A tecnologia que vai além do digital

Inspiradas na trajetória de povos ancestrais, turmas do Vera Integral transformaram elementos como madeira, barro, caixas de ovos e metal em utensílios domésticos e bonecos

Reportagem: Mariana Gonzalez 

O trabalho com o barro instigou os/as estudantes a refletirem sobre as tecnologias que geraram instrumentos que usamos hoje. Crédito: Acervo/Escola Vera Cruz

O que é tecnologia? Qual a relação dos humanos com elementos presentes na natureza? A capacidade de moldar alguns desses elementos é também tecnologia? Essas perguntas estão na base do projeto que a professora Amanda Cristina Maciel Pellini realizou com alunos do G5 ao 2º ano, da Vila Ipojuca.

A proposta inicial do projeto “Ciclo ancestral de transformação de instrumentos da cozinha” era estudar como povos ancestrais desenvolveram a capacidade de transformar madeira, barro e metal em utensílios importantes para a nossa alimentação, como talheres, pilão e até fornos. Essa construção contou com a parceria da professora do grupo Nana, que trouxe sua visão como educadora e detentora de saberes ancestrais para o centro do debate, além da colaboração de outros profissionais do Integral, como o responsável pelos cuidados com jardim, Mavi.

O projeto, no entanto, se tornou algo maior: durante todo o ano de 2025, a professora trabalhou com as crianças a ideia de tecnologia ancestral, que pouco tem a ver com celulares, tablets, internet e inteligência artificial.

“A relação dos humanos com a tecnologia é muito conturbada, permeada pelo consumo e pelos malefícios ao meio ambiente. Diante de tudo isso, vejo necessidade de resgatar a cultura ancestral: a ideia de tecnologia para a transformação de materiais”, diz Amanda. “Por isso, ensino às crianças que tecnologia é tudo aquilo que a gente consegue transformar, modificar e que nos afeta de alguma forma. Ensino que podemos conviver e trabalhar entre espécies, homem e máquina, de uma forma boa e harmoniosa.”


Do talher ao forno

Com os/as estudantes, o trabalho começou com a transformação de madeira de descarte e galhos em colheres e garfos. Depois, chegou a vez de materiais como água, barro e metal, que serviram para fabricar outros utensílios de cozinha. Por fim, Amanda apresentou à turma o último elemento do projeto: o fogo. Juntos, crianças e adultos construíram um forno de barro na área externa da escola, seguindo tutoriais de famílias que vivem em agroflorestas e áreas rurais.

Na primeira tentativa, porém, a turma construiu um forno de areia, que caiu. Depois, foi a vez de moldar um forno de tijolos, que não ficou muito bom. “O erro é importante para o processo de aprendizagem”, defende a professora. Quando chegaram à versão final, feita de barro, as crianças conseguiram assar pães, que elas mesmas fizeram, para servir às famílias em uma celebração ao final do 1º semestre. 

“Quando as crianças produzem algo com as próprias mãos e reconhecem o valor da energia que depositam nas coisas, a ideia de tecnologia se transforma para elas”, diz Amanda. 

Pessoas, natureza e tecnologia 

No 2º semestre, a professora seguiu abordando a relação com a tecnologia com os mesmos materiais – bambu, madeira, metal e especialmente o barro. Mas, dessa vez, a proposta era construir robôs. 

Para elaborar sua proposta, Amanda usou como referência conceitos de intelectuais que tratam da relação entre pessoas, natureza e tecnologia, como a estadunidense Donna Haraway e os brasileiros Ailton Krenak, de origem indígena, e Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, de origem quilombola. O objetivo era mostrar possibilidades de harmonia nessa relação. “Fui desenvolvendo com eles a noção de robô como um amigo imaginário, um sujeito de afeto e de cuidados”, explica. 

Durante o trabalho, os alunos e alunas puderam refletir sobre o que é tecnologia e conhecer tecnologias ancestrais. Crédito: Acervo/Escola Vera Cruz

O primeiro robô foi construído com papel kraft e folhas caídas das árvores. O segundo foi feito com caixas de ovos amassadas, remodeladas e cobertas com resina. Para o terceiro, foi utilizado barro, pedaços de bambu e palitos de sorvete. 

Com os dois últimos robôs, a professora conseguiu trabalhar questões que envolvem formas geométricas tridimensionais, uma vez que, na confecção, foram usadas peças em forma de cubo, esferas e pirâmides. “As crianças construíram tudo do zero, da procura pelas folhas, passando pela preparação do barro e do papel machê, até a pintura”, conta. 

Ao final do processo, a pedido das turmas, os robôs ganharam alguns elementos eletrônicos, como rodas, motores e luzes led, além de uma pequena tela programada para projetar desenhos criados pelos/as próprios/as estudantes. “Eles não se desprenderam completamente da ideia de tecnologia digital e queriam que o robô andasse, tremesse, emitisse sons, tivesse luzes e telas. Então, construímos um pouco disso também”, relata Amanda. 

Ainda assim, a professora constatou que houve uma ampliação da percepção das crianças sobre robôs e tecnologias. “Para mim, robô é uma coisa de metal que faz tudo que a gente pede. Mas os robôs de argila são mais legais, porque foi a gente que fez e foi divertido. O robô de argila é o robô mais legal”, diz a estudante Manuela, de 6 anos. 


Refletindo sobre humanidade 

Com os robôs prontos, Amanda propôs algumas reflexões à turma: eles têm vida? O que faz deles vivos ou não? A professora também questionou se as crianças haviam notado alguma diferença nos robôs, pensando em quando eles haviam sido construídos e como estavam naquele momento, meses depois. Elas notaram que o barro havia mudado de cor e as folhas também. 

As crianças reutilizaram materiais como pedaços de madeira e folhas caídas de árvore para planejar suas produções. Crédito: Acervo/Escola Vera Cruz

A educadora, então, provocou: “Se a gente envelhece, podemos dizer que os robôs também envelheceram? Envelhecer não prova que eles têm vida?”. Segundo ela, algumas crianças apontaram que o fato dos robôs não se movimentarem era sinal de que não estavam vivos. Lino, de  6  anos, porém, argumentou: “As árvores também estão paradas, mas estão vivas”. E sua colega Mila, de  8 anos, acrescentou: “Na verdade, ninguém está parado nunca, porque a Terra está sempre girando”.

A última missão da turma foi organizar uma cerimônia para dar nome aos robôs. A professora Amanda deixou as crianças livres para inventarem o ritual em consenso. “Elas usaram água, me pediram pra ficar em silêncio e foram falando os nomes que queriam no ouvido dos colegas, em segredo. Depois, escreveram em um papel”, lembra.  Um dos alunos, Martin, de 6 anos, decidiu misturar vários gizes e jogou água colorida no robô. “Quero que ele tenha bons sonhos”, explicou. 

Para encerrar o projeto, no final do ano, foi organizada uma festa com as famílias para comemorar o nascimento dos robôs e os nomes que eles receberam: Cristal, Flor e Rainbow. 

Para saber mais

Livro | Futuro ancestral, de Ailton Krenak

Livro | O manifesto das espécies companheiras, de Donna Haraway

Livro | Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano, de Donna Haraway

Projeto “Ciclo ancestral de transformação de instrumentos da cozinha”

Professora: Amanda Cristina Maciel Pellini

Professora do grupo: Adriana Patarra (Nana)

Auxiliar de grupo: Luciene Almeida Siqueira Ferreira

Estagiários: Safira de Lelli e Rafael Trinca

Coordenadora: Clélia Cortez

Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.