O projeto de educação antirracista do Vera existe para combater, no ambiente escolar, o racismo estrutural. Na prática, isso significa reconhecer como o racismo presente na sociedade age para criar e aprofundar as desigualdades. Não há exemplo mais atual desse mecanismo do que os impactos das mudanças climáticas.
As desigualdades raciais construídas ao longo da história fizeram com que, hoje, alguns grupos raciais estejam mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Mesmo quando toda a população de uma região é impactada por fortes chuvas, por exemplo, nem todos enfrentam as mesmas consequências desse fenômeno. É o que explicamos na nossa reportagem de capa, com base no projeto feito com turmas do 9º ano durante Estudo do Meio em Porto Alegre.
Tanto o racismo quanto as mudanças climáticas são, também, fenômenos gerados pela ação humana. Reconhecer essa realidade empodera crianças e jovens para que atuem no combate a eles: se nós, humanos, criamos esses problemas, cabe a nós solucioná-los.
Ambas as questões fazem parte de um debate intenso da sociedade, da política nacional e internacional, e dos movimentos sociais. Também são alvo de pesquisas nas ciências humanas e da natureza, e tema constante na literatura e na arte. São, portanto, um convite à derrubada das fronteiras entre as disciplinas e para incorporar em sala temas conectados com o cotidiano e com as atualidades, como você verá ao longo desta edição.
Os exemplos que mostramos nesta edição da Zum-Zum são apenas algumas das incontáveis possibilidades para debater raça, clima e a intersecção entre eles. Esperamos que você aproveite a leitura, e que ela desperte também interesse em discutir o tema em casa, no trabalho, em sala de aula, ou onde você estiver. Boa leitura!
Sobre a capa
O Estudo do Meio feito pelas turmas do 9º ano em Porto Alegre também inspirou Juliana Lopes, da Casa Vera Cruz e editora de arte da Zum-Zum, na elaboração da imagem de nossa capa.
O tema da justiça climática disparou duas palavras norteadoras para a construção visual da capa: margem e território.

A ideia de margem aparece nos seus dois sentidos. O primeiro é o de uma faixa de terra que cerca uma porção de água. Essa terra é representada na capa pelo mapa da Ilha da Pintada, com suas margens e território invadidos pelo texto, em referência ao transbordamento do Lago Guaíba. O segundo sentido, simbolizado pela ausência de margens na capa, remete ao “estar à margem”, em alusão à posição social em que grande parte dessa população é colocada.
Já o significado da palavra território expandiu-se a partir da ideia do corpo negro como um território, pensamento fundamentado pela historiadora Beatriz Nascimento no final da década de 1980. A reflexão da pesquisadora se articula com a obra Wade in the Water, de Antônio Obá — artista brasiliense que dá protagonismo ao corpo negro em sua produção —, e serve como referência para a definição da paleta de cores do cartaz.
Conselho Editorial da revista Zum-Zum