{"id":3656,"date":"2024-03-11T15:30:12","date_gmt":"2024-03-11T18:30:12","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=3656"},"modified":"2024-03-11T15:30:12","modified_gmt":"2024-03-11T18:30:12","slug":"modernidade-e-colonialidade-descolonizando-o-curriculo","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/modernidade-e-colonialidade-descolonizando-o-curriculo\/","title":{"rendered":"Modernidade e colonialidade: descolonizando o curr\u00edculo"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Por Nairim Bernardo<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cToda a vida na escola \u00e9 curr\u00edculo em \u00faltima inst\u00e2ncia\u201d, resume Andr\u00e9 Reinach, assessor curricular da Escola Vera Cruz. Mas a parte mais palp\u00e1vel do curr\u00edculo \u00e9 a escolha sobre o que e como ensinar. Para construir um projeto antirracista, portanto, \u00e9 fundamental pensar n\u00e3o apenas nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, mas tamb\u00e9m em como cada um dos conte\u00fados s\u00e3o abordados em sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>Era essa tarefa de reformula\u00e7\u00e3o que o professor Mario Zanca Neto estava realizando para a \u00e1rea de Ci\u00eancias Humanas quando a Escola Vera Cruz come\u00e7ou a desenvolver o seu projeto de educa\u00e7\u00e3o antirracista. Logo ele percebeu que o novo curr\u00edculo precisava de mais mudan\u00e7as e n\u00e3o hesitou em come\u00e7ar o trabalho novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu j\u00e1 tinha reformulado o curr\u00edculo, mas ainda n\u00e3o estava satisfeito. Fui estudar, fiz um curso sobre educa\u00e7\u00e3o antirracista e a quest\u00e3o da decolonialidade no curr\u00edculo. Pensei muito na minha responsabilidade como professor branco e que, para uma educa\u00e7\u00e3o antirracista, \u00e9 necess\u00e1rio um curr\u00edculo antirracista\u201d, relembra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDefini a decolonialidade como fio condutor. Quando pensamos nesse conceito, podemos entender a colonialidade do ser, do saber e do poder. A partir disso, pensei em como come\u00e7ar a descolonizar o curr\u00edculo e as sequ\u00eancias did\u00e1ticas\u201d, afirma Mario. O pensamento decolonial \u00e9 aquele que questiona a percep\u00e7\u00e3o de mundo que sempre parte de referenciais da Europa Ocidental e prop\u00f5e uma revis\u00e3o a partir da perspectiva de povos que foram oprimidos. Para entender como isso pode acontecer na pr\u00e1tica, basta pensar na diferen\u00e7a entre dizer que o Brasil foi <em>descoberto <\/em>em 1500 e que o Brasil foi <em>invadido<\/em>. Qual vers\u00e3o foi contada quando voc\u00ea estava na escola?<\/p>\n\n\n\n<p>No trabalho com o 8\u00ba ano, que \u00e9 focado na hist\u00f3ria do Brasil, o professor Mario definiu algumas perguntas norteadoras, sendo elas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Por que se pode dizer que a coloniza\u00e7\u00e3o acabou e o colonialismo n\u00e3o?<\/li>\n\n\n\n<li>Am\u00e9rica: descobrimento, conquista ou invas\u00e3o?<\/li>\n\n\n\n<li>Modernidade e colonialidade: como deslocar o olhar euroc\u00eantrico sobre a modernidade e construir outros imagin\u00e1rios? Imagin\u00e1rios que nos coloquem como sujeitos da hist\u00f3ria e n\u00e3o sujeitos \u00e0 hist\u00f3ria?<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Refletindo sobre elas \u00e9 poss\u00edvel ver como a perspectiva da educa\u00e7\u00e3o antirracista promove uma nova forma de pensar mesmo os temas que j\u00e1 s\u00e3o tradicionalmente tratados pela escola.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Desfazendo os mitos euroc\u00eantricos&nbsp;<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o do ano, os alunos fizeram uma revis\u00e3o hist\u00f3rica do per\u00edodo escravocrata a partir da luta e da resist\u00eancia negra. O primeiro ponto importante \u00e9 reconhecer que essa resist\u00eancia \u00e0 escravid\u00e3o sempre aconteceu, diferente de muitas narrativas de novelas ou quadros cl\u00e1ssicos que representam as pessoas escravizadas como passivas. O maior exemplo disso \u00e9 o Quilombo dos Palmares, que j\u00e1 figura no imagin\u00e1rio social como um dos maiores s\u00edmbolos de liberdade e de resist\u00eancia a qualquer forma de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma atividade, quando perguntado sobre a mudan\u00e7a na vis\u00e3o hist\u00f3rica da escravid\u00e3o, um aluno respondeu: \u201cCom a historiografia contempor\u00e2nea, desfazemos mitos que nos foram contados\u201d. Em outra tarefa, a turma foi orientada a olhar para a cidade e para as not\u00edcias do jornal \u00e0 luz da pergunta central do trimestre e elaborar reflex\u00f5es sobre o colonialismo no cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo trimestre, os alunos estudaram os povos da Am\u00e9rica antes da chegada dos europeus e como foram os primeiros contatos com os rec\u00e9m-chegados. Nesse momento, leram a Carta de Pero Vaz de Caminha e textos de Ailton Krenak, primeiro ind\u00edgena eleito para a Academia Brasileira de Letras. Passaram ent\u00e3o a prestar mais aten\u00e7\u00e3o no uso das palavras e como seus significados alteram n\u00e3o s\u00f3 o sentido de uma frase, mas tamb\u00e9m a perspectiva que constru\u00edmos sobre os fatos hist\u00f3ricos e o olhar sobre diferentes povos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, estudaram o Renascimento e a modernidade europeia. A partir de obras de arte e releituras, come\u00e7aram a deslocar o olhar euroc\u00eantrico para observar como artistas negros e ind\u00edgenas prop\u00f5em outros imagin\u00e1rios. Ao entrar em contato com novos artistas, puderam entender os denominados cl\u00e1ssicos, como a <em>Monalisa<\/em>, como <em>parte<\/em> da hist\u00f3ria da arte e n\u00e3o como o modo \u00fanico e \u201csuperior\u201d de faz\u00ea-la. Entre os artistas apresentados para os alunos est\u00e3o: Jaider Esbell, Denilson Baniwa e Harmonia Rosales e Arjan Martins.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Daqui para a frente<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O professor Mario est\u00e1 h\u00e1 3 anos investindo no processo de mudan\u00e7as curriculares focadas em um curr\u00edculo antirracista e conta que j\u00e1 observa transforma\u00e7\u00f5es importantes no comportamento dos alunos. Segundo ele, como o 6\u00ba e o 7\u00ba ano tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e3o discutindo algumas dessas quest\u00f5es, a resist\u00eancia dos alunos diminuiu. Eles est\u00e3o mais abertos para pensar a hist\u00f3ria de uma outra perspectiva e para desfazer os mitos da historiografia tradicional eurocentrada, inclusive trazendo questionamentos pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no que diz respeito aos professores, ele conta que no in\u00edcio das pesquisas sobre educa\u00e7\u00e3o antirracista todos chegaram ao entendimento de que isso n\u00e3o poderia ser um \u201cpuxadinho\u201d, ou seja, que fossem tratadas em aulas separadas do restante do curr\u00edculo. \u201cFiquei com isso na cabe\u00e7a e quando fui repensar o curr\u00edculo defini que esse olhar tinha que fazer parte de todo o processo curricular. Por isso pensei em algo que viesse desde o primeiro semestre e perdurasse\u201d, conta Mario.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTemos reuni\u00f5es semanais entre os professores dos Anos Finais do Ensino Fundamental. Estamos sempre dialogando e compartilhando as experi\u00eancias para que o curr\u00edculo seja uma constante, uma trajet\u00f3ria. Eu mergulhei nessa reformula\u00e7\u00e3o mais profunda, e estou num di\u00e1logo com professores de outros anos para continuarmos essas mudan\u00e7as. Tamb\u00e9m temos reuni\u00e3o uma vez por m\u00eas com os professores do Ensino M\u00e9dio, at\u00e9 pra saber como esse processo t\u00e1 continuando l\u00e1\u201d, diz. \u201cA minha proje\u00e7\u00e3o de futuro \u00e9 conseguir pensar e repensar as atividades no sentido de desconstruir esse imagin\u00e1rio colonialista e reconstruir um que considere a nossa hist\u00f3ria por outras perspectivas, e isso n\u00e3o se faz com uma a\u00e7\u00e3o, com uma sequ\u00eancia did\u00e1tica ou em um ano s\u00f3.\u201d<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[51,17],"edicao":[60],"class_list":["post-3656","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-6o-ao-9o-ano","tag-praticas-pedagogicas","edicao-edicao-5"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3656"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3656\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3657,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3656\/revisions\/3657"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3656"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}