{"id":3633,"date":"2024-03-11T14:42:33","date_gmt":"2024-03-11T17:42:33","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=3633"},"modified":"2024-03-11T14:44:58","modified_gmt":"2024-03-11T17:44:58","slug":"no-faz-de-conta-a-construcao-do-olhar-para-a-diversidade","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/no-faz-de-conta-a-construcao-do-olhar-para-a-diversidade\/","title":{"rendered":"No faz de conta, a constru\u00e7\u00e3o do olhar para a diversidade"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Por Paula Peres<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em turmas diversas, como as do Verinha da unidade Alvil\u00e2ndia, aspectos sobre a conviv\u00eancia com o multiculturalismo e a diversidade racial s\u00e3o colocados de forma intencional no curr\u00edculo da escola e ganham forma nos planejamentos dos professores. Ao organizar os materiais e o espa\u00e7o com essa inten\u00e7\u00e3o, surgem oportunidades das crian\u00e7as se relacionarem com elas de forma natural no dia a dia da escola. Foi o que aconteceu na turma do G1, sob responsabilidade das educadoras Nath\u00e1lia Puccinelli e Sofia Fontana Alves. \u201cNo in\u00edcio do ano, a gente pensou com bastante cuidado a organiza\u00e7\u00e3o da sala e a escolha dos materiais. Como a maioria das crian\u00e7as ainda nem fala, a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o muitas vezes vai definir o trabalho do ano inteiro\u201d, explica a professora Sofia, uma das educadoras regentes da turma.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa faixa et\u00e1ria, os beb\u00eas ainda est\u00e3o descobrindo o mundo que existe fora de suas casas, e devem vivenciar experi\u00eancias que os conectem com a compreens\u00e3o e o cuidado de si e do outro. As professoras decidiram, ent\u00e3o, olhar com mais intencionalidade para objetos que sempre estiveram entre as possibilidades de brinquedos das turmas: bonecos e bonecas negros. \u201cNos apoiamos no pensamento da Cl\u00e9lia Rosa, educadora antirracista, de que \u00e9 importante as crian\u00e7as aprenderem que corpos negros precisam de cuidado\u201d, defende Nath\u00e1lia. O trabalho, assim, tem rela\u00e7\u00e3o direta com a <strong>corporeidade<\/strong>, um dos <a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/o-poder-ancestral-e-os-valores-civilizatorios-afro-brasileiros\/\" data-type=\"capitulos\" data-id=\"3594\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">valores civilizat\u00f3rios afro-brasileiros<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para apresentar as bonecas e os bonecos aos pequenos, as educadoras os deixaram dispon\u00edveis em um dos espa\u00e7os organizados na sala, durante todo o ano letivo, junto com bonecos brancos e outros brinquedos que faziam refer\u00eancia \u00e0s atividades do cotidiano. Ao longo do tempo, elas puderam observar como as rela\u00e7\u00f5es com esses brinquedos foram sendo constru\u00eddas pelas crian\u00e7as da turma.<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio das brincadeiras, as crian\u00e7as reproduzem as viv\u00eancias de cuidado pelas quais elas passam. Por exemplo: ao cuidar da boneca, elas assumem o papel dos pais, respons\u00e1veis e outros adultos; nesses casos, a a\u00e7\u00e3o delas com rela\u00e7\u00e3o ao brinquedo tem rela\u00e7\u00e3o direta com a maneira como elas&nbsp; s\u00e3o cuidadas. \u201cObservamos crian\u00e7as colocando a boneca no ber\u00e7o, algumas vezes entrando junto, dando beijinho, cobrindo com uma cobertinha. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o muito bonita que se estabelece\u201d, lembra Sofia.<\/p>\n\n\n\n<figure data-wp-context=\"{&quot;imageId&quot;:&quot;69e5d81cd9b15&quot;}\" data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69e5d81cd9b15\" class=\"wp-block-image size-full is-resized wp-lightbox-container\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"451\" data-wp-class--hide=\"state.isContentHidden\" data-wp-class--show=\"state.isContentVisible\" data-wp-init=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-on--load=\"callbacks.setButtonStyles\" data-wp-on-window--resize=\"callbacks.setButtonStyles\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/pp-g1-g4-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3635\" style=\"width:100%\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/pp-g1-g4-1.jpg 602w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/pp-g1-g4-1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><button\n\t\t\tclass=\"lightbox-trigger\"\n\t\t\ttype=\"button\"\n\t\t\taria-haspopup=\"dialog\"\n\t\t\taria-label=\"Ampliar\"\n\t\t\tdata-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\"\n\t\t\tdata-wp-on--click=\"actions.showLightbox\"\n\t\t\tdata-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\"\n\t\t\tdata-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"\n\t\t>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewBox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\" \/>\n\t\t\t<\/svg>\n\t\t<\/button><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A pequena Lu\u00edsa coloca a boneca na almofada, para dormir, d\u00e1 um beijo em seu rosto, brinca de apagar a luz e deita-se ao lado.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Com o passar dos meses, as crian\u00e7as foram crescendo e trazendo novos elementos para essa brincadeira. Enquanto no primeiro semestre a brincadeira era mais de carregar e cuidar, no segundo semestre j\u00e1 apareceram constru\u00e7\u00f5es de narrativas, poss\u00edvel de notar em falas como \u201cVou levar o nen\u00ea para passear\u201d e \u201cVem comigo dar banho\u201d. Essas narrativas possibilitam a importante constru\u00e7\u00e3o do faz de conta para essa faixa et\u00e1ria. \u201cO faz de conta ajuda a crian\u00e7a a elaborar o mundo que ela vai enxergando\u201d, reflete Nath\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora ainda se lembra de outro epis\u00f3dio que expandiu o seu olhar sobre as brincadeiras. \u201cUma das alunas, parda, filha de pai negro e m\u00e3e branca, pegou duas bonecas pretas e uma branca, levou at\u00e9 \u00e0 professora e indicou \u2018Esse \u00e9 o papai, essa \u00e9 a mam\u00e3e e essa sou eu\u2019\u201d, conta. Para al\u00e9m da apresenta\u00e7\u00e3o de corpos de tons de pele diversos, a professora percebeu que aquelas bonecas tamb\u00e9m eram a possibilidade das crian\u00e7as se enxergarem e enxergarem outras pessoas, como suas pr\u00f3prias fam\u00edlias. Mais uma dimens\u00e3o fundamental na constru\u00e7\u00e3o do conhecimento sobre si e sobre o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Nath\u00e1lia, essa escolha de que as crian\u00e7as se relacionassem diariamente com refer\u00eancias pretas foi proposital. \u201cO que \u00e9 vivido cotidianamente vai ganhando mais t\u00f4nus. Quanto mais voc\u00ea se relaciona, mais aquilo vai sendo interiorizado, vai fazendo parte de voc\u00ea.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos brinquedos, as professoras tamb\u00e9m fizeram uma sele\u00e7\u00e3o de livros que trouxessem personagens negros como protagonistas, como <em>Ops<\/em>, de Marilda Castanha; <em>Cad\u00ea?<\/em>, de Gra\u00e7a Lima; <em>Bola vermelha<\/em>, de Vanina Starkoff; e <em>Iori descobre o Sol<\/em>, o Sol descobre Iori&#8221;, de Oswaldo Faustino, para o espa\u00e7o da leitura. Por meio da literatura, os pequenos experimentam o sentimento de pertencimento a um grupo e o respeito a diferentes tradi\u00e7\u00f5es culturais e est\u00e9ticas. Oferecer obras liter\u00e1rias diversas, para al\u00e9m do que j\u00e1 \u00e9 tradicionalmente valorizado pela sociedade, expande ainda mais essas refer\u00eancias que apoiam a constru\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias identidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme as crian\u00e7as v\u00e3o crescendo e se desenvolvendo na dimens\u00e3o da compreens\u00e3o de si e do outro, elas conseguem elaborar melhor as pr\u00f3prias impress\u00f5es. Foi o que aconteceu com a turma do G3. A partir de diferentes atividades envolvendo o livro&nbsp; <em>O vestido de Afiya<\/em>, de James Berry, as crian\u00e7as se apegaram \u00e0 personagem, inventaram sua biografia e imaginaram tudo o que poderiam fazer se ela fosse \u201creal\u201d. De acordo com Karina Crespo e Tatiana Vieira, docentes respons\u00e1veis pelo grupo, a inten\u00e7\u00e3o era que as crian\u00e7as pudessem, com base na literatura, ampliar sua dimens\u00e3o est\u00e9tica, encontrar representatividade e pensar sobre si e o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, as crian\u00e7as verbalizaram ind\u00edcios de que estavam se sentindo mais \u00edntimas da personagem, \u201cbuscando dar significado \u00e0s suas viv\u00eancias, relacionando-as com as suas pr\u00f3prias experi\u00eancias de vida\u201d, contam as professoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma boneca de pano confeccionada com apoio de toda a comunidade da escola, com um vestido igual ao da protagonista do livro, foi a materializa\u00e7\u00e3o que as crian\u00e7as precisavam para realizar tudo o que viviam apenas em sua imagina\u00e7\u00e3o, cheios de gestos de afeto, carinho e cuidado com a \u201cAfiya da vida real\u201d. As crian\u00e7as puderam levar a boneca inspirada em Afiya para suas casas e, assim, compartilhar com ela as viv\u00eancias que possuem com suas fam\u00edlias. \u201cAfiya e as crian\u00e7as guardam em seus corpos as mem\u00f3rias do nosso grupo\u201d, conta a professora Karina.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"451\" height=\"338\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/pp-g1-g4-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3636\" style=\"aspect-ratio:16\/9;object-fit:cover;width:100%\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/pp-g1-g4-2.jpg 451w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/pp-g1-g4-2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A boneca Afiya se tornou uma grande parceira da turma, participando de brincadeiras dentro e fora da escola.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando os pequenos se acostumam a cuidar desde cedo de corpos de diferentes tons de pele, as conex\u00f5es se tornam mais f\u00e1ceis e verdadeiras. \u201cAs crian\u00e7as v\u00e3o olhando para aqueles corpos como corpos que tamb\u00e9m precisam de carinho e afeto\u201d, concluem as professoras.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[54,17],"edicao":[60],"class_list":["post-3633","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-g1-ao-g4","tag-praticas-pedagogicas","edicao-edicao-5"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3633"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3633\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3641,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3633\/revisions\/3641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3633"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}