Um estudo sobre os bairros de São Paulo levou as turmas do 4º ano a refletirem sobre causas, consequências e soluções para as mudanças climáticas
Reportagem: Nairim Bernardo

Durante as leituras de jornal, prática habitual nas turmas do Vera, as crianças do 4º ano notaram que um tema aparecia recorrentemente (que você, adulto, talvez também tenha notado): a COP30, Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas. Curiosas, elas levantaram diversas questões sobre o assunto, que foram aprofundadas ao longo do ano, ao estudarem os bairros da cidade de São Paulo e a relação de suas transformações com o clima.
“As crianças percebem que coisas estão acontecendo, sentem na pele os eventos extremos. Na Escola, fomos nos aprofundando nisso para entender os fenômenos de modo mais sistêmico”, conta Lays Pereira, uma das professoras do 4º ano.
O trabalho de investigação sobre os bairros da cidade envolveu pesquisas em textos e vídeos indicados pelas professoras. As crianças também ouviram histórias de moradores de cada região e observaram as transformações ocorridas ao longo dos anos. O estudo despertou o interesse de uma turma, que se engajou profundamente nas discussões. A reflexão sobre como essas transformações se relacionavam com as mudanças climáticas, por exemplo, levantou questões sobre como a cidade canalizou seus rios. “Quando conseguimos trabalhar com uma temática socialmente viva, elas tendem a ser muito ativas no processo de falar, pensar e expor o que pensam. Então, o processo fica muito mais interessante”, diz Lays.

Uma das questões centrais discutidas foi: “Por que São Paulo deixou de ser a ‘terra da garoa’ para se transformar na terra das tempestades?”. Para responder a essa questão, as crianças analisaram, por exemplo, como a canalização dos rios que estavam no espaço ocupado pela cidade impactou o ciclo da água. Também refletiram sobre a presença de carros e fábricas, e o seu impacto no clima.
“A gente acha que, como tinha muitas árvores, elas ajudavam a manter a temperatura e, por isso, antes garoava mais. Conforme foram desmatando, foram surgindo as fábricas e muito lixo. Tudo isso faz com que não garoe mais — a chuva vai acumulando e vira tempestade”, concluíram as alunas Maria e Marcela, de 9 anos, após uma das discussões em sala de aula.
Um chamado à ação
Também foi parte importante do trabalho mobilizar a turma a identificar e propor soluções para a crise climática. Isso se deu de duas formas: na montagem de um jogo, criado pela turma do 4º ano A, e na escrita de uma carta, pelo mesmo grupo.
O jogo criado pela turma tinha como objetivo fazer com que os jogadores combinassem cartas que apresentavam os desafios relacionados a poluição, desmatamento, emissão de gases, entre outros, com cartas que propusessem soluções.
No evento Escola Aberta, em novembro, as famílias foram convidadas a participarem das investigações das crianças. Diante das anotações feitas pelos/as estudantes, elas refletiram sobre problemas relacionados às mudanças climáticas, mais especificamente sobre as tempestades na cidade de São Paulo, suas causas e consequências. Elaboraram cartas com possíveis soluções para reduzir os alagamentos e enxurradas que assolam a capital paulistana.
Com o material finalizado coletivamente, as cartas foram apresentadas para todos e todas e as famílias vivenciaram o jogo, que permanece na Escola para que outras turmas possam jogá-lo ou replicá-lo. Segundo a professora, as famílias ficaram muito engajadas ao depararem com um tema urgente não só para as crianças, mas para toda a sociedade, e impressionadas com o que elas apresentaram sobre a questão.
No dia do evento, as crianças também apresentaram uma carta que escreveram aos líderes presentes na COP30. A ideia de redigir o documento surgiu ao terem contato com a plataforma Donos do Planeta, criada pelo jornalJoca para publicar textos de jovens e crianças a respeito dos temas que seriam discutidos na conferência.
Para comporem a carta, primeiro as crianças se familiarizaram com o gênero textual e leram alguns exemplos. Depois, planejaram um roteiro com os tópicos do que gostariam de comunicar para, com base nele e divididos em dois grupos, escrevê-la. Ao final, as professoras leram o que foi para o papel e perguntaram se era necessário algum ajuste. A carta foi validada e passou por uma revisão final das docentes antes de ser enviada.
“Elas ficaram muito empolgadas porque a carta foi publicada. A carta aberta tem esse papel político, de chegar em quem toma a decisão, e elas entenderam a importância disso”, relembra a professora (leia aqui a carta publicada).
O engajamento das crianças no trabalho animou a equipe pedagógica. “Nos chamou atenção perceber que as crianças estiveram muito ativas nesse percurso de estudo e investigação. Elas estavam antenadas na temática, percebem que as coisas não estão indo bem e, diante disso tudo, conseguiram pensar em soluções, projetando sonhos e esperanças. Esse também era nosso objetivo com esse projeto: fazer algo não muito fatalista, mas que propusesse um futuro possível”, explica Lays.
Para saber mais
Texto | “Ações humanas estão provocando um ecocídio planetário, diz Carlos Nobre”, publicada no Jornal da USP.
Reportagem | “Cidade de SP deixou de ser terra da garoa para se tornar cidade das tempestades”, publicada pelo portal G1.
Revista| Edição Um Brasil mais seco, da revista Pesquisa Fapesp.
Artigo | “Uma reunião pela vida”, da revista Ciência Hoje para Crianças.
Podcast | “Tempo quente”, da Rádio Novelo.
Vídeo | Kids First at Cop27, disponível no YouTube.
Vídeo | Entrevista do professor Carlos Nobre ao programa Roda Viva.
Projeto Bairros de São Paulo
Professora: Lays Pereira
Auxiliar: Ana Odália
Orientadora: Emilian Cunha (Dami)
Coordenadora: Débora Rana