O Brasil visto pela janela

Do 3º ao 5º ano, a observação do cotidiano serviu de base para desenvolverem habilidades de escrita em inglês

Reportagem: Nairim Bernardo

O projeto convidou os alunos e alunas a olharem pelas janelas e a usar o inglês para comunicar sobre o próprio país. Crédito: Acervo/Escola Vera Cruz

“Which Brazil do you see from your window?” Os alunos e alunas do EF nível 2 do Vera foram convidados/as a observar, refletir e responder em inglês sobre o que viam ao redor. O trabalho partiu da leitura de From My Window, versão em inglês do livro Da minha janela, de Otávio Júnior. Na obra, Júnior descreve as belezas e desafios que vê da sua janela em uma favela, e esse foi o ponto de partida para o trabalho realizado pelos/as estudantes do 3º, 4º e 5º ano.

Quando a equipe organizadora da fliVera 2024 (Festa Literária do Vera) apresentou o tema “Brasis, de lá pra cá, daqui pra lá”, a equipe de Inglês iniciou um processo de curadoria para escolher a obra literária que orientaria o projeto realizado com as crianças. O desejo era o de encontrar um livro que permitisse a ligação do currículo da língua adicional com os “Brasis”.

“É um desafio encontrar materiais que sejam decoloniais, conversem com o tema da brasilidade e permitam uma boa leitura em língua inglesa para crianças. Pesquisamos e encontramos esse livro, que alguns alunos já tinham tido contato na versão original, em Língua Portuguesa”, conta Michelle Perego, orientadora de Inglês do EF nível 2. A leitura da obra traduzida também foi uma oportunidade para que as crianças vissem que é possível usar outra língua para falar sobre o seu país, e não só para consumir cultura estrangeira.

Em sala de aula, a primeira etapa foi a realização de um brainstorming com as crianças: o que você relaciona à palavra favela? Nas respostas, que foram organizadas em um mapa mental, apareceram pontos negativos, mas também positivos. Por um lado, a ideia de que as favelas são pouco organizadas, com casas pequenas, sem pintura, sem hospitais. Por outro, também citaram o lazer dos jogos de futebol e do funk, as danças e o colorido. Essas foram algumas das relações estabelecidas por elas e escritas em inglês na lousa pela professora Bertile Furuta, que acompanhou as turmas dos três anos.

Mapa mental mostra quais foram as primeiras impressões da turma em relação à palavra favela. Crédito: Acervo/Escola Vera Cruz.

Leitura compartilhada: o primeiro contato com a história

Depois, os alunos e alunas fizeram uma leitura compartilhada do livro, modalidade em que a professora lê em voz alta e eles/as acompanham visualmente as palavras escritas e, principalmente, as imagens. “Muitas palavras e expressões eles já conheciam. O sentido das mais complexas foi construído coletivamente, principalmente com quem já sabia ajudando quem tinha dúvidas”, conta a professora. “Este é um livro em que os textos são menos complexos e, para uma leitura individual, poderíamos indicar para o 4º ano. A história é escrita a partir do olhar da criança”, completa.

Na sequência, os/as estudantes compararam suas visões prévias sobre favela com o que era apresentado no livro e foram convidados/as a refletirem sobre sua própria realidade. Segundo Bertile, foi interessante observar o processo de desconstrução e reconstrução do olhar suscitado pela obra, que apresenta os desafios, mas também traz uma visão positiva, colorida e bela sobre esses locais. Ela perguntou se, assim como mostrado nas ilustrações, os alunos e alunas conseguiam empinar pipa, por exemplo. Sem romantizar, as turmas chegaram à conclusão de que em todos os lugares há pontos positivos e negativos.

Segundo Michelle, algumas crianças disseram: “Eu não imaginava que de uma janela ele [o autor do livro] visse tantas coisas assim”, mostrando que o trabalho ajudou na ampliação de repertório e do entendimento de que há pontos de vista variados. “A leitura foi muito enriquecedora para os alunos e para a equipe de professores, que precisa estudar e se apropriar dos temas para olhar para a favela com outra perspectiva.  Algumas crianças já traziam uma visão diferente das outras, o que acrescentou muito para as conversas”, diz a orientadora.

O livro termina com a pergunta “O que você vê da sua janela?”. Após a leitura e as reflexões coletivas, cada estudante foi convidado/a a observar a paisagem da janela da escola, do carro durante seus deslocamentos cotidianos e de casa. Depois, cada um/a desenhou e descreveu o que tinha visto.

Produção de uma estudante do 5º ano. Crédito: Acervo/Escola Vera Cruz

Compartilhando a multiplicidade de olhares

“Elas ficaram encantadas com a beleza estética do livro e foi muito legal fazer a leitura visual da obra”, afirma a professora. “As crianças adoram desenhar e são supercaprichosas. Teve gente que desenhou um monte de prédios, lojas, ruas, carros e plantas. Elas ficaram muito orgulhosas dos trabalhos e felizes porque toda a escola e as famílias viram o que foi produzido durante a exposição na fliVera. Já chegaram no evento procurando onde estava o trabalho da turma deles, pois queriam muito mostrar para as famílias”, relembra.

Os diversos pontos de vista das crianças puderam ser conferidos por toda a comunidade escolar durante a FliVera. Crédito: Acervo/Escola Vera Cruz

A educadora explica que, como o mesmo trabalho foi feito em turmas de diferentes anos, é interessante observar o desenvolvimento da escrita em inglês de cada uma delas. “Com o tempo, a língua vai ficando mais elaborada, os textos mais longos e o estudante mais autônomo no trabalho”, diz Michelle. Em sala, as conversas também eram diferentes. “No 3º ano, a descrição do que eles veem é muito mais objetiva e concreta. Já no 5º, eles estão mais preparados para as discussões, tanto do ponto de vista da língua inglesa quanto das questões sociais e raciais, por conta de todo o trabalho de educação antirracista desenvolvido pela escola”, conclui ela.

Para saber mais

Texto | Entrevista com Vanina Starkoff, ilustradora de From My Window, de Otávio Júnior

Vídeo | Leitura do livro From My Window

Texto | Sugestões de atividades com o livro From My Window

Projeto From My Window

Professores: Andréa Carlsson, Bertile Furuta, Ivan Nascimento, Maria do Socorro de  Mâcedo e Victor Viana
Orientadora: Michelle Perego
Coordenadoras: Rita Botter e Valéria Novoa

Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.