{"id":4422,"date":"2025-09-26T17:13:48","date_gmt":"2025-09-26T20:13:48","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=4422"},"modified":"2026-03-30T10:00:17","modified_gmt":"2026-03-30T13:00:17","slug":"decolonizar-o-curriculo-repensar-o-ensino-para-alem-das-manifestacoes-culturais","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/decolonizar-o-curriculo-repensar-o-ensino-para-alem-das-manifestacoes-culturais\/","title":{"rendered":"Decolonizar o curr\u00edculo: repensar o ensino para al\u00e9m das manifesta\u00e7\u00f5es culturais"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O Carnaval, as festas populares e o dia da Consci\u00eancia Negra s\u00e3o momentos importantes para a educa\u00e7\u00e3o antirracista, mas o curr\u00edculo decolonial n\u00e3o deve se restringir a essas datas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Reportagem: Wellington Soares<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para as turmas do 9\u00ba ano e Ensino M\u00e9dio do Vera, o Carnaval chegou um pouco mais tarde. Em junho, durante as festas juninas, os estudantes apresentaram parte do trabalho que realizaram ao longo do primeiro semestre, quando um estudo aprofundado dos blocos afro Il\u00ea Aiy\u00ea e Il\u00fa Ob\u00e1 De Min integrou aprendizagens de M\u00fasica, Dan\u00e7a, Arte, Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, al\u00e9m das oficinas de prototipagem e o fotoclube (<em>leia aqui a reportagem completa sobre o projeto<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Outras turmas tamb\u00e9m apresentaram seus aprendizados do semestre durante as festas juninas. Mais do que um momento para ensaiar dan\u00e7as t\u00edpicas e celebrar, no Vera, essas festas marcam mais uma oportunidade de envolver a comunidade no projeto de educa\u00e7\u00e3o antirracista e compartilhar como a abordagem de educa\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais enxerga as festas populares e as manifesta\u00e7\u00f5es culturais brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 de praxe que as escolas brasileiras promovam festas em fevereiro e em junho. Tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 comum que esses espa\u00e7os sirvam como mote para tratar da influ\u00eancia afro-brasileira na forma\u00e7\u00e3o cultural do Brasil. O samba, o maracatu, o jongo, as congadas, o bumba meu boi e outras s\u00e3o resultado da maneira como comunidades afro-brasileiras e ind\u00edgenas constru\u00edram suas vidas no territ\u00f3rio brasileiro. Tratar dessas manifesta\u00e7\u00f5es, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 um problema. Mas s\u00e3o poucas as institui\u00e7\u00f5es que, como o Vera, as t\u00eam como uma das abordagens poss\u00edveis de um curr\u00edculo voltado para a <a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/o-que-significa-uma-educacao-para-as-relacoes-etnico-raciais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">educa\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cOs aspectos culturais s\u00e3o importantes, mas fazem parte de um projeto de educa\u00e7\u00e3o multicultural cr\u00edtica e para as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais. Esse projeto acontece de maneira consistente e faz a escola repensar todas as suas pr\u00e1ticas. Ou seja, as discuss\u00f5es acontecem n\u00e3o apenas em efem\u00e9rides ou tratando a cultura afro-brasileira como algo circunstancial e ex\u00f3tico\u201d, afirma Regina Scarpa, diretora pedag\u00f3gica da Escola e do Instituto Vera Cruz.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A pesquisa <a href=\"https:\/\/alana.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/lei-10639-pesquisa.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cLei 10.639\/03: a atua\u00e7\u00e3o das Secretarias Municipais de Educa\u00e7\u00e3o no ensino de hist\u00f3ria e cultura africana e afro-brasileira\u201d<\/a>, divulgada em 2023, trouxe dois dados interessantes sobre como as escolas brasileiras abordam a educa\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais. Por um lado, a diversidade de culturas quilombolas, afro-brasileiras e africanas foi o t\u00f3pico mais citado como importante a ser trabalhado pelas escolas: 60% das redes o mencionaram na pesquisa. Por outro, a realiza\u00e7\u00e3o de trabalhos de educa\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais ainda est\u00e1 pouco conectado com o dia a dia: 69% das redes de ensino afirmam que a maioria ou boa parte das escolas realiza atividades apenas durante o m\u00eas ou semana do Dia da Consci\u00eancia Negra.<\/p>\n\n\n\n<p>Para atender de fato ao que \u00e9 determinado pela Lei 10.639\/03 e pelas <a href=\"https:\/\/download.inep.gov.br\/publicacoes\/diversas\/temas_interdisciplinares\/diretrizes_curriculares_nacionais_para_a_educacao_das_relacoes_etnico_raciais_e_para_o_ensino_de_historia_e_cultura_afro_brasileira_e_africana.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Diretrizes Curriculares Nacionais<\/a> que regulamentam a sua implementa\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso fazer muito mais do que apenas trazer as discuss\u00f5es em datas celebrativas ou nas temporadas de festas tradicionais. As pr\u00f3prias diretrizes, assim como diversos documentos elaborados por especialistas ao longo das duas \u00faltimas d\u00e9cadas, afirmam que \u00e9 fundamental que haja um projeto transversal de educa\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais. Parte fundamental desse projeto passa por pensar sobre o que se ensina, como se ensina e at\u00e9 em que momento certos t\u00f3picos s\u00e3o abordados. Em resumo, \u00e9 fundamental que as escolas e redes de ensino repensem seus <strong>curr\u00edculos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que \u00e9 um curr\u00edculo antirracista<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de curr\u00edculo \u00e9 um dos pontos mais discutidos por pesquisadores da educa\u00e7\u00e3o e as suas defini\u00e7\u00f5es variam. De forma resumida, o curr\u00edculo diz respeito \u00e0quilo que os alunos aprendem dentro das institui\u00e7\u00f5es escolares.<\/p>\n\n\n\n<p>Num sentido restrito, o curr\u00edculo pode ser visto como uma lista que define os conte\u00fados, as habilidades e os objetivos de aprendizagem dos alunos. Ele se revela, por exemplo, em documentos oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e tamb\u00e9m nos materiais utilizados em sala de aula \u2013 ao ler os cap\u00edtulos de um livro did\u00e1tico, por exemplo, vemos ali uma concretiza\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo pelo qual se define um curr\u00edculo, entretanto, \u00e9 complexo e, como definem os especialistas, tamb\u00e9m \u00e9 baseado em uma s\u00e9rie de escolhas feitas em diferentes n\u00edveis: pelo poder p\u00fablico, pelas redes de ensino, pela gest\u00e3o das escolas, pelas fam\u00edlias, pelos professores e tamb\u00e9m pelos alunos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"elementor-blockquote\">\u201cEu penso o curr\u00edculo antes de tudo como uma inven\u00e7\u00e3o. Eu penso que o curr\u00edculo \u00e9 constru\u00eddo hist\u00f3rica e politicamente, a partir de um certo contexto. Ao falarmos de curr\u00edculo, estamos falando, antes de tudo, de rela\u00e7\u00f5es de poder e de um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o de um mundo. Isso tem muita rela\u00e7\u00e3o com o debate sobre racialidade, educa\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais\u201d, afirma Daniel Souza, fil\u00f3sofo, no <a href=\"#\">podcast <em>Zum-Zum no Vera<\/em><\/a><em><a href=\"#_msocom_1\">.<\/a>&nbsp;<\/em><a id=\"_msocom_1\"><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>No Brasil, em que as rela\u00e7\u00f5es de poder foram historicamente moldadas a partir da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, a forma\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo tamb\u00e9m esteve profundamente ligada com essa colonialidade e com o racismo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"elementor-blockquote\">\u201cA colonialidade \u00e9 resultado de uma imposi\u00e7\u00e3o do poder e da domina\u00e7\u00e3o colonial que consegue atingir as estruturas subjetivas de um povo, penetrando na sua concep\u00e7\u00e3o de sujeito e se estendendo para a sociedade de tal maneira que, mesmo ap\u00f3s o t\u00e9rmino do dom\u00ednio colonial, as suas amarras persistem. Nesse processo, existem alguns espa\u00e7os e institui\u00e7\u00f5es sociais nos quais ela opera com maior contund\u00eancia. As escolas da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e o campo da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica s\u00e3o alguns deles. Nestes, a colonialidade opera, entre outros mecanismos, por meio dos curr\u00edculos,\u201d afirma Nilma Lino Gomes em artigo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>No artigo \u201cO movimento negro e a intelectualidade negra descolonizando os curr\u00edculos\u201d, Nilma Lino Gomes destrincha as diferentes maneiras como o colonialismo est\u00e1 presente no curr\u00edculo. A principal delas \u00e9 a forma como os curr\u00edculos privilegiaram, desde sempre, as perspectivas europeias, brancas e quase sempre masculinas, em todas as \u00e1reas de conhecimento. O estudo da hist\u00f3ria foca nos acontecimentos da Europa, as leituras se dedicam a autores europeus ou brancos, as defini\u00e7\u00f5es de Ci\u00eancia e Conhecimento privilegiadas s\u00e3o as elaboradas por pensadores europeus. Mesmo ao tratar da hist\u00f3ria ind\u00edgena, africana e afro-brasileira, pensadores desses grupos s\u00e3o deixados de lado: estuda-se o que pensadores brancos escreveram sobre eles, em vez do conhecimento elaborado por eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial focam apenas em efem\u00e9rides ou acontecem esporadicamente \u2013 como ainda \u00e9 realidade na maior parte do Brasil \u2013, esses aspectos da colonialidade se mant\u00eam.<\/p>\n\n\n\n<p>O pensamento sobre o curr\u00edculo \u00e9 um dos pilares do <a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/documentos\/link\/eb\/eb_projeto_ed_antirracista_2022.pdf\">projeto de educa\u00e7\u00e3o antirracista<\/a> do Vera. As reportagens que voc\u00ea l\u00ea aqui, desde a primeira edi\u00e7\u00e3o da <em>Zum-Zum<\/em>, mostram como ele se concretiza: em todos os segmentos e \u00e1reas do conhecimento, os projetos se dedicam a pensar em como incorporar vis\u00f5es de mundo diversas \u2013 e n\u00e3o apenas a euroc\u00eantrica \u2013 nos processos de ensino e aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"elementor-blockquote\">\u201cIsso envolve a\u00e7\u00f5es de planejamento pedag\u00f3gico, revis\u00e3o de bibliografia informativa e liter\u00e1ria, materiais did\u00e1ticos e forma\u00e7\u00e3o dos profissionais com foco na apropria\u00e7\u00e3o e incorpora\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es raciais (racismo, branquitude, refer\u00eancias afro-brasileiras e ind\u00edgenas, dentre outras) no curr\u00edculo, de forma transversal, em todos os n\u00edveis\u201d, afirma o projeto de educa\u00e7\u00e3o antirracista do Vera.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa abordagem est\u00e1 alinhada com o que definem as <a href=\"https:\/\/download.inep.gov.br\/publicacoes\/diversas\/temas_interdisciplinares\/diretrizes_curriculares_nacionais_para_a_educacao_das_relacoes_etnico_raciais_e_para_o_ensino_de_historia_e_cultura_afro_brasileira_e_africana.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educa\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais e para o Ensino de Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira e Africana<\/a>. De acordo com o documento, o curr\u00edculo deve privilegiar uma perspectiva multicultural, que permita que os estudantes entrem em contato com m\u00faltiplas vis\u00f5es de mundo, culturas e formas de conhecimento:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"elementor-blockquote\">\u201c\u00c9 importante destacar que n\u00e3o se trata de mudar um foco etnoc\u00eantrico marcadamente de raiz europeia por um africano, mas de ampliar o foco dos curr\u00edculos escolares para a diversidade cultural, racial, social e econ\u00f4mica brasileira. Nesta perspectiva, cabe \u00e0s escolas incluir no contexto dos estudos e atividades, que proporciona diariamente, tamb\u00e9m as contribui\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-culturais dos povos ind\u00edgenas e dos descendentes de asi\u00e1ticos, al\u00e9m das de raiz africana e europeia.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quest\u00f5es socialmente vivas<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da sele\u00e7\u00e3o de conte\u00fados e autores que s\u00e3o abordados em sala de aula, o curr\u00edculo tamb\u00e9m se manifesta na forma de ensinar. Em seu artigo, Nilma Lino Gomes afirma que a postura colonial tamb\u00e9m est\u00e1 presente quando a abordagem dos professores n\u00e3o abre espa\u00e7o para um ensino questionador.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"elementor-blockquote\">\u201cUm curr\u00edculo que n\u00e3o indaga, n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o para o diverso, para experi\u00eancias pedag\u00f3gicas conjuntas, para o lugar de fala dos estudantes, para a discuss\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de se conhecer o que foi produzido pela ci\u00eancia moderna, entendendo-a como uma das, e n\u00e3o como a \u00fanica e verdadeira forma de conhecer,\u201d diz Gomes.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>No Vera, mesmo antes da implementa\u00e7\u00e3o do projeto de educa\u00e7\u00e3o antirracista, as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas j\u00e1 focavam no protagonismo dos estudantes no processo de ensino e aprendizagem. Por isso, professores, coordenadores e orientadores j\u00e1 dedicavam boa parte de seu tempo para refletir sobre como refor\u00e7ar essa abordagem.<\/p>\n\n\n\n<p>O foco na educa\u00e7\u00e3o antirracista aprofundou essas discuss\u00f5es. Desde o in\u00edcio do projeto, houve um esfor\u00e7o para incentivar a\u00e7\u00f5es afirmativas, em aumentar a diversidade entre os educadores do Vera, promover parcerias com organiza\u00e7\u00f5es e intelectuais de refer\u00eancia dos movimentos negros e ind\u00edgenas e em mobilizar toda a comunidade de estudantes, fam\u00edlias, educadores e funcion\u00e1rios para pensar o projeto da escola \u2013 entre tantas outras a\u00e7\u00f5es. Esse movimento fez com que novas perspectivas e novos repert\u00f3rios fossem incorporados ao dia a dia da escola, sobretudo nos momentos de forma\u00e7\u00e3o dos professores.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro semestre de 2025, as reflex\u00f5es e forma\u00e7\u00f5es do grupo de educadores de Ci\u00eancias Humanas do Ensino Fundamental foram consolidadas em um documento que descreve as concep\u00e7\u00f5es que embasam o trabalho na \u00e1rea. Para isso, definiram como um dos eixos articuladores do trabalho as <strong>quest\u00f5es socialmente vivas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de quest\u00f5es socialmente vivas foi cunhado pelos franceses Alain Legardez e Laurence Simonneaux e se refere a indaga\u00e7\u00f5es que suscitam debates na sociedade, entre os especialistas da ci\u00eancia de refer\u00eancia para essa quest\u00e3o e tamb\u00e9m na escola, ao questionar os conte\u00fados e propostas tradicionalmente presentes nos curr\u00edculos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na reflex\u00e3o promovida pelos educadores do Vera, essa abordagem se articula profundamente com a vis\u00e3o de decoloniza\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo, uma vez que um curr\u00edculo decolonial demanda que as vis\u00f5es hegem\u00f4nicas e prioritariamente europeias sejam questionadas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"elementor-blockquote\">\u201cTransformar o curr\u00edculo da escola criando condi\u00e7\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o de sujeitos com vis\u00f5es de mundo que questionem e superem a l\u00f3gica de funcionamento e a reprodu\u00e7\u00e3o de valores coloniais \u00e9 parte necess\u00e1ria de um curr\u00edculo articulado a partir de quest\u00f5es socialmente vivas\u201d, afirma o documento elaborado pelos educadores de Ci\u00eancias Humanas do Vera.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, isso significa que a aprendizagem dos estudantes se d\u00e1 em torno de quest\u00f5es complexas, que s\u00e3o alvo de discuss\u00f5es em diferentes \u00e2mbitos tamb\u00e9m fora da escola e, para poder refletir sobre elas, precisam recorrer a diferentes fontes em busca de diferentes perspectivas sobre um fato e lan\u00e7ar indaga\u00e7\u00f5es sobre essas fontes utilizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento exige que os estudantes \u2013 e os educadores \u2013 questionem as fontes tradicionais, em geral brancas e\/ou europeias, e as comparem com a produ\u00e7\u00e3o de outros territ\u00f3rios, por indiv\u00edduos com repert\u00f3rios diferentes, e com conhecimentos produzidos de maneiras alternativas \u00e0 vis\u00e3o cient\u00edfica acad\u00eamica. Artigos, dados e estat\u00edsticas convivem, em sala de aula, com relatos orais, m\u00fasicas, produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, comida e outros documentos que s\u00e3o analisados lado a lado com fontes tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A cultura no curr\u00edculo<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Um curr\u00edculo de educa\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais precisa apresentar autores africanos, afro-brasileiros e ind\u00edgenas. Precisa tamb\u00e9m destacar a contribui\u00e7\u00e3o desses grupos na forma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, assim como suas formas de resist\u00eancia ao colonialismo e ao racismo. E, segundo a lei 10.639\/03, precisa tamb\u00e9m discutir a cultura afro-brasileira.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"elementor-blockquote\">\u201cO ensino de Cultura Afro-Brasileira destacar\u00e1 o jeito pr\u00f3prio de ser, viver e pensar manifestado tanto no dia a dia, quanto em celebra\u00e7\u00f5es como congadas, mo\u00e7ambiques, ensaios, maracatus, rodas de samba, entre outras\u201d, afirmam as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educa\u00e7\u00e3o para as Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ainda que a lei n\u00e3o explicitasse a necessidade de abordar a cultura, seria imposs\u00edvel discutir a hist\u00f3ria dos povos africanos e ind\u00edgenas e de seus descendentes sem tocar nesse tema. As festas populares, os ritmos musicais, as dan\u00e7as e a capoeira n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas contribui\u00e7\u00f5es desses grupos, mas revelam aspectos importantes sobre suas trajet\u00f3rias aqui no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Um trabalho transversal de educa\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es raciais deve destacar as contribui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, hist\u00f3ricas, cient\u00edficas e intelectuais dos movimentos negros e ind\u00edgenas. Mas, com frequ\u00eancia, essas contribui\u00e7\u00f5es se cruzam com a produ\u00e7\u00e3o cultural desses movimentos, sobretudo na demonstra\u00e7\u00e3o de como esses grupos resistiram ao colonialismo e ao racismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por si s\u00f3, manter tradi\u00e7\u00f5es e celebra\u00e7\u00f5es vivas j\u00e1 \u00e9 um movimento de resist\u00eancia que merece ser estudado: h\u00e1 diversos relatos sobre tentativas de criminaliza\u00e7\u00e3o da capoeira e do Carnaval, por exemplo. Mas, para al\u00e9m disso, a resist\u00eancia tamb\u00e9m pauta essas manifesta\u00e7\u00f5es. As can\u00e7\u00f5es de <a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/g5-ao-2o-ano\/\" data-type=\"capitulos\" data-id=\"4382\">Gilberto Gil<\/a>&nbsp;e de <a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/musica-historia-e-cultura-na-voz-de-clementina-de-jesus\/\" data-type=\"capitulos\" data-id=\"4382\">Clementina de Jesus<\/a>, <a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/discutindo-rap-rimas-e-desenvolvendo-o-speaking\/\" data-type=\"capitulos\" data-id=\"4399\">as letras de rap<\/a>, e os cortejos do Il\u00ea Ayi\u00ea e do Il\u00fa Ob\u00e1 De Min denunciam e discutem as rela\u00e7\u00f5es raciais e a hist\u00f3ria do Brasil (<em>clique nos links para ler reportagens sobre esses temas nesta edi\u00e7\u00e3o da Zum-Zum)<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 conte\u00fado mais do que suficiente para que as perspectivas africanas, afro-brasileiras, ind\u00edgenas e de outros grupos \u00e9tnicos presentes no Brasil e no mundo estejam na sala de aula ao longo de todo o ano, e em todas as \u00e1reas de conhecimento. Nessa perspectiva, as tradi\u00e7\u00f5es populares e as festas se tornam mais um entre tantos objetos de estudo que s\u00e3o ponto de partida para um ensino que expande horizontes, valoriza as diferen\u00e7as e forma estudantes cr\u00edticos \u00e0 realidade em que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Documento | <a href=\"https:\/\/download.inep.gov.br\/publicacoes\/diversas\/temas_interdisciplinares\/diretrizes_curriculares_nacionais_para_a_educacao_das_relacoes_etnico_raciais_e_para_o_ensino_de_historia_e_cultura_afro_brasileira_e_africana.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educa\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais e para o Ensino de Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira e Africana<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo | <strong>O movimento negro e a intelectualidade negra descolonizando os curr\u00edculos<\/strong>, de Nilma Lino Gomes. Presente no livro <em>Decolonialidade e pensamento afrodiasp\u00f3rico<\/em>\u201d, organizado por Joaze Bernardino-Costa, Nelson Maldonado Torres e Ram\u00f3n Grosfoguel.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisa | <a href=\"https:\/\/alana.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/lei-10639-pesquisa.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Lei 10.639\/03: a atua\u00e7\u00e3o das Secretarias Municipais de Educa\u00e7\u00e3o no ensino de hist\u00f3ria e cultura africana e afro-brasileira<\/strong><\/a>, realizada por Geled\u00e9s \u2013 Instituto da Mulher Negra e Instituto Alana. Documento | <a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/documentos\/link\/eb\/eb_projeto_ed_antirracista_2022.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Projeto de Educa\u00e7\u00e3o Antirracista da Escola e do Instituto Vera Cruz<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_msocom_1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_msocom_2\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[16],"edicao":[68],"class_list":["post-4422","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-reportagem","edicao-edicao-8"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/4422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4422"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/4422\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4652,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/4422\/revisions\/4652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4422"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}