{"id":1895,"date":"2022-09-06T10:29:21","date_gmt":"2022-09-06T13:29:21","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=1895"},"modified":"2023-09-18T09:57:27","modified_gmt":"2023-09-18T12:57:27","slug":"em-debate-o-mito-da-cleopatra-branca-e-de-olhos-azuis","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/em-debate-o-mito-da-cleopatra-branca-e-de-olhos-azuis\/","title":{"rendered":"Em debate, o mito da Cle\u00f3patra \u2018branca e de olhos azuis\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Maria Laura Saraiva<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Divulgacao-cleopatra-hollywood.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"767\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Divulgacao-cleopatra-hollywood-767x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2054\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Divulgacao-cleopatra-hollywood-767x1024.jpeg 767w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Divulgacao-cleopatra-hollywood-225x300.jpeg 225w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Divulgacao-cleopatra-hollywood-768x1025.jpeg 768w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Divulgacao-cleopatra-hollywood.jpeg 999w\" sizes=\"(max-width: 767px) 100vw, 767px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 1963, na produ\u00e7\u00e3o hollywoodiana <em>Cle\u00f3patra<\/em>, Elizabeth Taylor imortalizava o que, depois, se consolidaria como imagin\u00e1rio coletivo a respeito da apar\u00eancia f\u00edsica dessa personagem hist\u00f3rica. De pele branca, olhos claros e tra\u00e7os europeus, a atriz se constituiu como refer\u00eancia \u00e0 beleza da governante eg\u00edpcia mais famosa da hist\u00f3ria. Mas, apesar disso, os arquivos hist\u00f3ricos n\u00e3o parecem confirmar tal constru\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que apontam a ascend\u00eancia mista e parcialmente africana da rainha. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi apenas a popularidade do filme de Joseph L. Mankiewicz que contribuiu para a associa\u00e7\u00e3o de Cle\u00f3patra a uma mulher branca. No contexto brasileiro, esse fen\u00f4meno integra a tentativa de branqueamento populacional e cultural levada adiante desde o per\u00edodo colonial, segundo descrito pelo pesquisador Petr\u00f4nio Jos\u00e9 Domingues. <\/p>\n\n\n\n<p>Para o autor, a elite brasileira utilizou da imigra\u00e7\u00e3o europeia e do decl\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o negra ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o (1888) para promover um culto \u00e0 ocidentaliza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fonte-Wikimedia-Commons.jpg\"><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"768\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fonte-Wikimedia-Commons.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2055\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fonte-Wikimedia-Commons.jpg 800w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fonte-Wikimedia-Commons-300x288.jpg 300w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fonte-Wikimedia-Commons-768x737.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>Sob esse cen\u00e1rio, as professoras Teresa Maciel e Sheila Perina de Souza, da Escola Vera Cruz, propuseram um debate a respeito da preval\u00eancia do eurocentrismo na matriz curricular tradicional. Sheila, autora do artigo\u00a0<a href=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/instituto\/revistaveras\/index.php\/revistaveras\/article\/view\/498\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cA ideologia de branqueamento nas imagens do Antigo Egito: contribui\u00e7\u00f5es para pr\u00e1ticas de ensino nos anos iniciais\u201d<\/a>, publicado originalmente na revista Veras, destaca o papel coadjuvante atribu\u00eddo \u00e0 hist\u00f3ria africana na discuss\u00e3o escolar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSendo negros frequentemente associados a aspectos depreciativos, o Egito, tido como uma das mais fant\u00e1sticas e exuberantes sociedades antigas, tem a sua africanidade negada pela Europa, e tamb\u00e9m pelo Brasil \u2013 inclusive nas pr\u00e1ticas escolares\u201d, afirma. <\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o imagin\u00e1rio de uma Cle\u00f3patra branca, muito mais do que um mero capricho cinematogr\u00e1fico, se consolida como um discurso que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, legitima a hegemonia europeia em detrimento de uma hist\u00f3ria africana que vai muito al\u00e9m de um continente escravo. <\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m integra a discuss\u00e3o o fato da governante possuir ascend\u00eancia miscigenada grego-eg\u00edpcia, o que, por sua vez, faria com que ela apresentasse caracter\u00edsticas h\u00edbridas entre as etnias. Apesar disso, segundo a professora, h\u00e1 uma persist\u00eancia na branquitude de Cle\u00f3patra que ultrapassa provas e dados hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA escolariza\u00e7\u00e3o brasileira, desde os seus prim\u00f3rdios, segue se fundamentando na perspectiva euroc\u00eantrica. O ensino das sociedades africanas, anterior \u00e0 escraviza\u00e7\u00e3o, ainda \u00e9 um desafio nas escolas, principalmente para as crian\u00e7as pequenas. Apesar do Egito Antigo ser uma pauta frequente, sua africanidade costuma ser omitida\u201d, ressalta a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A discuss\u00e3o do tema em sala de aula <\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O tema foi abordado em sala de aula por Sheila e Teresa com a turma do 2<sup><span style=\"text-decoration: underline;\">o<\/span><\/sup> ano do Ensino Fundamental do Vera. A interven\u00e7\u00e3o, desenvolvida com base em pesquisas e trabalhos cient\u00edficos, teve como objetivo contrapor as representa\u00e7\u00f5es tradicionais que, em muitos casos, haviam chegado aos alunos atrav\u00e9s da m\u00eddia e de outros meios culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme relata Sheila, os alunos, em sua maioria, j\u00e1 apresentavam percep\u00e7\u00f5es afetadas pelo processo do branqueamento. \u201cVimos que a fala da crian\u00e7as sobre os eg\u00edpcios era bastante influenciada pelo discurso midi\u00e1tico que branqueia os antigos eg\u00edpcios. Elas contaram que, nos filmes que assistiram, eles eram representados como brancos\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Para desmistificar a representa\u00e7\u00e3o europeia da rainha e apresentar as teorias envolvendo sua etnia, a professora compartilhou com a turma uma moeda esculpida com o rosto da governante h\u00e1 mais de dois mil anos, bem como uma reconstru\u00e7\u00e3o das fei\u00e7\u00f5es de Cle\u00f3patra desenvolvida pela pesquisadora Sally-Ann Ashton, da Universidade de Cambridge. <\/p>\n\n\n\n<p>Como conta Sheila, a rea\u00e7\u00e3o dos alunos foi de surpresa. A pesquisadora ressalta que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conhecer o Brasil sem compreender a hist\u00f3ria da \u00c1frica. \u201cUma educa\u00e7\u00e3o que inclua a hist\u00f3ria do continente, desde a mais tenra idade, \u00e9 pe\u00e7a fundamental para o combate ao racismo aqui no pa\u00eds\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[16],"edicao":[35],"class_list":["post-1895","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-reportagem","edicao-edicao-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/1895","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1895"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/1895\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3401,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/1895\/revisions\/3401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1895"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}