{"id":803,"date":"2022-03-09T11:42:30","date_gmt":"2022-03-09T14:42:30","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=803"},"modified":"2023-09-18T09:38:54","modified_gmt":"2023-09-18T12:38:54","slug":"quem-vivia-aqui-antes-de-nos-uma-professora-da-rede-publica-questiona-estereotipos-sobre-povos-indigenas","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/quem-vivia-aqui-antes-de-nos-uma-professora-da-rede-publica-questiona-estereotipos-sobre-povos-indigenas\/","title":{"rendered":"Quem vivia aqui antes de n\u00f3s? Uma professora da rede p\u00fablica questiona estere\u00f3tipos sobre povos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Cinthya Ver\u00e1stegui*<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FB_IMG_1647203197055.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"540\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FB_IMG_1647203197055.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1114\" style=\"aspect-ratio:1;object-fit:cover\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FB_IMG_1647203197055.jpg 720w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/FB_IMG_1647203197055-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cr\u00e9ditos &#8211; Cinthya Ver\u00e1stegui<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em>O texto a seguir \u00e9 uma vers\u00e3o jornal\u00edstica do artigo acad\u00eamico <\/em>Culturas ind\u00edgenas na escola: desafios e (re)descobertas para uma educa\u00e7\u00e3o antirracista<em>, publicado na revista <\/em><a href=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/instituto\/revistaveras\/index.php\/revistaveras\/index\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Veras<\/em><\/a><em>. A vers\u00e3o original pode ser lida <\/em><a href=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/instituto\/revistaveras\/index.php\/revistaveras\/article\/view\/489\/pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>aqui<\/em><\/a><em>.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 comum trazer \u00e0 tona a quest\u00e3o racial a partir das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o que se estabeleceram com a di\u00e1spora africana no Brasil e os processos de escravid\u00e3o do per\u00edodo colonial.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 importante ressaltar que, antes da chegada desses povos que contribu\u00edram, e muito, para a forma\u00e7\u00e3o da cultura brasileira, viviam aqui outros in\u00fameros povos, que tamb\u00e9m foram subjugados e lutaram por seus territ\u00f3rios e liberdade durante o processo de invas\u00e3o portuguesa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A causa ind\u00edgena apresenta uma situa\u00e7\u00e3o complexa em rela\u00e7\u00e3o ao racismo, que \u00e9 o preconceito enraizado e expresso atrav\u00e9s de termos pejorativos, al\u00e9m da invisibilidade dentro da sociedade e tamb\u00e9m, por vezes, dentro da pr\u00f3pria pauta da educa\u00e7\u00e3o antirracista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio da cria\u00e7\u00e3o da <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2007-2010\/2008\/lei\/l11645.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lei 11.645\/08<\/a> e da <a href=\"http:\/\/basenacionalcomum.mec.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Base Nacional Comum Curricular (BNCC)<\/a>, tornou-se obrigat\u00f3rio o ensino das culturas afrobrasileiras e ind\u00edgenas, que passaram a integrar os chamados \u201ctemas contempor\u00e2neos\u201d, que devem ser incorporados aos curr\u00edculos de maneira \u201cpreferencialmente transversal e integradora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas abordar a tem\u00e1tica de identidade racial e pluri\u00e9tnica \u00e9 complexo n\u00e3o somente pela cultura escolar, como tamb\u00e9m pela necess\u00e1ria a\u00e7\u00e3o do educador. Este n\u00e3o deve incorrer numa abordagem multicultural prescritiva, que recaia numa pol\u00edtica assimilacionista da quest\u00e3o multicultural. Por isso, s\u00e3o importantes as experi\u00eancias pessoais que tomam como objeto de pesquisa o desenvolvimento de trabalhos em sala de aula. \u00c9 o que busco fazer aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao observar as intera\u00e7\u00f5es entre as crian\u00e7as do Ensino Fundamental em uma unidade de ensino do munic\u00edpio de Cotia, na Grande S\u00e3o Paulo, percebeu-se n\u00e3o somente um conhecimento raso e estereotipado sobre as culturas ind\u00edgenas brasileiras, mas tamb\u00e9m sobre as pr\u00f3prias identidades das crian\u00e7as. Elas se consideravam majoritariamente \u201cbrancas\u201d, mas promoviam preconceito racial entre si, por meio de coment\u00e1rios pejorativos em momentos de brincadeiras ou discuss\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, objetivou-se desenvolver um trabalho com as turmas de 4\u00ba ano que possibilitasse reconstruir suas vis\u00f5es sobre as culturas ind\u00edgenas, o reconhecimento da presen\u00e7a destas no munic\u00edpio e na pr\u00f3pria ancestralidade dos estudantes.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A desconstru\u00e7\u00e3o de preconceitos em quatro tempos<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O trabalho pedag\u00f3gico se dividiu em quatro momentos:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Hist\u00f3ria pessoal e hist\u00f3ria do Brasil<\/li>\n\n\n\n<li>Quest\u00f5es regionais: hist\u00f3ria de Cotia<\/li>\n\n\n\n<li>Diversidade ind\u00edgena<\/li>\n\n\n\n<li>Povos ind\u00edgenas na atualidade.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Na <strong>primeira etapa<\/strong>, iniciamos com algumas perguntas para observar melhor os conhecimentos pr\u00e9vios das crian\u00e7as: Quem \u201cdescobriu\u201d o Brasil? Quem s\u00e3o os \u201c\u00edndios\u201d? Ainda h\u00e1 ind\u00edgenas no Brasil? Como vivem esses povos?<\/p>\n\n\n\n<p>As respostas: \u201cFoi Pedro \u00c1lvares Cabral!\u201d; \u201cForam os portugueses\u201d; \u201cAcho que n\u00e3o tem mais \u00edndio\u201d; \u201cEu acho que tem l\u00e1 na floresta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiu-se a leitura compartilhada de textos do livro did\u00e1tico que apresentavam a vis\u00e3o colonialista pela perspectiva europeia, abordando a extra\u00e7\u00e3o do pau-brasil e as necessidades da Coroa portuguesa. Indagamos: \u201cImaginem pessoas estranhas chegando nas casas de voc\u00eas para pegar coisas e levar embora. Como se sentiriam?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as se alvoro\u00e7aram com a proposta, demonstrando n\u00e3o gostarem dessa \u201cinvas\u00e3o\u201d. Isso revela a import\u00e2ncia de compara\u00e7\u00f5es que tragam o conhecimento de forma concreta, de acordo com o que as crian\u00e7as j\u00e1 conhecem no seu cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Pediu-se, em seguida, uma pesquisa com os familiares sobre a origem de seus sobrenomes \u2013 al\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore geneal\u00f3gica de cada estudante. Percebeu-se a diversidade nos sobrenomes das crian\u00e7as, com a grande presen\u00e7a de \u201cSouzas\u201d, \u201cSilvas\u201d e \u201cSantos\u201d, marcas da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas crian\u00e7as descobriram em suas pesquisas serem descendentes de ind\u00edgenas. Desconheciam a origem espec\u00edfica do povo pertencente, mas demonstravam se sentir seguras em afirmar suas ancestralidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Um <strong>segundo momento <\/strong>envolveu a hist\u00f3ria de Cotia. Textos de pesquisadores da hist\u00f3ria da regi\u00e3o informaram que o nome da cidade deriva de uma palavra ind\u00edgena: <em>koty<\/em>, que significaria ponto de encontro ou casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso munic\u00edpio era habitado por ind\u00edgenas da etnia carij\u00f3, subgrupo da etnia guarani, e situava-se na rota Peabiru, trajeto comercial ind\u00edgena que passava pelo Paraguai e cidades brasileiras, caso da atual Sorocaba.<\/p>\n\n\n\n<p>Ressalta-se aqui a visibilidade dada a uma hist\u00f3ria que foi apagada nas escolas do munic\u00edpio, e que antecede o momento de sua funda\u00e7\u00e3o, em 1856.<\/p>\n\n\n\n<p>Na <strong>terceira etapa<\/strong>, os trabalhos na escola se debru\u00e7aram sobre os povos que viviam aqui antes do per\u00edodo colonial, ressaltando a diversidade \u00e9tnica e a revis\u00e3o de figuras como Raposo Tavares. O bandeirante, que tem seu nome na principal rodovia que corta o munic\u00edpio de Cotia, foi respons\u00e1vel pela escraviza\u00e7\u00e3o e morte de popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas nessa regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao refletir sobre o outro lado da hist\u00f3ria, as crian\u00e7as come\u00e7aram a questionar a vis\u00e3o europeia de desenvolvimento pautada na invas\u00e3o e escravid\u00e3o, passando a formular, em conjunto, novas hip\u00f3teses sobre a quest\u00e3o ind\u00edgena no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tanto, seria necess\u00e1rio conhecer as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, o que culminou em um momento de pesquisas em sites sobre a diversidade ind\u00edgena brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Um <strong>quarto momento<\/strong> se desenvolveu a partir de v\u00eddeos e imagens de personalidades ind\u00edgenas na atualidade. Entre essas, destaque para o grupo de rap ind\u00edgena Oz Guarani e a para a artista Katu, que pertencem ao povo guarani de S\u00e3o Paulo. O objetivo foi mostrar a presen\u00e7a ind\u00edgena pr\u00f3xima ao munic\u00edpio de Cotia na atualidade \u2013 n\u00e3o s\u00f3 geograficamente, mas culturalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas crian\u00e7as analisaram, ent\u00e3o, as semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as entre povos que vivem isolados e povos que vivem nas capitais. O conceito de cultura foi novamente trabalhado em sala, refor\u00e7ando a influ\u00eancia ind\u00edgena na cultura brasileira, da mesma forma que a cultura n\u00e3o ind\u00edgena influencia a ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final do trabalho, os alunos produziram obras inspiradas nos grafismos de diferentes etnias, al\u00e9m de diversas formas de arte ind\u00edgena: cer\u00e2mica, brinquedos, colares e figuras de barbante. A produ\u00e7\u00e3o fez parte de uma exposi\u00e7\u00e3o na escola.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que as crian\u00e7as aprenderam \u2013 e no que \u00e9 preciso avan\u00e7ar<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Com o desenvolvimento deste trabalho, pudemos alcan\u00e7ar parcialmente as metas e estrat\u00e9gias estabelecidas. Foi poss\u00edvel, por exemplo, ressignificar conceitos sobre os povos ind\u00edgenas. As turmas passaram a se referir e identific\u00e1-los como \u201cpovos ind\u00edgenas brasileiros\u201d ou \u201cpovos origin\u00e1rios\u201d, reconhecendo sua presen\u00e7a e necessidade da garantia de seus direitos. Tamb\u00e9m se tornou vis\u00edvel a redu\u00e7\u00e3o de conflitos com termos raciais pejorativos (cor da pele, tipo do cabelo) entre os estudantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, para uma a\u00e7\u00e3o que atenda plenamente aos objetivos da educa\u00e7\u00e3o antirracista e decolonial, \u00e9 necess\u00e1rio compreender o car\u00e1ter da colonialidade na sociedade de maneira estrutural. Isso requer um trabalho cont\u00ednuo e coletivo de reconstru\u00e7\u00e3o de vis\u00e3o de mundo, considerando a abrang\u00eancia da Lei 11.645\/08 ao longo de toda a Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, o investimento na forma\u00e7\u00e3o continuada de professores e a ampla distribui\u00e7\u00e3o de materiais did\u00e1ticos constru\u00eddos sob a perspectiva ind\u00edgena. Dar voz para as falas que por s\u00e9culos foram silenciadas e faz\u00ea-las ecoar no ambiente escolar \u00e9 extremamente necess\u00e1rio para desenvolver rela\u00e7\u00f5es de alteridade, aprendidas a partir dos saberes ancestrais dos muitos povos ind\u00edgenas brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>*<em><strong>Cinthya Ver\u00e1stegui<\/strong> \u00e9 pedagoga, professora pela Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o de Cotia (SP)<\/em><\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","tags":[16],"edicao":[9],"class_list":["post-803","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-reportagem","edicao-edicao-1"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/803","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=803"}],"version-history":[{"count":43,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/803\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3377,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/803\/revisions\/3377"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=803"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=803"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}