{"id":2709,"date":"2023-02-23T10:25:34","date_gmt":"2023-02-23T13:25:34","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=2709"},"modified":"2023-09-18T10:04:44","modified_gmt":"2023-09-18T13:04:44","slug":"no-extremo-leste-de-sao-paulo-o-antirracismo-comeca-pela-formacao-de-professores","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/no-extremo-leste-de-sao-paulo-o-antirracismo-comeca-pela-formacao-de-professores\/","title":{"rendered":"No extremo leste de S\u00e3o Paulo, o antirracismo come\u00e7a pela forma\u00e7\u00e3o de professores"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Beatriz Calais e Maria Laura Saraiva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>20 anos atr\u00e1s, mais precisamente em janeiro de 2003, era sancionada a Lei n\u00ba 10.639, que se tornaria um marco na hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o brasileira. Ao tornar obrigat\u00f3rio o ensino de hist\u00f3ria e cultura africana na grade curricular, bem como incorporar o Dia da Consci\u00eancia Negra ao calend\u00e1rio infantil, a legisla\u00e7\u00e3o semeou as bases de uma educa\u00e7\u00e3o antirracista que, hoje, apesar de grandes avan\u00e7os, ainda enfrenta entraves em sua implementa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo dados da Pnad Cont\u00ednua da Educa\u00e7\u00e3o 2020 \u2014 cap\u00edtulo da pesquisa que acompanha a evolu\u00e7\u00e3o dos indicadores educacionais no Pa\u00eds \u2014, das 50 milh\u00f5es de pessoas de 14 a 29 anos no Brasil, 20,2% n\u00e3o completaram alguma etapa da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u2014 algumas por terem abandonado a escola, outras por nunca a terem frequentado. Desse total, que representa 10,1 milh\u00f5es de brasileiros, 71,7% eram pretas ou pardas. Os principais motivos para a evas\u00e3o escolar, por exemplo, envolvem a necessidade de trabalhar e a falta de interesse pelos assuntos abordados na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com a vig\u00eancia da lei, esses indicadores demonstram o tamanho do desafio de construir um curr\u00edculo verdadeiramente significativo, emp\u00e1tico e acolhedor para todos em n\u00edvel nacional. S\u00e3o tamb\u00e9m incontorn\u00e1veis os esfor\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o de professores rumo a uma educa\u00e7\u00e3o antirracista, que contemple a diversidade \u00e9tnico-cultural de estudantes das cinco regi\u00f5es brasileiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado originalmente na Revista Veras, o artigo \u201c<a href=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/instituto\/revistaveras\/index.php\/revistaveras\/article\/view\/532\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Tr\u00eas bra\u00e7os de rio: forma\u00e7\u00e3o antirracista em escolas p\u00fablicas de S\u00e3o Miguel Paulista<\/em><\/a>\u201d, escrito pelas professoras e pedagogas Erika Brasil Figueiredo e Joseli Magalh\u00e3es Perezine, junto com o soci\u00f3logo Leonardo Alves da Cunha Carvalho, traz um bom exemplo de como isso tem acontecido na pr\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mostrar iniciativas de enfrentamento do racismo promovidas por institui\u00e7\u00f5es de ensino na zona leste de S\u00e3o Paulo \u2014 mais especificamente, em S\u00e3o Miguel Paulista \u2014, o texto convida o leitor para conhecer de perto os caminhos de uma pedagogia antirracista, trajet\u00f3ria que, segundo os autores, encontra barreiras de v\u00e1rias ordens, como a redu\u00e7\u00e3o de verbas, o avan\u00e7o de pautas conservadoras, os impactos da covid-19 e outros desafios t\u00edpicos do ambiente escolar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Percal\u00e7os \u00e0 parte, a mobiliza\u00e7\u00e3o de professores e a promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas educativas t\u00eam se mostrado eficazes no avan\u00e7o dessa constru\u00e7\u00e3o curricular. Entre as a\u00e7\u00f5es, destaque para o projeto formativo de professores que percorre o contexto do assassinato do afro-americano George Floyd, al\u00e9m de uma oficina sobre a educa\u00e7\u00e3o antirracista numa perspectiva ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dos estudos de caso, os autores se debru\u00e7am sobre os pilares que ajudam a entender como a educa\u00e7\u00e3o antirracista deve funcionar. \u00c9 preciso oferecer acesso, qualidade e estrutura de perman\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Por onde come\u00e7a uma educa\u00e7\u00e3o antirracista?<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>\u201cPrimeiro, h\u00e1 de se tomar cuidado para n\u00e3o cair no senso comum e reprodutor de pensamentos e pr\u00e1ticas que em nada contribuem para o aprimoramento dessa forma\u00e7\u00e3o antirracista\u201d, explica a professora Joseli Magalh\u00e3es, uma das autoras do artigo. \u201cBuscar refer\u00eancias genuinamente ligadas a movimentos negros \u00e9 um bom ponto de partida, mas n\u00e3o \u00e9 o suficiente, pois lidamos com crian\u00e7as, adolescentes, m\u00e3es, pais e demais respons\u00e1veis que sofrem o racismo diariamente, e a escola tamb\u00e9m \u00e9 um espa\u00e7o de reprodu\u00e7\u00e3o dessa pr\u00e1tica.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos grandes desafios \u00e9 a dificuldade que muitos t\u00eam em reconhecer o car\u00e1ter excludente da sociedade brasileira \u2014 exclus\u00e3o da qual uma parcela dessas pessoas \u00e9, inclusive, v\u00edtima. \u201cO racismo \u00e9 t\u00e3o forte que muitos pais pretos com filhos pretos n\u00e3o se veem como tal e negam sua origem. No ato da matr\u00edcula, os respons\u00e1veis preenchem uma ficha padr\u00e3o da Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o em que se pede para indicar a cor\/ra\u00e7a. Percebemos que muitos respondem a esse item com a cor branca. O mesmo se passa com o corpo docente, que nem sempre se identifica como negro nem percebe que sofre racismo dentro da escola\u201d, revela Joseli.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignleft size-large is-resized\"><a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Reportagem-2-edited-1-scaled.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Reportagem-2-edited-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2779\" style=\"width:253px\" width=\"253\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Reportagem-2-edited-1-scaled.jpg 1601w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Reportagem-2-edited-1-188x300.jpg 188w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Reportagem-2-edited-1-640x1024.jpg 640w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Reportagem-2-edited-1-768x1228.jpg 768w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Reportagem-2-edited-1-960x1536.jpg 960w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Reportagem-2-edited-1-1281x2048.jpg 1281w\" sizes=\"(max-width: 1601px) 100vw, 1601px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A professora Joseli Magalh\u00e3es Perezine.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na discuss\u00e3o sobre a forma\u00e7\u00e3o antirracista nas escolas p\u00fablicas de S\u00e3o Miguel Paulista, a professora destaca a import\u00e2ncia, para os pr\u00f3prios professores, do debate em torno do racismo estrutural, conceito que ficou conhecido em livro do fil\u00f3sofo e atual ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida. A partir da leitura da obra, uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d aconteceu no grupo de professores, dizem os autores. Muitos descobriram aspectos completamente novos em sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, enquanto outros desenvolveram um olhar mais acolhedor em rela\u00e7\u00e3o aos alunos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para a especialista, esse tem sido um dos impactos mais marcantes do processo de ensino antirracista. \u201cIsso mudou o olhar deles para si pr\u00f3prios e para a comunidade em que atuam e vivem\u201d, completa. Com os alunos, o resultado \u00e9 parecido. A partir da percep\u00e7\u00e3o de si mesmo, \u00e9 poss\u00edvel desenvolver suas individualidades de forma plena, acolhimento que se revela essencial para prevenir a evas\u00e3o escolar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Do olhar para si, um olhar para o mundo&nbsp;<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Para os pesquisadores, o papel dos professores na condu\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas educacionais antirracistas \u00e9 central. No caso de S\u00e3o Miguel Paulista, s\u00e3o vis\u00edveis os esfor\u00e7os necess\u00e1rios para que, antes de desenvolver o tema em sala de aula, a quest\u00e3o seja motivo de estudos e reflex\u00f5es por parte dos docentes. \u00c9 papel deles levar \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes uma abordagem que n\u00e3o simplifique a tem\u00e1tica racista \u2014 sem que, para isso, a tem\u00e1tica se torne demasiadamente complicada, incompreens\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A conclus\u00e3o frustrante \u00e9 que, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, foram poucas as a\u00e7\u00f5es que promoveram mudan\u00e7as estruturais no interior das escolas. \u201cNesse ponto, \u00e9 interessante tomarmos consci\u00eancia de que uma lei n\u00e3o consegue, sozinha, transformar uma sociedade. Cabe aos gestores, professores e comunidade provocarem a\u00e7\u00f5es que gerem projetos, mobilizando a escola como um todo\u201d, opina Joseli.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUm dos avan\u00e7os \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o de projetos que t\u00eam deixado de ser apenas uma apresenta\u00e7\u00e3o de trabalhos num momento pontual do ano letivo para se transformar numa pedagogia antirracista permanente, do primeiro ao \u00faltimo dia de aula.\u201d \u00c9 essa aten\u00e7\u00e3o redobrada, com esfor\u00e7o cont\u00ednuo, que visa semear&nbsp; \u2014 pouco a pouco \u2014 a mudan\u00e7a de mentalidade dos alunos, familiares e docentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOutro ponto importante \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da cor preta e do cabelo crespo no interior da escola. Isso tem total rela\u00e7\u00e3o com o posicionamento dos professores em situa\u00e7\u00f5es corriqueiras de sala de aula, que desvelam o racismo relutante nas conversas e \u2018brincadeiras\u2019 dos alunos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2018 \u00e0 frente da forma\u00e7\u00e3o antirracista nas escolas da zona leste de S\u00e3o Paulo, Joseli v\u00ea avan\u00e7os. \u201cAinda que o desmonte educacional provoque abalos de diversas ordens, como a redu\u00e7\u00e3o de verbas que atinge v\u00e1rios programas no \u00e2mbito federal, estadual e municipal, continuaremos a abrir caminhos para desconstruir o curr\u00edculo euroc\u00eantrico, propondo a leitura, an\u00e1lise e interpreta\u00e7\u00e3o de nossas origens\u201d, finaliza.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[16],"edicao":[38],"class_list":["post-2709","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-reportagem","edicao-edicao-3"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/2709","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2709"}],"version-history":[{"count":19,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/2709\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3407,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/2709\/revisions\/3407"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2709"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2709"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2709"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}