nas narrativas. Os alunos puderam refletir sobre a perspectiva de superioridade presente na forma como os povos brancos narram a história dos nativos brasileiros.

Esse contraste de pontos de vista foi um dos aspectos que mais chamou a atenção da aluna Stella Gottardi de Figueiredo Silveira. Para ela, o livro foi capaz de desmascarar os mitos que envolvem o encontro entre europeus e indígenas no Brasil. “Minha visão mudou. Os verdadeiros bárbaros sempre foram os europeus”, pontua.

Em cena, uma descoberta – um novo modo de narrar os fatos. E não só. Para o estudante Guilherme Lobo Salles Leite, outro destaque é a contemporaneidade do relato. “Ficou evidente a discriminação com outros povos e etnias. Com os paralelos que o texto faz com os tempos atuais, essa impressão só aumenta”, diz.

Até mesmo a linguagem poética da autora, segundo a dupla, fez valer a pena o desafio de percorrer as páginas e conhecer mais a respeito da luta pela sobrevivência vivenciada pelos indígenas desde a colonização. “Leituras como essas nos ensinam que devemos tratar os outros com igualdade, independentemente de sua etnia. Preparam crianças e jovens, eu incluído, para um futuro onde todos sejam tratados com igualdade”, afirma Guilherme.

Durante a leitura compartilhada, atividade acompanhada também pela professora da biblioteca, Alessandra Vaz, a turma ainda teve a oportunidade de conversar diretamente com a autora Micheliny Verunschk. Seguindo o formato de uma entrevista, os alunos puderam perguntar sobre a obra, discutir suas próprias interpretações e confirmar hipóteses a respeito do livro em um bate-papo virtual promovido em parceria com a editora Companhia das Letras. Nas palavras da autora, as questões tornaram a conversa “emocionante e profunda”.

Na conversa, além de conhecer mais sobre o processo de escrita e a história dos Miranha, a autora também aproveitou para convidar os alunos a perceber o amadurecimento que vai ocorrendo em nossa história enquanto leitores, principalmente diante das falas sobre os desafios que a linguagem e a dinâmica da narrativa apresentaram durante a leitura.


Participação familiar potencializa a leitura

Para além da sala de aula, é ao lado dos familiares, em casa, que os alunos podem dividir suas impressões a respeito do livro. Combinação que, segundo a professora Aline, só traz benefícios para a vida escolar.

“Ao selecionar um livro que traz referências maduras, como é o caso de Ailton Krenak e Itamar Vieira Junior, que aparecem no paratexto da obra, a turma percebe que aquele conteúdo pode gerar interesse não só entre os colegas, mas nas famílias”, explica.

Com isso, o debate a respeito das pautas indígenas – e da própria educação antirracista – se expande para a vida e o cotidiano desses jovens. Por outro lado, o diálogo com os familiares também possibilita que outras gerações tenham contato com esses aprendizados. “Essa troca é muito potente, principalmente no que diz respeito a desassociar a literatura apenas do espaço escolar e incorporar essa arte no cotidiano”, conclui a professora.

Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.