{"id":1907,"date":"2022-09-06T10:45:15","date_gmt":"2022-09-06T13:45:15","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=1907"},"modified":"2023-09-18T09:57:03","modified_gmt":"2023-09-18T12:57:03","slug":"a-luta-para-trazer-os-quilombos-para-o-curriculo","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/a-luta-para-trazer-os-quilombos-para-o-curriculo\/","title":{"rendered":"A luta para trazer os quilombos para o curr\u00edculo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Beatriz Calais<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/quilombolas-vale-do-ribeira-credito_Gilvani_Scatolin_ISA-Agencia-Brasil.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"613\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/quilombolas-vale-do-ribeira-credito_Gilvani_Scatolin_ISA-Agencia-Brasil-1024x613.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2058\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/quilombolas-vale-do-ribeira-credito_Gilvani_Scatolin_ISA-Agencia-Brasil-1024x613.jpg 1024w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/quilombolas-vale-do-ribeira-credito_Gilvani_Scatolin_ISA-Agencia-Brasil-300x179.jpg 300w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/quilombolas-vale-do-ribeira-credito_Gilvani_Scatolin_ISA-Agencia-Brasil-768x459.jpg 768w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/quilombolas-vale-do-ribeira-credito_Gilvani_Scatolin_ISA-Agencia-Brasil.jpg 1170w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">O sistema agr\u00edcola tradicional das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, no sudeste paulista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Segundo dados da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, h\u00e1 3.754 comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil. Embora a maior concentra\u00e7\u00e3o esteja em Minas Gerais, Bahia e Maranh\u00e3o, o estado de S\u00e3o Paulo conta com 58 comunidades. Desse total, 37 ficam no Vale do Ribeira, uma regi\u00e3o conhecida pela forte presen\u00e7a de ind\u00edgenas, quilombolas, cai\u00e7aras e caboclos, uma marca de sua pluralidade sociocultural e \u00e9tnica.<\/p>\n\n\n\n<p>Localizado entre duas grandes regi\u00f5es metropolitanas \u2013 S\u00e3o Paulo e Curitiba \u2013, o Vale do Ribeira carrega um passado de intensa explora\u00e7\u00e3o durante os per\u00edodos colonial e imperial, o que hoje se reflete num dos piores \u00cdndices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado de S\u00e3o Paulo, com elevadas taxas de mortalidade infantil, analfabetismo e desemprego.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, apesar da precariedade social, a regi\u00e3o disp\u00f5e de uma riqueza que a coloca na vitrine de muitos interesses econ\u00f4micos, j\u00e1 que, no Vale, est\u00e3o presentes as maiores manchas cont\u00ednuas remanescentes de Mata Atl\u00e2ntica do Brasil, o que tem motivado disputas pelo dom\u00ednio dessas terras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Considerando essa complexidade, o N\u00facleo de Apoio \u00e0 Pesquisa sobre Popula\u00e7\u00f5es Humanas em \u00c1reas \u00damidas Brasileiras da Universidade de S\u00e3o Paulo (NUPAUB-USP) publicou estudo com um olhar voltado \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o contra quilombos no Vale do Ribeira, buscando entender o papel da escola p\u00fablica nesse desafio. A autoria \u00e9 de Lis\u00e2ngela Kati do Nascimento, cientista social e professora da Universidade Federal do ABC (UFABC). O artigo foi <a href=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/instituto\/revistaveras\/index.php\/revistaveras\/article\/view\/499\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">publicado originalmente na revista Veras<\/a>, publica\u00e7\u00e3o acad\u00eamica do Instituto Vera Cruz.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Para Lis\u00e2ngela, que foi criada no Vale do Ribeira e desenvolveu a pesquisa entre 2017 e 2019, o protagonismo da escola p\u00fablica esbarra num descompasso entre a atividade legislativa e a implementa\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica, das novas diretrizes. Em outras palavras: apesar dos avan\u00e7os na elabora\u00e7\u00e3o de leis, resolu\u00e7\u00f5es e diretrizes curriculares visando uma educa\u00e7\u00e3o diversa, o que est\u00e1 no papel n\u00e3o tem se traduzido em a\u00e7\u00f5es no contexto das escolas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que isso acontece? A resposta est\u00e1 no pr\u00f3prio Vale do Ribeira. E, para entendermos melhor, \u00e9 preciso conhecer um pouco mais a regi\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Prazer, sou o Vale do Ribeira<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Para preservar seu patrim\u00f4nio ambiental, grande parte da regi\u00e3o est\u00e1 protegida sob a categoria Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o (UC). Embora cumpra uma fun\u00e7\u00e3o importante na defesa do meio ambiente, tal designa\u00e7\u00e3o acaba impactando o modo de vida das comunidades tradicionais, que sobrevivem gra\u00e7as \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos naturais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O territ\u00f3rio tem sido palco de in\u00fameros conflitos socioambientais, j\u00e1 que muitas fam\u00edlias tiveram suas casas sobrepostas por alguma UC \u2013 o que pode se configurar como uma pr\u00e1tica de racismo ambiental, j\u00e1 que a a\u00e7\u00e3o desconsidera a presen\u00e7a secular de tais comunidades e seus modos de manejo dos recursos naturais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos conflitos socioambientais, a partir de 1980 um projeto de constru\u00e7\u00e3o de barragens no rio Ribeira de Iguape ganhou for\u00e7a. Vendendo-se como uma solu\u00e7\u00e3o para os baixos indicadores sociais da regi\u00e3o, argumentava-se que as barragens poderiam fomentar o desenvolvimento econ\u00f4mico no local. Mas havia tamb\u00e9m o interesse pelo territ\u00f3rio. Ainda em 1980, buscando prote\u00e7\u00e3o, as comunidades quilombolas fundaram o Movimento dos Amea\u00e7ados por Barragens do Vale do Ribeira (Moab).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora tenha se mostrado importante para a luta dessas comunidades, a iniciativa tem provocado rea\u00e7\u00f5es de setores da sociedade, que t\u00eam acusado a movimenta\u00e7\u00e3o contra a Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o e o projeto de barragem de impedirem o progresso da regi\u00e3o. Tal vis\u00e3o, que caminha junto com a estigmatiza\u00e7\u00e3o dos modos de vida tradicionais, acaba refor\u00e7ando a discrimina\u00e7\u00e3o contra as comunidades quilombolas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para a surpresa de Lis\u00e2ngela, nenhum desses assuntos \u00e9 abordado dentro das escolas. \u201cO que ocorre, muitas vezes, \u00e9 que determinados grupos socioculturais e \u00e9tnicos aparecem no curr\u00edculo escolar apenas em datas comemorativas. As comunidades quilombolas s\u00e3o lembradas no dia da Consci\u00eancia Negra e os ind\u00edgenas brasileiros no dia 19 de abril\u201d, explica a cientista social no artigo. \u201cAl\u00e9m disso, ainda prevalece uma perspectiva folcl\u00f3rica no encaminhamento pedag\u00f3gico destas datas comemorativas.\u201d Para a estudiosa, esse tipo de abordagem \u201ccongela\u201d a cultura e acentua as diferen\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em conversa com os professores da regi\u00e3o, Lis\u00e2ngela descobriu que, para evitar desconforto entre os alunos, conflitos locais n\u00e3o s\u00e3o abordados em sala de aula. \u201cNuma mesma sala se encontram alunos quilombolas, cai\u00e7aras e caboclos, bem como filhos de fazendeiros, grileiros e comerciantes, cujas fam\u00edlias t\u00eam pontos de vista diferentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de barragens no rio Ribeira. Em raz\u00e3o disso, eles consideram mais adequado evitar a discuss\u00e3o e n\u00e3o problematizar a tem\u00e1tica\u201d, explica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao invisibilizar esses assuntos, Lis\u00e2ngela acredita que a escola est\u00e1 contribuindo para que os alunos oriundos de comunidades tradicionais continuem sendo v\u00edtimas de discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e racial na medida em que s\u00e3o vistos como atrasados diante da l\u00f3gica capitalista. \u201cAo desconsiderar os alunos como sujeitos, estamos contribuindo para que seus valores culturais sejam invisibilizados ou marginalizados na escola\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>A cientista social, que iniciou essa pesquisa se perguntando sobre o combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o no Vale do Ribeira, espera que os alunos da regi\u00e3o tamb\u00e9m tenham espa\u00e7o para fazer questionamentos. Em sua vis\u00e3o, eles podem come\u00e7ar com perguntas b\u00e1sicas e profundas, como: \u201cQuem sou eu?\u201d, \u201cOnde vivo?\u201d e \u201cQual a minha hist\u00f3ria?\u201d.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[16],"edicao":[35],"class_list":["post-1907","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-reportagem","edicao-edicao-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/1907","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1907"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/1907\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3400,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/1907\/revisions\/3400"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1907"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1907"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1907"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}