A justiça climática em sala de aula

As mudanças climáticas são um tema cada vez mais importante nas escolas. Como abordá-lo em uma perspectiva que valoriza as relações étnico-raciais?

Reportagem: Ingrid Yurie

As turmas do 9º ano visitaram locais profundamente impactados pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Foto: Acervo/ Escola Vera Cruz

Durante o Estudo do Meio de 2025, os/as estudantes do 9º ano visitaram a Ilha da Pintada, em Porto Alegre. A ilha faz parte do Arquipélago, conjunto de pequenas ilhas ao redor da cidade cuja população é majoritariamente negra. A região, que já sofria com as cheias há anos, foi considerada a mais afetada da cidade pelas enchentes de 2024.

Na parte sul da Pintada, está Mestra Bia, liderança política, cultural e religiosa. Bia administra a Kitanda da Bia, um comércio fundado por ela e cujos objetivos eram vender comida saudável para a população do local e gerar renda para as mulheres negras que ali vivem. Em frente à Kitanda, os/as estudantes puderam comparar o cenário que viam com imagens do local feitas no ano anterior, quando as águas do Lago Guaíba tomaram conta do espaço.

Caminhar pela Pintada e reconhecer ali o trabalho de Mestra Bia, ialorixá e liderança que advoga pela preservação da memória e da cultura negra no local, possibilitaram que os/as jovens compreendessem que, embora a chuva tenha caído sobre o teto de todos e todas, os impactos não foram os mesmos. Um mapa elaborado pelo Observatório das Metrópoles, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), reafirma a percepção dos/as adolescentes: as áreas mais atingidas pelas inundações no Rio Grande do Sul são as mais pobres e abrigam uma maioria de pessoas negras. Uma pesquisa Datafolha também mostra que, enquanto 52% das pessoas pretas no estado sofreram alguma perda na enchente, esse número é significativamente menor entre pessoas brancas (26%).

O trabalho feito com os/as estudantes mostra como duas questões fundamentais para compreender o Brasil e o mundo se somam: a emergência climática e o racismo estrutural e institucional no país não podem ser analisados separadamente.


Justiça climática em sala de aula

A realização da COP30 no Brasil lançou luz sobre as discussões climáticas. O evento, que é realizado a cada ano em uma cidade diferente no mundo, é o principal fórum de discussão sobre políticas para o clima. É nele que os países se encontram para definir metas e objetivos em consenso para combater as mudanças climáticas e, no Brasil, teve forte participação de comunidades indígenas e afrodescendentes, que apresentaram reivindicações para que os textos elaborados na conferência incorporassem aspectos relativos à justiça climática. “Pela primeira vez, as populações afrodescentes foram citadas no texto final, por conta da mobilização dos movimentos negros”, diz Mariana Belmont, pesquisadora em sustentabilidade e assessora de clima e racismo ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.

Quem primeiro nomeou a relação entre raça, renda e habitação em áreas insalubres ou de risco de desastres climáticos foi o ativista estadunidense Benjamin Chavis, na década de 1980. Ele chamou esse padrão de racismo ambiental. “O racismo ambiental é um problema de desigualdade racial e social, em que grupos sociais de maioria negra e afrodescendente sofrem impactos desproporcionais da crise climática em relação aos demais”, explica Maria Clara Salvador, analista de Educação Climática no Centro Brasileiro de Justiça Climática.

Isso acontece porque, historicamente, à população negra são negados direitos básicos, como acesso à renda e à moradia de qualidade. “O resultado das desigualdades históricas produzidas pelo racismo estrutural é como as cidades foram construídas e planejadas”, afirma Mariana. Quando grandes tempestades, alagamentos, eventos de calor extremo e outras manifestações das mudanças climáticas acontecem, são essas populações as que são mais impactadas.

Casos como as enchentes no Rio Grande do Sul são apenas um dos muitos exemplos de como a emergência climática já está afetando a vida de milhões de pessoas e que precisam ser discutidos em sala de aula. “Há alguns anos, se falava muito nas mudanças climáticas como algo distante, mas é cada vez mais comum vermos que elas estão acontecendo, e afetando populações negras e periféricas de maneira mais intensa”, destaca Mariana.

Materiais como o Guia para currículos verdes: ensino e aprendizagem para a ação climática, publicado pela Unesco, oferecem sugestões sobre como abordar os diferentes aspectos que envolvem o estudo sobre mudanças climáticas e a busca por soluções para a crise, incluindo sugestões para o ensino sobre justiça climática.


E agora? A COP 30 e a justiça climática

Na conclusão da COP30, pela primeira vez, o mundo pactuou a adoção de indicadores globais de adaptação. Isso significa que, além de elencar prioridades para tentar frear o aquecimento do planeta, também há compromissos para que os países se adaptem às mudanças que já estão ocorrendo. Além de levar em conta a quantidade de gases de efeito estufa emitidos, os países também vão avaliar a proteção de vidas humanas, a manutenção de serviços essenciais e a capacidade de resistir a eventos climáticos extremos.

Também ficou firmado o aumento de recursos financeiros para adaptação aos efeitos da crise climática, sobretudo para as populações mais vulneráveis e maior participação das mulheres no combate à mudança do clima e transição para economias sustentáveis de forma justa e inclusiva. O texto final da COP30 reconhece o papel dos povos indígenas e quilombolas na proteção de florestas e vai destinar apoio financeiro específico a essas comunidades.

“Isso mostra que não estamos falando de indivíduos que são vulneráveis, mas de populações vulnerabilizadas por processos políticos e econômicos. Eles têm muito a saber e muito a dizer sobre o que está acontecendo em seus territórios e precisam estar no centro das decisões”, defende Maria Clara.

No trabalho com os/as estudantes, a especialista afirma a importância de que eles/as compreendam a crise climática à luz da justiça climática. “Toda a literatura sobre crise climática aponta a importância da mobilização e da conscientização das pessoas sobre essa crise. Quanto mais informados e alertas os/as estudantes estiverem, mais poder terão para cobrar governos, empresas e instituições públicas por medidas de justiça climática e para participar ativamente de conselhos, projetos e planos coletivos”, diz Maria Clara.

Quando estudantes caminham pela cidade, escutam quem atravessou tragédias e conectam o que veem no território com as disputas globais, eles se tornam mais capazes de compreender que a crise climática tem cor, endereço e classe social. E é nesse ponto que a escola ganha força: formar jovens capazes de ler o mundo, mobilizar conhecimentos e agir por políticas públicas, mudanças e justiça, para que sobreviver ao colapso ecológico não seja um privilégio.

Para saber mais

Documento | Guia para Currículos Verdes, da Unesco

Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.