{"id":3204,"date":"2023-09-14T14:29:12","date_gmt":"2023-09-14T17:29:12","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=3204"},"modified":"2023-09-18T10:02:37","modified_gmt":"2023-09-18T13:02:37","slug":"brasil-seculo-21-a-nova-diaspora-africana","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/brasil-seculo-21-a-nova-diaspora-africana\/","title":{"rendered":"Brasil, s\u00e9culo 21: a nova di\u00e1spora africana"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Beatriz Calais<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma conversa por telefone, a congolesa Benediction Kipuni, de 27 anos, conta sobre o seu sonho profissional: atuar na \u00e1rea de moda e est\u00e9tica. No seu WhatsAapp e no Instagram, chamam aten\u00e7\u00e3o as fotos de maquiagens cuidadosas e unhas em gel delicadas, t\u00e9cnicas que ela aprendeu ap\u00f3s passar mais de seis anos morando no Brasil ap\u00f3s deixar seu pa\u00eds natal em busca de uma nova vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida na cidade de Goma, no interior da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, Benediction sempre adorou o seu pa\u00eds, mas sabia que existiam algumas limita\u00e7\u00f5es quanto a estudo e trabalho. Por isso, em dezembro de 2015, ela decidiu se mudar para o Brasil. \u201cEu vim para buscar novos horizontes e oportunidades que n\u00e3o seriam poss\u00edveis no Congo. Precisava estudar e trabalhar\u201d, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de cursar portugu\u00eas ela estudou um ano de maquiagem e aproveitou o seu pr\u00f3prio conhecimento em costura para vender roupas \u00e9tnicas com tecidos importados da \u00c1frica, o que ajudou na gera\u00e7\u00e3o de renda para sobreviver por aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De volta ao Congo no come\u00e7o do ano, Benediction pretende regressar ao Brasil em definitivo neste segundo semestre. O motivo? Para ela, aqui est\u00e1 o destino ideal para seu crescimento t\u00e9cnico e profissional, impress\u00e3o crescentemente compartilhada por outros milhares de imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Esperan\u00e7a de acolhimento no Brasil<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>De acordo com o informativo mensal de janeiro de 2023, elaborado pelo Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es Internacionais (OBMigra), desde janeiro de 2021 a emiss\u00e3o de vistos pelos postos consulares brasileiros apresenta tend\u00eancia de aumento, partindo de 3,8 mil vistos para 9,2 mil em janeiro de 2023.S\u00e3o pessoas que v\u00eam para c\u00e1 em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e prote\u00e7\u00e3o social, fugindo de conflitos em sua terra natal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, por exemplo, ainda vive resqu\u00edcios de viol\u00eancia por conta da guerra civil que assolou o pa\u00eds em 1997 e acabou oficialmente em 2003. Segundo os \u00faltimos dados da Ag\u00eancia da ONU para Refugiados (Acnur), j\u00e1 s\u00e3o mais de 918 mil refugiados congoleses em busca de uma vida nova em outros lugares do mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da viol\u00eancia, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds tamb\u00e9m acaba impactando negativamente em quest\u00f5es b\u00e1sicas da sociedade, como educa\u00e7\u00e3o e mercado de trabalho. \u201cAqui no Brasil a \u00e1rea de est\u00e9tica \u00e9 muito avan\u00e7ada, ent\u00e3o eu posso voltar para o Congo com um conhecimento muito maior. Posso ajudar com pelo menos 1% de avan\u00e7o no meu pa\u00eds\u201d, explica Benediction.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais que o Brasil tamb\u00e9m passe por grandes desafios pol\u00edticos e econ\u00f4micos, ainda \u00e9 visto com otimismo por muitos imigrantes, como no caso dos angolanos. \u201cDecidi me mudar para c\u00e1 em 2011 motivado pelos estudos\u201d, conta Isidro Sanene, que em setembro de 2022 idealizou e fundou o Centro Cultural Casa de Angola, organiza\u00e7\u00e3o com o objetivo de fortalecer os la\u00e7os culturais entre os dois pa\u00edses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma rela\u00e7\u00e3o secular<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Morando na capital paulista h\u00e1 10 anos, Isidro quer fortalecer a cultura africana para acolher imigrantes que, assim como ele, arriscam a vida neste pa\u00eds cuja rela\u00e7\u00e3o com Angola remonta a s\u00e9culos atr\u00e1s. Uma pesquisa feita em 2015 sobre o tr\u00e1fico de pessoas escravizadas no Brasil mostra que, at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, a Bahia recebia, por ano, cerca de cinco a oito mil pessoas escravizadas em seu territ\u00f3rio, a maioria de Angola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempos mais atuais, o pa\u00eds foi o primeiro a reconhecer a independ\u00eancia de Angola, em 1975. Com boas rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, em 1980 tamb\u00e9m assinou o Acordo Geral de Coopera\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica, T\u00e9cnico-Cient\u00edfica e Cultural, que constituiu as bases do desenvolvimento e colabora\u00e7\u00e3o entre as duas na\u00e7\u00f5es, que historicamente possuem uma trajet\u00f3ria parecida, visto que foram col\u00f4nias portuguesas \u2013 uma proximidade lingu\u00edstica, cultural e diplom\u00e1tica, por vezes, esquecida.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a Embaixada de Angola no Brasil, estima-se cerca de 10 mil cidad\u00e3os da di\u00e1spora angolana vivendo em solo brasileiro \u2014 majoritariamente nos estados de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. &#8220;H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses, ent\u00e3o trabalhamos com essa reconex\u00e3o ancestral&#8221;, explica Isidro, destacando que a comunidade angolana em S\u00e3o Paulo \u00e9 grande e expressiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que acolher, a Casa de Angola tamb\u00e9m realiza exposi\u00e7\u00f5es de arte e leciona cursos como l\u00ednguas africanas, empreendedorismo e filosofia. Al\u00e9m da idealiza\u00e7\u00e3o de Isidro, o espa\u00e7o tamb\u00e9m recebe ajuda institucional do Consulado, o que contribui para a manuten\u00e7\u00e3o do projeto. No entanto, essa iniciativa ainda \u00e9 raridade quando se trata do acolhimento de imigrantes africanos no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>N\u00e3o h\u00e1 mar de rosas<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Quando decidiu se mudar para o Brasil, Benediction teve uma rede de apoio junto a colegas do seu pai, que j\u00e1 residiam por aqui e a convidaram para morar com eles. O quadro geral, no entanto, costuma ser diferente. Sem contar com um centro para refugiados, muitos chegam sem saber para onde ir e a quem recorrer.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado, em 2022 o n\u00famero de imigrantes em situa\u00e7\u00e3o de rua atendidos pela Prefeitura de S\u00e3o Paulo bateu a maior marca dos \u00faltimos anos: 6.387 pessoas de 93 nacionalidades. Atualmente, h\u00e1 mais de 1.875 imigrantes acolhidos pela prefeitura, segundo a pasta de Assist\u00eancia e Desenvolvimento Social. No meio desses dados, chama a aten\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a de imigrantes angolanos, que quase quintuplicou de 2020 para 2022, indo de 267 para 2.486 registros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A proximidade lingu\u00edstica, cultural e diplom\u00e1tica entre os pa\u00edses, como explicou Isidro, \u00e9 uma das respostas para esse n\u00famero acentuado. Uma vez no Brasil, no entanto, os imigrantes acabam encontrando desemprego, burocracia, falta de oportunidades e preconceito. A pr\u00f3pria Benediction, que tinha uma rede de apoio no pa\u00eds, passou por casos de racismo em sua passagem por aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo Congo n\u00e3o existe preconceito. Somos todos negros. Quando cheguei no Brasil, me senti muito mal ao passar por situa\u00e7\u00f5es assim. Eu nunca tinha vivido isso. Tinha 19 anos e achei horr\u00edvel\u201d, recorda. \u201cUm dia eu estava no \u00f4nibus e uma senhora n\u00e3o quis sentar perto de mim. Eu n\u00e3o entendia o motivo, mas quando levantei para descer ela finalmente decidiu sentar. Al\u00e9m disso, quando passou por mim, fez o maior esfor\u00e7o para n\u00e3o encostar. A\u00ed eu entendi.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lidar com essa situa\u00e7\u00e3o foi uma das maiores dificuldades de Benediction no Brasil. \u201cIsso me incomodou muito no in\u00edcio. Achei que tinha algo errado comigo. Mas essas s\u00e3o as minhas caracter\u00edsticas. Sou negra, tenho o cabelo crespo e eu me orgulho disso. N\u00e3o deixei o preconceito mexer com a minha autoestima\u201d, diz ela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o estere\u00f3tipo de pa\u00eds acolhedor represente uma dificuldade para que essa discuss\u00e3o avance, Isidro n\u00e3o v\u00ea outra alternativa a n\u00e3o ser lev\u00e1-la adiante. \u201cO racismo estrutural \u00e9 muito presente na sociedade brasileira. N\u00e3o deveria ser normal, mas \u00e9 muito comum\u201d, afirma. Por mais que ambos gostem da vida no Brasil e valorizem os aprendizados que tiveram at\u00e9 o momento, \u00e9 preciso refletir sobre o que falta para que o pa\u00eds realmente fa\u00e7a jus \u00e0 fama de acolhedor.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[16],"edicao":[46],"class_list":["post-3204","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-reportagem","edicao-edicao-4"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3204","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3204"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3204\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3404,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3204\/revisions\/3404"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3204"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}