{"id":3198,"date":"2023-09-14T14:23:21","date_gmt":"2023-09-14T17:23:21","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=3198"},"modified":"2023-09-18T08:27:46","modified_gmt":"2023-09-18T11:27:46","slug":"interseccionalidade-ou-tudo-ao-mesmo-tempo-agora-contra-a-desigualdade","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/interseccionalidade-ou-tudo-ao-mesmo-tempo-agora-contra-a-desigualdade\/","title":{"rendered":"Interseccionalidade \u2013 ou tudo ao mesmo tempo agora contra a desigualdade"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Gabriela Del Carmen e Maria Laura Saraiva&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nas&nbsp; \u00faltimas&nbsp; d\u00e9cadas, as sociedades v\u00eam se conscientizando sobre a import\u00e2ncia de se questionar as bases ideol\u00f3gicas dos discursos preconceituosos. Nesse contexto, as escolas se mostram um espa\u00e7o prop\u00edcio para a discuss\u00e3o de novos conceitos. Um dos mais f\u00e9rteis, um poliss\u00edlabo, tem pot\u00eancia explicativa proporcional ao seu tamanho: interseccionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos a uma defini\u00e7\u00e3o. Interseccionalidade \u00e9 um conceito sociol\u00f3gico que remete \u00e0 teoria dos conjuntos da Matem\u00e1tica. Voc\u00ea se lembra? Entre dois conjuntos \u2013 geralmente representados de forma esquem\u00e1tica como c\u00edrculos \u2013, a intersec\u00e7\u00e3o diz respeito aos elementos que pertencem simultaneamente aos dois conjuntos. A capa desta edi\u00e7\u00e3o da Zum Zum traz uma representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica dessa ideia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sociologicamente, os \u201cconjuntos\u201d podem representar as caracter\u00edsticas mais importantes de determinado grupo: identidade de g\u00eanero, ra\u00e7a, etnia, localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, idade \u2013 ou seja, os fatores sociais que definem uma pessoa. V\u00e1rios deles articulam din\u00e2micas de poder e se tornam indicadores de opress\u00e3o. Para muitos indiv\u00edduos, esses fatores se sobrep\u00f5em. Numa palavra, eles interseccionam.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A interseccionalidade nomeia o cruzamento de marcadores sociais nas pessoas. Uma mulher negra perif\u00e9rica, por exemplo, enfrenta n\u00e3o s\u00f3 quest\u00f5es de g\u00eanero, mas tamb\u00e9m de ra\u00e7a e classe. Outra din\u00e2mica se forma com base na sua sexualidade ou classe social, com novas camadas de privil\u00e9gios e desigualdades surgindo a partir da jun\u00e7\u00e3o de todas estas caracter\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo sistema social existem diversas din\u00e2micas de exclus\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o que respondem a estruturas de poder como racismo, patriarcado e quest\u00f5es de classe. Quando elas se cruzam, estamos lidando com a interseccionalidade\u201d, explica Alexsandro Santos, Diretor de Pol\u00edticas e Diretrizes da Educa\u00e7\u00e3o Integral B\u00e1sica (SEB\/MEC), <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/3z416HOI2X0xDj3QWf4zlx?si=FJVr1MPVS-SQaYrOwE2AhQ\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">em entrevista para o podcast \u201cO Futuro Se Equilibra\u201d<\/a>, produzido pela plataforma Porvir com o apoio do Instituto Unibanco.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de interseccionalidade surgiu em 1989 a partir da te\u00f3rica e ativista norte-americana Kimberl\u00e9 Crenshaw. Desde ent\u00e3o, vem sendo trabalhado e desenvolvido por estudiosos ao redor mundo, incluindo a renomada professora estadunidense Patricia Hill Collins e a brasileira Carla Akotirene.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA ideia nasce das reflex\u00f5es do movimento feminista \u2013 particularmente do movimento feminista negro \u2013 sobre as interconex\u00f5es dos processos de opress\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o de poder, combinando elementos relacionados \u00e0 quest\u00e3o de classe, g\u00eanero e aspectos \u00e9tnico-raciais\u201d, observa Maur\u00edcio Hashizume, professor na Universidade de Gurupi (UnirG).<\/p>\n\n\n\n<p>A interseccionalidade \u00e9 fundamental para que as pessoas construam uma vis\u00e3o mais ampla e aprofundada sobre quest\u00f5es sociais, entendendo o racismo em sua dimens\u00e3o estrutural. \u201cEla nos permite compreender as camadas que existem em torno do problema. Uma leitura interseccional pode relacionar uma situa\u00e7\u00e3o racista com, por exemplo, a desigualdade de g\u00eanero ou diferen\u00e7as de classe\u201d, diz o especialista.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os impactos na educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Segundo os especialistas, a interseccionalidade tamb\u00e9m possui um papel fundamental na promo\u00e7\u00e3o da equidade em sala de aula. Desde 1988, a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira assegura o direito e acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para todos os cidad\u00e3os. Apesar disso, a maioria das escolas ainda reproduz uma estrutura de desigualdade e exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEmbora a escola seja um lugar socializador, tamb\u00e9m \u00e9 nela que vamos entender que as diferen\u00e7as entre os grupos existem\u201d, aponta Thais Sena, coordenadora pedag\u00f3gica da Ebony English, escola dedicada ao ensino de ingl\u00eas com cultura negra. Para ela, a interseccionalidade \u00e9 uma ferramenta da luta antirracista ao devolver humanidade para a educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as negras, ind\u00edgenas e asi\u00e1ticas que, de outra forma, n\u00e3o teriam a sua cultura contemplada no ambiente escolar.<\/p>\n\n\n\n<p>Para C\u00e1ssio Rodrigues Faria, pesquisador de educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia, as escolas precisam se ancorar na interseccionalidade como ferramenta anal\u00edtica que d\u00e1 sentido \u00e0s pr\u00e1ticas escolares. \u201cAs salas de aula precisam promover discuss\u00f5es sobre g\u00eanero e ra\u00e7a de maneira interligada, proporcionando um olhar panor\u00e2mico sobre tem\u00e1ticas que se apresentam como desafiadoras e, ao mesmo tempo, primordiais para o processo de ensino e aprendizagem\u201d, destaca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na sala de aula, a aplica\u00e7\u00e3o do conceito considera a inclus\u00e3o de conte\u00fados que fa\u00e7am parte da plenitude de experi\u00eancias vivenciadas por aqueles alunos, levando em considera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, a realidade pol\u00edtica e social na qual est\u00e3o inseridos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExistem atravessamentos a serem considerados pelos educadores, mesmo que eles n\u00e3o se sintam diretamente atingidos por eles\u201d, ressalta Thais. Na vis\u00e3o da pesquisadora, lidar com a interseccionalidade na educa\u00e7\u00e3o significa oferecer um ensino mais pr\u00f3ximo \u00e0 realidade de estudantes de diferentes etnias, g\u00eaneros e classes sociais \u2013 sem que a cultura branca seja adotada como padr\u00e3o universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Um primeiro passo para avan\u00e7ar nesse sentido \u00e9 considerar a forma\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios professores. Al\u00e9m de um curr\u00edculo que inclua a diversidade de culturas e formas de conhecimento, tamb\u00e9m \u00e9 relevante promover pesquisadores negros e suas respectivas produ\u00e7\u00f5es intelectuais na sala de aula, de forma a torn\u00e1-los acess\u00edveis para os estudantes pretos\u2026 e brancos.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[16],"edicao":[46],"class_list":["post-3198","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-reportagem","edicao-edicao-4"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3198"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3201,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/3198\/revisions\/3201"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3198"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}