{"id":2641,"date":"2023-02-17T16:16:37","date_gmt":"2023-02-17T19:16:37","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=2641"},"modified":"2023-09-18T14:10:24","modified_gmt":"2023-09-18T17:10:24","slug":"de-parede-aos-cabelos-na-verdade-nada-e-liso","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/de-parede-aos-cabelos-na-verdade-nada-e-liso\/","title":{"rendered":"De parede aos cabelos, na verdade, nada \u00e9 liso!"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Arianda Patr\u00edcia e Cibele Lucena, professoras do Vera Integral<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O projeto de Artes tem acontecido a partir do eixo \u201cInf\u00e2ncia: cidade-natureza\u201d, transversal ao trabalho do Vera Integral. A ideia de exercer o direito da crian\u00e7a \u00e0 cidade e de captar o olhar delas para o territ\u00f3rio e sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza foi o que nos mobilizou. Em nossos primeiros encontros, propusemos a t\u00e9cnica da frotagem (do franc\u00eas <em>frotter<\/em>, friccionar) e sa\u00edmos pelo bairro da Vila Ipojuca para investigar as texturas dos muros, postes, grades, pneus, cal\u00e7adas e cascas de \u00e1rvores.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta ao ateli\u00ea, percebemos a surpresa no olhar das crian\u00e7as diante da multiplicidade de marcas gr\u00e1ficas coletadas. Uma delas revelou que nunca havia desenhado tanto e que, mesmo assim, sabia que n\u00e3o t\u00ednhamos coletado \u201cnem 1% da cidade\u201d. Outra crian\u00e7a estava intrigada com o fato de que todas as paredes apareciam na frotagem \u201ccom chuviscos\u201d, mesmo as mais lisas. Diante disso, outra colega observou: \u201c\u00c9 que, na verdade, nada \u00e9 liso!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/Sd3-RidU1WERkVBG7Kj9SFKi6i_fI6BBNTa2A0zUYMGAlCE74E-sXLUA5tGbIAFYIxMmAmMHEgXEGwyWHT2uyldt3P_HLT64VdN1noRHMJob9YlFiEu60oOjXoaU-QwU7JMKsXjMBdoLTUU_T8jjh-0\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/Sd3-RidU1WERkVBG7Kj9SFKi6i_fI6BBNTa2A0zUYMGAlCE74E-sXLUA5tGbIAFYIxMmAmMHEgXEGwyWHT2uyldt3P_HLT64VdN1noRHMJob9YlFiEu60oOjXoaU-QwU7JMKsXjMBdoLTUU_T8jjh-0\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Na investiga\u00e7\u00e3o sobre as \u201cpeles da cidade\u201d, a compreens\u00e3o de que nada \u00e9 liso<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Esse processo despertou o interesse das crian\u00e7as por investigar tamb\u00e9m as marcas de nossos corpos e a presen\u00e7a da professora Arianda Patr\u00edcia, suscitou uma curiosidade:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cSer\u00e1 que d\u00e1 para pegar a textura do cabelo da Pati?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De imediato, veio a resposta: <em>\u201cPara isso, eu preciso permitir!\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cE voc\u00ea deixa, Pati?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cSim, eu deixo voc\u00eas experimentarem a textura do meu cabelo.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em reflex\u00e3o posterior a esse momento com as crian\u00e7as, Pati pontuou com a sua dupla de trabalho: <em>\u201cN\u00e3o vamos deixar passar! Vai ser importante elas experimentarem as texturas de meu cabelo, em sua maioria, s\u00e3o crian\u00e7as que n\u00e3o tocam em cabelos crespos&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A resposta da professora Pati \u00e0s crian\u00e7as, que refor\u00e7ava o cuidado com o corpo (pr\u00f3prio e do outro) como algo importante, foi o ponto de retomada. Escolhemos apresentar o livro \u201c<em>Com Qual Penteado Eu Vou<\/em>\u201d, de Kiusam de Oliveira, porque a narrativa e as imagens poderiam aprofundar o estudo do significado das identidades e o papel da ancestralidade. Posteriormente, em duplas, crian\u00e7as e professoras, respeitosamente, captamos as texturas de nossos diferentes cabelos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/zL0QmTT8pzD5zsVShkJ6Xd2YYqPU5cgHwZoAohjma-c2GnkrOFm9JX7xiFYtljQRO-hP91W9vOeGF6ebqcsFo3hoJSLb9YvmgjDyx1rsKYASBc9N1xFFfXPNH32GhTfImsxsKBmWTCLqIwCJsdYFJgg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/zL0QmTT8pzD5zsVShkJ6Xd2YYqPU5cgHwZoAohjma-c2GnkrOFm9JX7xiFYtljQRO-hP91W9vOeGF6ebqcsFo3hoJSLb9YvmgjDyx1rsKYASBc9N1xFFfXPNH32GhTfImsxsKBmWTCLqIwCJsdYFJgg\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A professora Pati conduz a aprecia\u00e7\u00e3o do livro \u201cCom Qual Penteado Eu Vou\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A aprecia\u00e7\u00e3o dos trabalhos produzidos, alimentada pelo livro de Kiusam, abriu uma conversa muito potente. As crian\u00e7as perceberam que os cabelos e as pessoas do livro de Kiusam s\u00e3o diferentes e que, se a gente olhar com aten\u00e7\u00e3o, se observarmos bem, cada pessoa \u00e9 uma. Perceberam tamb\u00e9m que o cabelo pode ser extens\u00e3o do corpo, tem identidade, ancestralidade, vem de longe. Descobriram que, com giz de cera e papel, podemos captar as texturas dos cabelos e tamb\u00e9m alguns penteados, como aconteceu com as tran\u00e7as da Estela, uma aluna do grupo. Observamos que o cabelo pode ser uma morada, uma casa para tran\u00e7as, tiaras, flores e hist\u00f3rias, e que o cabelo da Pati conta as hist\u00f3rias do pai e tamb\u00e9m da sua m\u00e3e, que lhe dizia: <em>&#8220;Filha, seu cabelo \u00e9 sua origem!&#8221;<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao refletirmos sobre o processo, Patr\u00edcia comentou:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cFoi lindo trabalharmos esse conte\u00fado de um lugar coletivo, investigando todos os cabelos. O livro nos ajudou a ampliar a percep\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o dos sujeitos. N\u00e3o era s\u00f3 sobre o cabelo, nossas peles s\u00e3o diversas.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Observamos a import\u00e2ncia do cuidado, do respeito e do tempo, e o quanto \u00e9 lindo celebrar a vida das nossas av\u00f3s e bisav\u00f3s. A coleta de texturas possibilitou olhar de perto e aprender que uma coisa sempre parece outra. Aprofundamos a investiga\u00e7\u00e3o das peles e das hist\u00f3rias do corpo. Relacionamos corpo e cidades, com suas peles, registros, cicatrizes e marcas. Pudemos pensar sobre as diversas camadas que comp\u00f5em uma educa\u00e7\u00e3o antirracista: o letramento racial, a necessidade do estudo, e, sobretudo, a abertura para aprender a escutar. Quando surge uma fala ou um olhar racista em um grupo, como transform\u00e1-lo em inten\u00e7\u00e3o, interven\u00e7\u00e3o e, sobretudo, em reflex\u00f5es sobre as diferentes experi\u00eancias e lugares que ocupam as pessoas? Como educadores e educadoras brancos podem enfrentar esses assuntos sem medo e sem moralizar a conversa com as crian\u00e7as?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/BQofPZr8v3E9kMThEgqJkzXQrkJnaGCjH05YmZX1YYL4ITHyA0tBFTa3XsWJRNVK9Fdr6CSQv8uNYr6Ug0hUSKNTO0YC2B9OlfeYrCAcsms2vUroXz8BYZ0U0ggBsJPzGUiM0efLeTTqsUGRTDB5sJk\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/BQofPZr8v3E9kMThEgqJkzXQrkJnaGCjH05YmZX1YYL4ITHyA0tBFTa3XsWJRNVK9Fdr6CSQv8uNYr6Ug0hUSKNTO0YC2B9OlfeYrCAcsms2vUroXz8BYZ0U0ggBsJPzGUiM0efLeTTqsUGRTDB5sJk\" alt=\"\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A frotagem dos cabelos das turmas produziu registros sobre a diversidade de texturas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em nossa reflex\u00e3o, Cibele compartilhou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu reconhecia na provoca\u00e7\u00e3o um conte\u00fado racial que n\u00e3o poderia escapar. Mas tamb\u00e9m reconhecia uma delicadeza, tratava-se de duas professoras, uma negra e uma branca, e a provoca\u00e7\u00e3o se dirigia ao corpo e ao cabelo negros. Se eu tomasse a palavra e respondesse de imediato, colocaria voc\u00ea, Pati, no lugar de objeto de estudos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso agir, e isso pede prontid\u00e3o, sensibilidade e escuta. Por isso foi necess\u00e1rio compreendermos o que estava em jogo, \u201chabitarmos\u201d a situa\u00e7\u00e3o, para o planejamento e continuidade das interven\u00e7\u00f5es com as crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro de Kiusam de Oliveira ainda nos permitiu convesar sobre vitiligo. Algumas crian\u00e7as reagiram \u00e0s imagens dizendo, \u201cparece uma vaca\u201d ou \u201cela passou protetor solar e n\u00e3o espalhou\u201d. Elas est\u00e3o lidando com algo novo, que n\u00e3o \u00e9 cotidiano e t\u00eam uma escuta sens\u00edvel quando problematizamos. Pati perguntou: \u201cvoc\u00eas nunca viram uma pessoa com a pele assim?\u201d Muitas disseram que n\u00e3o. Explicamos o que \u00e9 o vitiligo, apresentamos a elas a modelo canadense Winnie Harlow e o rapper brasileiro Rappin\u2019 Hood, ambos com vitiligo, acreditando que elas podem entrar em contato com esse assunto com tranquilidade, sem assombros.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando dialogamos com escuta atenta, oferecemos refer\u00eancias do que significa diversidade, respeito e cuidado. Como professoras, muitas vezes j\u00e1 buscamos emergencialmente um livro para tratar determinada quest\u00e3o das crian\u00e7as. Mas cada vez mais temos valorizado a import\u00e2ncia de nos anteciparmos, de planejarmos in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es para tratarmos com profundidade conhecimentos t\u00e3o fundamenais do nosso curr\u00edculo. Precisamos acessar imagens, m\u00fasicas e literaturas que abram mundos e colaborem com o nosso compromisso \u00e9tico, est\u00e9tico e pol\u00edtico diante de quest\u00f5es como o racismo. S\u00f3 assim poderemos escutar e n\u00e3o fazer \u201cvistas grossas\u201d para falas que muitas vezes t\u00eam resson\u00e2ncia entre as crian\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[53,17],"edicao":[38],"class_list":["post-2641","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-integral","tag-praticas-pedagogicas","edicao-edicao-3"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/2641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2641"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/2641\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3386,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/2641\/revisions\/3386"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2641"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}