Silvane Silva
Assessora, pesquisadora e professora sobre relações raciais na escola. Doutora em História Social, é professora do Instituto Vera Cruz.
Milton Santos foi o único geógrafo fora do mundo anglo-saxão a receber o Prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel da Geografia, além de diversos títulos honoris causa. Autor de mais de 40 livros, esse grande pensador dedicou boa parte da sua produção a discutir o Território. Para ele, esse conceito só se torna utilizável para uma análise social quando o consideramos em seu uso, ao pensarmos juntamente com aqueles que dele se utilizam.
Tuíre Kayapó, histórica liderança indígena altamente reconhecida, enfatizou que, depois de tantos anos de luta, não queria mais “ver a morte da pouca terra” que ainda restava para os povos indígenas, e nem queria mais ver “agredirem a terra”. Durante a Marcha de Mulheres Indígenas de 2023, ela falou com firmeza: “Eu não quero que os indígenas continuem morrendo. Por isso estou aqui falando isso. Lutando até hoje. Eu quero que meus netos, meus filhos e os filhos dos meus netos continuem existindo”.
Beatriz Nascimento, historiadora, pioneira nos estudos sobre quilombos urbanos, foi uma das primeiras estudiosas a deixar registrada, ainda nos finais dos anos 1980, a ideia do corpo negro como um território. “Eu sou Atlântica”, ela dizia em referência ao oceano que separa os continentes americano e africano. Ao fazer essa afirmação, Nascimento recuperava a memória da travessia. Afirma o corpo negro como território que carrega histórias e culturas que vieram de África. Um corpo que carrega modos de ser, de estar e de viver que são ancestrais.
Ao retomar as ideias dessas três importantes pessoas, pretendo chamar atenção para o fato de que, quando falamos em mudanças climáticas, em preservação ambiental, em justiça climática ou em educação ambiental ou climática, não podemos nos esquecer de trazer para a conversa o conceito de racismo ambiental e de justiça climática. Quais são as populações que mais sofrem com as alterações climáticas? Quais são os grupos responsáveis pelo aumento da degradação do planeta? Quais são os modos de vida que o protegem? Essas e outras perguntas precisam ser debatidas.
Estudar os modos de vida das comunidades tradicionais como as quilombolas, ribeirinhas e indígenas pode nos trazer um importante aprendizado sobre como é possível ocupar um território garantindo a manutenção da vida de todos os seres vivos: da terra, das águas, de toda diversidade de plantas e de animais.
Vale a pena retomar os valores civilizatórios afro-brasileiros, sistematizados na mandala de Azoilda Trindade, como, por exemplo, o axé, a energia vital que todos os seres carregam na relação com os outros seres. Ou a corporeidade: o corpo como território da nossa existência.
Povos africanos e povos indígenas carregam no corpo uma história e uma memória de luta pela manutenção dos seus modos de existência que os acompanham onde quer que estejam.
Ao se propor uma educação climática, se torna essencial compreender o quanto as comunidades tradicionais têm a nos ensinar sobre como podemos ocupar os territórios e conviver sem destruir. Tornar conhecidas as tecnologias pensadas pelas comunidades que podem ser exemplos positivos de como romper com a gana desenvolvimentista, extrativista e violenta que não apresenta nenhuma preocupação com a manutenção da vida no planeta Terra. Uma educação emancipatória é aquela que promove justiça curricular. Ou seja, um currículo comprometido com a justiça social por meio da reflexão crítica da realidade e, com conhecimentos e práticas referenciados nos saberes existentes nos diversos territórios e na diversidade de povos. Como está posto nas Diretrizes de Educação Integral Antirracista, uma educação que pensa a sustentabilidade como modo de transformação do meio em que se vive, garantindo o respeito ao meio ambiente e a permanência da vida humana, que tem por base a territorialidade, que considere o território como espaço de experiências, de construção de saberes, de interação e de identificação.