Onde está a Mata Atlântica?

Explorando vários sentidos, o G3 conheceu mais da flora próxima à Escola e percebeu a importância de preservar esse bioma brasileiro

Reportagem: Gabriely Araújo

As crianças aprofundaram seu conhecimento sobre a Mata Atlântica ao acompanhar o ciclo das árvores dos arredores da Escola

Ao longo de 2024, quem passasse pelas ruas entre o Verinha – unidade de Educação Infantil da Escola Vera Cruz – e a Praça Capitão Mateus de Andrade poderia encontrar um grupo de crianças curiosas, observando um elemento que passa despercebido por quase todos que transitam por ali: as árvores presentes nos arredores da Escola.

As atividades ao ar livre fizeram parte do projeto “Onde está a Mata Atlântica?”, conduzido pelos professores Sofia Alves e Samuel Oliveira, em que as crianças de 3 e 4 anos puderam reconhecer a presença desse bioma em suas vidas e, de acordo com os educadores responsáveis, “imaginar camadas de mundo”. “Esperávamos que elas pudessem se reconhecer como parte pertencente e responsável pela natureza e não apartados ou superiores a ela”, conta a orientadora Silvia Macul.

Antes de iniciar o trabalho em sala, foi realizado um ateliê disparador, no qual a orientadora Silvia e a atelierista Luz Marina Espíndola organizaram uma imersão criativa para a equipe de educadores, nutrida por textos, arte e reflexões que aprofundaram o olhar deles sobre o tema.

Ao observar atentamente as plantas dentro e fora da Escola, as crianças desenvolveram a sensibilidade para reconhecer a presença – muitas vezes ignorada – da natureza no espaço urbano

Essa troca ajudou no planejamento colaborativo iniciado em abril e que, ao longo dos meses, foi incorporando a participação das crianças. “A sequência foi sendo construída com base no nosso olhar para o que vivíamos com as crianças e nos nossos estudos sobre o tema. Sempre nós quatro (professores, atelierista e orientadora) pensando nos próximos passos”, afirma Silvia.

A jornada investigativa começou com provocações planejadas para instigar o olhar das crianças sobre a complexa relação entre a floresta e a cidade. O objetivo era despertar a percepção de que o espaço urbano onde vivem guarda as memórias de uma paisagem natural ancestral, ao convidá-las a se tornarem exploradoras do próprio território. Outro propósito era evitar o fenômeno da “cegueira botânica”, quando a pessoa, por sempre ver frutas, folhas e frutos apenas no mercado, não reconhece de onde eles vieram, como são suas árvores e seus ciclos, e/ou nem percebe as plantas como seres vivos naquela paisagem.


Exploração e registro sensorial

Quando chegou o momento do planejamento se transformar em ação, foi iniciada uma série de passeios pelo entorno do Vera, durante os quais o grupo de crianças, portando um mapa da região, reconheceu e marcou, com desenhos e pinturas, árvores importantes da Mata Atlântica presentes no quarteirão da Escola: pau-brasil, pau-ferro, sibipiruna, quaresmeira, araribá, ipê-amarelo, jabuticabeira, pitangueira e araucária. As crianças foram convidadas a usarem todos os seus sentidos: tocar os troncos, cheirar as folhas, perceber os sons e observar as cores e as texturas.

O mapa elaborado pela turma incluiu os desenhos das árvores presentes na região

Para documentar e expressar as descobertas, já em sala, foram utilizadas diversas linguagens, como desenhos de observação e pinturas com aquarela, que se tornaram registros sensíveis desse processo de aproximação. Essa exploração contínua e atenta foi fundamental para que as crianças construíssem um conhecimento afetivo com a natureza.

Foi possível, ao longo do semestre, ver o ciclo de algumas plantas, como a jabuticabeira. “Nos encantamos com sua transformação ao longo dos meses, observamos a formação das flores, que cobrem os troncos e, aos poucos, vão dando lugar às frutas verdes, depois, avermelhadas e, por último, pretas. Acompanhar esse ciclo de perto nos possibilitou pensar sobre essas transformações e sobre a passagem do tempo, comparando algumas árvores, fazendo relações e criando hipóteses”, contam os educadores em relato coletivo.

A pintura aquarela foi a técnica escolhida para as crianças registrarem suas descobertas botânicas

Conhecendo comunidades indígenas na cidade

Além dessa exploração in loco, os professores apresentaram conhecimentos produzidos por povos indígenas, com o objetivo de proporcionar às crianças contato com formas mais harmônicas de habitar nosso planeta, uma vez que eles têm uma relação milenar com a Mata Atlântica, bem como saberes ancestrais sobre alimentação e cultivo sustentável.

As crianças assistiram ao filme Pajerama, que narra a história de um indígena que passeia pela floresta enquanto ela se transforma em uma grande cidade. A animação gerou uma conversa sobre a transformação da paisagem e o desaparecimento das matas. Ao serem questionadas sobre onde estava a floresta na cidade e o que tinha acontecido, as crianças levantaram algumas hipóteses.

Para Marina V., “a floresta virou uma cidade”. O raciocínio foi complementado por Cecília V., que observou: “Algumas árvores viraram prédios. Eles ficaram muito tristes porque a floresta toda virou cidade no final. Eu sabia que era floresta porque meu pai nasceu antes da minha mãe e de mim e disse que tinha uma floresta”.

Já Dante T., depois de também falar que as florestas viraram cidade, convidou: “Então vamos plantar mais Mata Atlântica na cidade!”.

Os educadores também exibiram alguns vídeos para que as crianças conhecessem duas lideranças indígenas que vivem em terras Guarani Mbyá na cidade de São Paulo: Tamikuã Txihi e Jerá Poty Mirim, que têm se dedicado a reflorestar a cidade a partir de suas terras. Na sequência, perguntaram à turma por que é importante plantar mais florestas. As respostas foram precisas: Cecília M. disse que era “pra nascer mais bichos”, enquanto Marina V. afirmou que era “pra ter mais árvores” e Helena L. disse que era para ter mais “rios”.

Durante as caminhadas pela vizinhança, as crianças registraram o que viam, em desenhos de observação

As árvores pelo olhar das crianças

O ápice do projeto foi a transformação da observação em narrativa, quando as crianças começaram a dar voz às suas descobertas. O conhecimento construído coletivamente sobre cada árvore materializou-se em textos repletos de afeto, que foram compilados em um documento junto com as pinturas feitas pelas crianças (ver o documento a seguir).

documento-do-mapa-Mata-Atlantica

“Conhecer as árvores, as características delas (cor, forma, ciclos) fez com que as crianças se aproximassem delas como sujeitos, de forma respeitosa, curiosa e cuidadosa. Ao longo do projeto fomos percebendo um olhar mais atento e apurado para outras árvores, outros ciclos e sua importância. Pudemos pensar com as crianças o quanto somos também natureza”, comentam os professores.


O envolvimento das famílias

Ao atribuírem nome, forma e história a cada árvore, as crianças teceram uma teia de significados que deu vida à floresta. Esse sentimento de conexão logo se espalhou para além dos muros da escola, envolvendo as famílias. Os pais e responsáveis também receberam o mapa com a localização das árvores e um QR code com o catálogo produzido pelas crianças sobre cada uma das árvores, e a comunidade passeou pelos arredores reconhecendo as plantas.

O mapa elaborado pelo grupo serviu como recurso para as crianças se lembrarem das aprendizagens e as compartilharem com as famílias

Além disso, durante todo o projeto, os professores enviavam partes do trabalho às famílias, e as crianças também compartilhavam, por desenhos ou oralmente, o que observavam em casa, passeios e viagens, conectando a experiência de sala ao dia a dia. “As famílias, ao final do projeto, disseram o quanto as crianças agora saem pela cidade procurando as árvores que conhecem, diferenciando-as”, contam os educadores.

Para saber mais

Artigo | “Mas de que te serve saber botânica?, de Antonio Salatino e Marcos Buckeridge

Vídeo | Curta-metragem Pajerama, do Instituto Socioambiental

Vídeo | Jerá Guarani apresenta a aldeia Tenondé Porã

Vídeo | Programa Convida, do Instituto Moreira Salles: “Tamikuã Txihi

Projeto Onde está a Mata Atlântica?

Professores: Sofia Alves e Samuel Oliveira

Auxiliar De Grupo: Simone Nunes

Atelierista: Luz Marina Espindola

Orientadora: Silvia Macul

Coordenadora: Fabiana Meirelles

Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.