{"id":1855,"date":"2022-09-06T09:20:45","date_gmt":"2022-09-06T12:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/?post_type=capitulos&#038;p=1855"},"modified":"2023-09-18T09:41:01","modified_gmt":"2023-09-18T12:41:01","slug":"empreendedorismo-social-negro-as-trajetorias-e-o-papel-da-escola","status":"publish","type":"capitulos","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/capitulos\/empreendedorismo-social-negro-as-trajetorias-e-o-papel-da-escola\/","title":{"rendered":"Empreendedorismo social negro: as trajet\u00f3rias e o papel da escola"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Beatriz Calais, Gabriela Del Carmen e Maria Laura Saraiva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O que alguns chamam de sucesso e criatividade, para outros, \u00e9 s\u00edmbolo de resist\u00eancia, necessidade e empoderamento. Afinal, empreender nem sempre significa criar um neg\u00f3cio visando o lucro ou um retorno financeiro. Quando se fala de empreendedorismo social, o grande objetivo \u00e9 impactar comunidades de forma positiva, colocando o combate \u00e0s desigualdades e a inclus\u00e3o social no centro da discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO empreendedorismo social tem um papel muito importante na jornada de enfrentamento das desigualdades e no combate ao racismo, pois estimula o desenvolvimento econ\u00f4mico e a autonomia de pessoas que historicamente foram discriminadas\u201d, afirma Paulo Rogerio Nunes, publicit\u00e1rio e cofundador da Vale do Dend\u00ea, aceleradora de impacto social com sede em Salvador (BA). Sua import\u00e2ncia, segundo ele, est\u00e1 muito al\u00e9m da gera\u00e7\u00e3o de renda. \u201c\u00c9 desafiar a narrativa de que pessoas negras e perif\u00e9ricas s\u00e3o apenas um objeto, permitindo que elas sejam o sujeito de seu pr\u00f3prio destino.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Tony Marlon, educador e comunicador popular, o empreendedorismo social segue o mesmo conceito exposto por Paulo: mais do que um campo de a\u00e7\u00e3o, trata-se de uma vis\u00e3o de mundo que faz emergir novas estruturas, processos, servi\u00e7os e produtos que sejam radicalmente antirracistas. \u201cO chamado empreendedorismo social precisa ser o ber\u00e7o desse futuro que acolhe a todas e todos de maneira igual\u201d, destaca, deixando claro que essa luta precisa ser legitimada pela sociedade como um todo. \u201cEste tamb\u00e9m \u00e9 um chamado para as pessoas brancas que querem deixar um mundo melhor aos seus filhos e filhas. N\u00e3o existe um mundo melhor se ele for melhor s\u00f3 para alguns de n\u00f3s.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Como educador \u00e0 frente da Escola de Not\u00edcias \u2013 uma iniciativa social do Campo Limpo, zona sul de S\u00e3o Paulo, que usa as tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o para o acesso e a amplia\u00e7\u00e3o de direitos sociais, culturais e econ\u00f4micos da juventude \u2013, Tony faz quest\u00e3o de ressaltar a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o antirracista no combate \u00e0s desigualdades e no empoderamento para a comunidade negra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando era estudante, fui levado \u00e0 diretoria porque estava de p\u00e9 na sala de aula. L\u00e1, a diretora queria que eu assinasse uma advert\u00eancia. Eu me recusei e ela me chamou de laranja podre. Disse que era por conta de pessoas iguais a mim que a escola estava como estava. Eu n\u00e3o fiz nada, s\u00f3 estava de p\u00e9 apontando o meu l\u00e1pis. Aquilo me marcou profundamente. Foi uma dor muito grande na \u00e9poca\u201d, recorda. \u201cQuando eu comecei a sonhar com um projeto que ensinasse comunica\u00e7\u00e3o, eu quis chamar de Escola de Not\u00edcias para ressignificar a palavra. Eu queria fazer as pazes com a palavra escola e provar para o mundo que o lugar onde eu gostaria de ter estudado poderia existir.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De certa forma, a hist\u00f3ria de Tony \u00e9 a de um trauma que, ao ser devidamente elaborado, possibilitou novos horizontes. Mas esse \u00e9 um processo custoso e cujo desfecho n\u00e3o costuma ser o mesmo para tantas outras pessoas. Se as escolas querem construir pessoas empoderadas, confiantes e resistentes, \u00e9 preciso, antes de tudo, oferecer um ambiente que propicie essa forma\u00e7\u00e3o. \u201cPor isso nosso lema era: queremos construir a escola em que gostar\u00edamos de ter estudado para formar a gera\u00e7\u00e3o de comunicadoras que a gente merece ter. Deu certo\u201d, revela. Se o objetivo \u00e9 formar uma sociedade antirracista, a forma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m precisa ser estimulada dentro das escolas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O poder da representatividade<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Pare por um instante e pense em grandes empreendedores. Personalidades que entraram para a hist\u00f3ria com seus neg\u00f3cios revolucion\u00e1rios. Possivelmente, nomes como Bill Gates, Mark Zuckerberg, Steve Jobs e Walt Disney apareceram na sua lista. No Brasil, figuras como Silvio Santos, Roberto Marinho, Ab\u00edlio Diniz e Luiza Helena Trajano costumam aparecer como refer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de simples, esse exerc\u00edcio revela algo importante para a nossa reflex\u00e3o. \u201cQuando a gente fala em empreendedores de sucesso, normalmente n\u00e3o vem \u00e0 mente uma pessoa negra\u201d, observa Paulo Rog\u00e9rio. Reflexos do racismo estrutural, das desigualdades que prevalecem na sociedade, do baixo investimento em empresas fundadas por pessoas negras e da car\u00eancia de apoio na administra\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios s\u00e3o alguns dos entraves para esses neg\u00f3cios prosperarem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO sucesso de empreendedores negros e perif\u00e9ricos \u00e9 fundamental para inspirar as crian\u00e7as que ser\u00e3o os futuros empreendedores\u201d, afirma Paulo. Embora as refer\u00eancias sejam poucas, ele reconhece que o pa\u00eds vive um momento de mudan\u00e7a, com o surgimento de jovens-adultos empreendedores que servir\u00e3o de modelo para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. \u201cPrecisamos de representatividade em todas as \u00e1reas para inspirar as crian\u00e7as, principalmente as ind\u00edgenas e afrodescendentes, a entenderem que podem chegar aonde quiserem e buscar novos caminhos\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Tony, tamb\u00e9m \u00e9 importante que o conceito de &#8220;sucesso&#8221; seja repensado. \u201cAcho importante que consigamos construir cada vez mais refer\u00eancias de sucesso para quem mora nas periferias e favelas, mas n\u00e3o aquele sucesso solit\u00e1rio, meritocr\u00e1tico e&nbsp;individualista que a sociedade vende\u201d, opina. \u201cEu acho muito engra\u00e7ado como algu\u00e9m se considera realmente fant\u00e1stico sem pensar na interdepend\u00eancia. Sem pensar em como ele precisa da pessoa que vende o p\u00e3o e o caf\u00e9 para ele no mercado. Tem gente que acredita, realmente, que todo o seu sucesso depende apenas de si mesmo. Sozinho, a gente nem existe.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:60px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uni\u00e3o feminina<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>As mulheres negras sabem bem o que \u00e9 isso. O movimento do tipo \u201cuma puxa a outra\u201d est\u00e1 na raiz do empreendedorismo feminino brasileiro, j\u00e1 que, para chegar l\u00e1, elas precisam enfrentar ainda mais obst\u00e1culos do que seus pares do g\u00eanero masculino.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo uma pesquisa promovida pelo Sebrae, em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV), o n\u00famero de empres\u00e1rias negras que tiveram empr\u00e9stimos negados \u00e9 50% maior do que entre as brancas. Al\u00e9m disso, em 2021, a renda m\u00e9dia das negras foi de 1.471 reais \u2013 valor 57% menor do que o recebido por homens brancos, 42% inferior ao de mulheres brancas e 14% abaixo dos homens negros, de acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso, estar \u00e0 frente de um neg\u00f3cio social seja ainda mais simb\u00f3lico para elas. \u201cAtuar em rede foi fundamental para a minha trajet\u00f3ria, tive muitas mulheres que me apoiaram ao longo deste tempo\u201d, comenta Adriana Barbosa, fundadora e CEO da Feira Preta, maior festival voltado ao empreendedorismo negro da Am\u00e9rica Latina, com sede em S\u00e3o Paulo (SP).<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o da executiva, o investimento nas mulheres de regi\u00f5es perif\u00e9ricas traz benef\u00edcios para toda sociedade, embora as integrantes das classes C, D e E sejam as mais impactadas. \u201cBoa parte dos neg\u00f3cios que est\u00e3o alocados nas comunidades fazem a economia circular dentro desses territ\u00f3rios\u201d, destaca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Adriana reconhece que a presen\u00e7a de lideran\u00e7as femininas negras pode fortalecer a autoestima e o desenvolvimento pessoal de jovens que est\u00e3o dando seus primeiros passos rumo ao futuro profissional. De acordo com ela, esse espelho serve como um incentivo ao autoconhecimento e, mais tarde, ao surgimento de outras empreendedoras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para a CEO da Feira Preta, o objetivo do empreendedorismo social \u00e9 acelerar o desenvolvimento do pa\u00eds ao dar voz \u00e0s popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas. \u201cO que seria de n\u00f3s se ainda hoje n\u00e3o tiv\u00e9ssemos um ecossistema de organiza\u00e7\u00f5es olhando especificamente para o recorte racial?\u201d, questiona.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva, as escolas ganham destaque como ferramenta de aux\u00edlio nessa luta. \u201cA educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio fundamental, tanto para se manter como empreendedor como para alavancar os outros grupos\u201d, conclui Adriana.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","tags":[16],"edicao":[35],"class_list":["post-1855","capitulos","type-capitulos","status-publish","hentry","tag-reportagem","edicao-edicao-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/1855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulos"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1855"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/1855\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3381,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/capitulos\/1855\/revisions\/3381"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1855"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/zumzum\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}