{"id":4143,"date":"2025-03-10T16:28:08","date_gmt":"2025-03-10T19:28:08","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=4143"},"modified":"2025-03-21T10:16:30","modified_gmt":"2025-03-21T13:16:30","slug":"novos-jeitos-de-ver-o-ceu-as-turmas-do-6o-ano-se-aprofundaram-nos-conhecimentos-de-astronomia-desenvolvidos-por-povos-indigenas","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/novos-jeitos-de-ver-o-ceu-as-turmas-do-6o-ano-se-aprofundaram-nos-conhecimentos-de-astronomia-desenvolvidos-por-povos-indigenas\/","title":{"rendered":"Novos jeitos de ver o c\u00e9u: as turmas do 6\u00ba ano se aprofundaram nos conhecimentos de astronomia desenvolvidos por povos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Ingrid Matuoka<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Diante de cartas celestes que mostravam a posi\u00e7\u00e3o dos astros no c\u00e9u noturno em diferentes regi\u00f5es do planeta, os estudantes do 6\u00b0 ano do Ensino Fundamental criaram suas pr\u00f3prias constela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Beatriz, que ama gatos, s\u00f3 conseguia ver orelhas pontudas e bigodes compridos na representa\u00e7\u00e3o das estrelas como vistas na cidade de S\u00e3o Paulo. Liz, que adora doces, desenhou v\u00e1rios donuts no c\u00e9u de Marrakech, no Marrocos. \u201cEles colocaram no papel o repert\u00f3rio que eles trazem, de videogames, animes e\u00a0 bichos. \u00c9 assim que os humanos nomeiam as coisas ao redor, a partir do que h\u00e1 em seu imagin\u00e1rio\u201d, afirma Maria Silvia Abr\u00e3o, professora coordenadora da \u00e1rea de Ci\u00eancias da Natureza.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"299\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-5.gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-4146\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A turma observou cartas celestes e tentou identificar poss\u00edveis figuras. Assim, perceberam que h\u00e1 muitas maneiras poss\u00edveis de identificar constela\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Isso explica por que uma mesma regi\u00e3o no c\u00e9u \u00e9 chamada de Via L\u00e1ctea pelos gregos e de Caminho da Anta pela maioria das etnias Tupi-guarani. O planeta V\u00eanus, em refer\u00eancia \u00e0 deusa da mitologia romana, \u00e9 a Mulher da Lua para os Guarani. E o Cruzeiro do Sul, assim batizado por um navegador italiano, \u00e9 conhecido como Pata da Ema entre povos tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra diferen\u00e7a \u00e9 que as civiliza\u00e7\u00f5es do hemisf\u00e9rio norte conectam os pontos brilhantes no c\u00e9u para formar figuras. Por aqui, al\u00e9m desse tipo de visualiza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se utilizam dos espa\u00e7os \u201cvazios\u201d entre as estrelas para formar uma imagem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cProcuramos atuar sob a perspectiva do curr\u00edculo decolonial, porque a ci\u00eancia que temos ensinado na escola \u00e9 europeia, ent\u00e3o buscamos ensinar outras cosmovis\u00f5es e modos de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento para apresentar as epistemologias do Sul Global, que foram invisibilizadas, mas s\u00e3o t\u00e3o importantes quanto as demais\u201d, diz Maria Silvia sobre a sequ\u00eancia did\u00e1tica que foi desenvolvida ao longo de 2023 e 2024.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A produ\u00e7\u00e3o ind\u00edgena<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Junto \u00e0 professora Patricia Vincenzi Olivati, as pesquisas e debates com as turmas caminharam para o contato com os saberes ind\u00edgenas sobre leitura do c\u00e9u, ou seja, como essas comunidades interpretam o cosmos dentro de sua perspectiva. A turma estudou sobre como a observa\u00e7\u00e3o dos astros permitiu a esses povos construir rel\u00f3gios solares, tamb\u00e9m observados em popula\u00e7\u00f5es como as do Egito, China e Gr\u00e9cia.<\/p>\n\n\n\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de constela\u00e7\u00f5es, do Sol, da Lua e at\u00e9 de nuvens de poeira c\u00f3smica foi utilizada para marcar as esta\u00e7\u00f5es do ano, decidir sobre a melhor \u00e9poca para cortar madeira, plantar e colher, saber o tipo de peixe que poderiam pescar naquele per\u00edodo e outros comportamentos dos rios, chuvas, secas, ventos e animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os povos ind\u00edgenas n\u00e3o produziram conhecimentos s\u00f3 no passado. Para atualizar a conversa, a professora Patricia tamb\u00e9m assistiu e debateu com os estudantes entrevistas <a href=\"https:\/\/globoplay.globo.com\/v\/12005045\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">em v\u00eddeo de Ailton Krenak.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma delas, o l\u00edder ind\u00edgena, ambientalista, fil\u00f3sofo e escritor conta sobre sua participa\u00e7\u00e3o na Assembleia Nacional Constituinte, respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira de 1988. Em protesto, pintou o rosto com tinta de jenipapo e contribuiu para a conquista da inclus\u00e3o de um cap\u00edtulo na Carta Magna sobre a prote\u00e7\u00e3o dos direitos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDiscutimos, para al\u00e9m dos conhecimentos ind\u00edgenas que foram apagados, quais outras hist\u00f3rias desses povos ind\u00edgenas n\u00e3o foram contadas\u201d, diz a professora Patricia, que tamb\u00e9m abordou com a turma a import\u00e2ncia da tradi\u00e7\u00e3o oral para essas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 mais um ponto para a amplia\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio da turma, para eles entenderem que existem outras formas de funcionamento e de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento no mundo\u201d, afirma. Entre seus registros, resgata a impress\u00e3o de Amanda, 12 anos, sobre a lideran\u00e7a: \u201cO Ailton \u00e9 conhecido pelo poder de sua fala\u201d, disse a estudante.<\/p>\n\n\n\n<p>Como parte da sequ\u00eancia, a turma tamb\u00e9m leu trechos do artigo \u201cContribui\u00e7\u00f5es nativas para o conhecimento\u201d, publicado em 2003, por Germano Bruno Afonso, professor aposentado de F\u00edsica na Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), que dedicou boa parte de seus esfor\u00e7os ao estudo e documenta\u00e7\u00e3o da Astronomia Ind\u00edgena.&nbsp; Chamou aten\u00e7\u00e3o de alguns estudantes o uso do termo \u201c\u00edndio\u201d, problematizado ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas pelos povos origin\u00e1rios brasileiros por perpetuar preconceitos e generalizar as identidades ind\u00edgenas. \u201cAl\u00e9m de conhecer a produ\u00e7\u00e3o intelectual ind\u00edgena, foi mais uma oportunidade de trabalhar com eles o motivo de utilizarmos o termo ind\u00edgena hoje em dia\u201d, explica Patr\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Observando o c\u00e9u<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A proposta de trabalho com astronomia na perspectiva decolonial convoca os alunos a recuperarem uma pr\u00e1tica ancestral \u2013 conectar-se com o c\u00e9u, com a natureza. Muitos alunos relataram que foi a primeira vez que se colocaram a observar o c\u00e9u.&nbsp;&nbsp;A metodologia utilizada possibilita que os estudantes experimentem o fazer ci\u00eancia vivenciando pr\u00e1ticas cient\u00edficas como: observar, registrar, coletar dados, transformar dados em evid\u00eancias e levantar hip\u00f3teses. A atividade fez com que o c\u00e9u diurno e noturno se tornasse, ao longo de 15 dias, objeto de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"432\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6.gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-4147\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A turma exercitou a observa\u00e7\u00e3o do c\u00e9u e elaborou maneiras de registrar o que viram. Registro feito pelo aluno Murilo.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para finalizar as atividades e sistematizar os conhecimentos constru\u00eddos, os estudantes elaboraram mapas mentais. Joana del Santoro Reis Can\u00eado, 12 anos, por exemplo, utilizou um conceito debatido por Ailton Krenak e escreveu: \u201cA \u00e1gua \u00e9 uma entidade, n\u00e3o \u00e9 um recurso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"420\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Imagem1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4148\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Imagem1.png 600w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Imagem1-300x210.png 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Os mapas mentais foram utilizados para sistematizar parte do que os estudantes aprenderam em aula.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A partir dos registros dos estudantes e das professoras, a professora coordenadora Maria Silvia reflete sobre os aprendizados ao longo das atividades:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEles experimentaram pr\u00e1ticas cient\u00edficas, desenvolveram a observa\u00e7\u00e3o, o olhar cr\u00edtico e conectaram conhecimentos de outras \u00e1reas. Tamb\u00e9m conseguimos abordar o conceito de que a ci\u00eancia opera a partir de verdades transit\u00f3rias e que a leitura que se faz do mundo \u00e9 sempre a partir de si mesmo\u201d \u2013 mais um passo para a compreens\u00e3o de que, assim como nos ensinou Chimamanda Ngozie Adichie, n\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria \u00fanica, e tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia \u00fanica.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Artigo \u201cMitos e esta\u00e7\u00f5es no c\u00e9u tupi-guarani\u201d, de Germano Bruno Afonso, publicado originalmente na revista <em>Scientific American Brasil<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?artigos=mitos-e-estacoes-no-ceu-tupi-guarani\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?artigos=mitos-e-estacoes-no-ceu-tupi-guarani<\/a>. Acesso em: 27 fev. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo \u201cUma sequ\u00eancia did\u00e1tica para discutir as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais (Leis 10.639\/03 e 11.645\/08) na educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, publicado no <em>Caderno Brasileiro de Ensino de F\u00edsica<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/fisica\/article\/view\/2175-7941.2018v35n3p917\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/fisica\/article\/view\/2175-7941.2018v35n3p917<\/a>. Acesso em: 27 fev. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00eddeo \u201c<a href=\"https:\/\/globoplay.globo.com\/v\/12005045\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Numa vota\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a ABL elegeu o primeiro ind\u00edgena<\/a>\u201d. <em>Jornal Nacional<\/em>, 5 out. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[51,17],"edicao":[66],"class_list":["post-4143","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-6o-ao-9o-ano","tag-praticas-pedagogicas","edicao-edicao-7"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/4143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4143"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/4143\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4265,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/4143\/revisions\/4265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4143"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=4143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}