Estudantes do 9º ano viajaram para mapear presenças negras e indígenas na capital gaúcha e perceber o racismo ambiental evidenciado após as enchentes de 2024
Reportagem: Ingrid Yurie

Imagine Porto Alegre. Quais são as primeiras imagens que vêm à cabeça? Talvez chimarrão, churrasco, arquitetura europeia e pessoas brancas em pilchas, a indumentária tipicamente gaúcha. Foi esse o cenário descrito pelos/as estudantes do 9º ano, porque são referências que costumam ser repetidas, dos cartões-postais à grande mídia, mas que contam apenas uma parte da história.
Foi para enxergar a cidade por outras perspectivas que as turmas se lançaram em uma investigação em busca do que as narrativas dominantes tentaram apagar: culturas, histórias e presenças dos povos negro, indígenas e periféricos na capital gaúcha.
Reconhecê-las também é indispensável, como os/as estudantes descobriram, para promover justiça climática, já que as enchentes de 2024 atingiram de forma ainda mais grave justamente essas populações.
Para começar o projeto de Estudo do Meio de 2025, as turmas compartilharam seu repertório individual e pesquisaram entre familiares e na internet o que representava a cidade. Como resultado, vieram as já tradicionais e estereotipadas imagens da região.
Em seguida, os/as professores/as colocaram ao lado deste recorte imagens e histórias de projetos locais de hip-hop e grafite, da diversidade de comunidades quilombolas e indígenas existentes no território e de esculturas e outras obras construídas e criadas por negros e indígenas gaúchos.
As turmas também pesquisaram sobre o príncipe Joaquim Custódio, de Benin, na África, que viveu em Porto Alegre no século 20. Ele é reconhecido como uma referência na cultura afro-gaúcha por sua contribuição para fortalecer a identidade, a luta e a organização do povo negro no Sul do Brasil, e para a consolidação do batuque, principal religião de matriz africana no Sul do país. Sua história foi enredo da escola de samba Portela no Carnaval de 2026.
Próxima parada: capital gaúcha
O Rio Grande do Sul, que tem a segunda menor população autodeclarada negra do Brasil (20%), é o estado com a maior concentração de terreiros de religiões de matriz africana do Brasil, com 3,2% de adeptos da umbanda e do candomblé, superando inclusive a Bahia, que tem 80,8% de pessoas autodeclaradas negras e 1% de adeptos a essas religiões, de acordo com o Censo de 2022.
Pela importância que a religiosidade africana exerce sobre a capital, a viagem começou no Mercado Público de Porto Alegre, onde há uma estátua de Exu assentado, conhecido como Bará do Mercado. Rodeado por sete chaves douradas, elas representam as oportunidades e caminhos que a entidade pode abrir. “Com um grupo de guias locais realizamos visitas a locais considerados sagrados da tradição afro-gaúcha. Começamos no Mercado Público onde há um assentamento religioso dedicado a Exu e num ato de reverência, os estudantes aprenderam a saudação desse Exu, que é ‘Alupô!’ e receberam balas de mel para ofertar. Mais que observação, a ideia é uma investigação ativa, tendo máximo respeito às culturas locais”, relata a professora Angélica Ferrarez, de Ciências Humanas.
O orixá representa “a esperança de um novo futuro e proteção”, nas palavras da estudante Helena T., 15 anos. “Muitas pessoas que não fazem parte desta cultura saúdam o Bará, provando que ele é um símbolo de grande poder de comunicação, que mostra a resistência e a perseverança deste povo mesmo em uma sociedade muito racista”, diz ela.

Outra parada da viagem foi o terreiro de Mãe Bia, na Ilha da Pintada, uma liderança local, mãe de santo, ativista social, educadora e sambista, além de vice-coordenadora do Instituto Camélia, que atua pela autonomia de mulheres negras.
De Mãe Bia, ouviram sobre a importância e os significados das tranças e das sementes para os povos negros. Também conheceram o trabalho dela na luta por direitos básicos da comunidade, como saúde e moradia, e puderam saber mais dos impactos sofridos por essa população durante as enchentes que assolaram o estado em maio de 2024. A visita das turmas aconteceu exatamente um ano depois.
“Mãe Bia foi a liderança que participou de reuniões com governo e autoridades na luta por colocar as coisas de volta ao lugar após a ilha ter ficado submersa e muita gente ter perdido suas casas”, relata Angélica.
A ativista mostrou aos/às estudantes as marcas nas paredes deixadas pela enchente de 2024 e pela anterior, que aconteceu no início dos anos 2000. “Eles não conheciam o conceito de racismo ambiental, mas o entenderam quando viram de quem eram as casas vazias e quem eram os desabrigados um ano depois das enchentes: ‘os negros e brancos pobres’”, diz a professora.
A vivência possibilitou às turmas compreender que a crise climática é resultado da ação humana e traz mais prejuízos às populações historicamente marginalizadas, que são também as que menos contribuíram com o consumo acelerado e para a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Por isso, elas deveriam ser priorizadas em políticas públicas e ações de prevenção, adaptação e resposta a desastres, como propõe a justiça climática.
“Eles achavam que os fenômenos da natureza eram aleatórios e que impactavam a todos do mesmo jeito. Mas vimos quem são as maiores vítimas e pudemos conversar sobre a interseccionalidade entre raça e classe na luta ambiental”, explica Angélica.
Na capital gaúcha, 40,2% das pessoas autodeclaradas negras vivem em áreas de risco hidrológico ou geológico, de acordo com pesquisa do Instituto Pólis.
“As construções europeias estão majoritariamente localizadas no centro da cidade, região onde normalmente estão os mais ricos e as instituições de poder […] e podem comunicar o processo de colonização que marginalizou outros povos”, concluiu o estudante Felipe L., 14 anos.

Os/As estudantes conheceram a história de Sepé Tiaraju, líder indígena Guarani que lutou no Rio Grande do Sul contra as tropas portuguesas por volta de 1750. Em campo, visitaram a comunidade Tekoa Nhundy, onde vivem indígenas Guarani, para saber mais sobre sua história, luta e presença no território.
“Tivemos a oportunidade de vivenciar diversas atividades como as brincadeiras e os rituais e experimentar algumas tecnologias ancestrais que estão presentes na rotina deles, como pesca, arco e flecha e tatuagens com jenipapo”, relatou a estudante Luiza S., 15 anos.
A contribuição de várias áreas do conhecimento
Ao longo da viagem, as turmas participaram de várias atividades, como oficinas de grafite e hip-hop, e conheceram uma comunidade que instituiu um banco comunitário, o Justa Troca. “O sistema econômico desenvolvido pelas pessoas simboliza a equidade social, o trabalho em comunidade, e um caminho para desconstruir a desigualdade salarial e a remuneração machista nos trabalhos”, diz o estudante Rafael T., 15 anos.


A forma de organizar e distribuir a renda, bem como o sistema de moeda local, foi o foco dos estudos de Matemática. Em 2025, o Estudo do Meio teve a participação de todas as áreas de conhecimento. Assim, Ciências Naturais se dedicou à questão dos biomas, Geografia abordou as enchentes e Língua Portuguesa tratou de línguas indígenas e do iorubá, preconceito linguístico, expressões regionais e sistematização linguística, o que resultou em reflexões sobre como a linguagem molda o mundo.
Junto ao professor Thiago Bitencourt, do Ateliê de Tecnologia e Criação, os/as estudantes conduziram uma pesquisa para compreender quais tecnologias da comunicação ajudaram a difundir e perpetuar os saberes da branquitude no Brasil e no mundo.
Entre elas, a prensa de Gutenberg, invenção alemã do século 15, que usava tipos móveis para produzir obras impressas em grande escala, o que barateou e acelerou a circulação de textos na Europa.
Também estudaram técnicas que foram invisibilizadas, como a xilogravura e os Adinkras, o conjunto de símbolos visuais criado pelos povos Akan da África Ocidental, usado para transmitir valores, provérbios e ensinamentos culturais nas artes, nos tecidos e em outros objetos.
“Durante a viagem, as turmas fizeram fotos das simbologias dos povos africanos, indígenas e brancos que encontraram, e discutimos como as tecnologias da comunicação difundem ciência e outros modos de pensar e ver o mundo. Foi uma pesquisa sobre como cada um deixa suas marcas no mundo”, conta Thiago.
De volta à escola
Para sistematizar tudo que aprenderam ao longo da viagem e das pesquisas, os estudantes realizaram diversas atividades. Entre elas, criaram modelos 3D e imprimiram o alfabeto Adlam em tipos para usar na prensa de Gutenberg. Depois, criaram tipos de Adinkras. “São as novas tecnologias imprimindo tecnologias ancestrais da comunicação”, define o professor Thiago.

As turmas também produziram novas imagens para representar Porto Alegre e questionar quem tem direito à cidade. Usando fotografias feitas durante a viagem, vídeos e outros registros, produziram uma animação que sobrepõe símbolos das culturas negras e indígenas a referências do poder europeu.
“Percebi uma turma mais sensível e sabendo que também se escreve por meio das imagens. Que madeira, ferro e alfabeto também são tecnologias. E principalmente enxergando os povos originários e africanos como produtores de conhecimento, de ciência”, afirma Thiago.
Para a professora Angélica, o projeto criou uma rachadura que se espera irreversível. “Ao olhar para o Brasil por essa nova fresta, esperamos provocar no aluno uma inquietação que o leve a sempre olhar ao seu redor, identificar as narrativas contadas e questioná-las, desconfiar delas e de imaginários pasteurizados, fazendo novas perguntas sobre os mesmos cenários”.
Entre os registros feitos pelos estudantes, o símbolo Adinkra Sankofa apareceu repetidas vezes, nas ruas e portões observados por eles. Mais conhecido pela sua forma que lembra um coração, esse adinkra representa um pássaro que curva o pescoço para olhar para trás e carrega um ovo no bico. A sua presença frequente reforça a urgência do recado passado por ele. Sem precisar de palavras, a Sankofa sintetiza o propósito do projeto vivido pelas turmas: retornar e buscar o que ficou para trás.
Para Saber Mais
Site | Grafias Digitais, Futuros Ancestrais, com registros do projeto
Documentário | A tradição do Bará do Mercado, de Ana Luiza Carvalho da Rocha
Artigo | A história do batuque gaúcho
Texto | Biografia de Sepé Tiaraju
Projeto: “Quem tem Direito a um porto alegre? Memória, território e resistências”
Professores/as: Andréia Cristina Silva de Paula, Angélica Ferrarez, Joana Ribeiro Ruocco, Rafael Moreira Neves e Thiago Cavalcante Bitencourt
Auxiliar de grupo: Dayane Santiago Nascimento
Orientadora: Maria de Los Angeles Rodriguez
Coordenadores: Daniel Helene e Daniel Souza