Leila Guerriero: “A vida entra no texto pelos detalhes”

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Nos dias 1º e 2 de agosto, a pós-graduação Formação de Escritores promoveu a oficina “A construção do texto de não ficção literária”, com a jornalista e escritora argentina Leila Guerriero.

 

Um dos grandes nomes do jornalismo narrativo na América Latina, Leila veio ao Brasil para a 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participou de uma mesa com o escritor francês Patrick Deville. Membro do corpo docente da pós Formação de Escritores e uma das participantes da oficina, Joselia Aguiar, curadora da Flip 2017, conta que descobriu a autora quando iniciou as aulas de não ficção no Instituto: “A obra dela chamou muito minha atenção e eu sabia que ela ministrava essa oficina, que é bastante concorrida. Fizemos o convite e conseguimos realizá-la aqui no Instituto. Uma profissional admirável e com um conteúdo riquíssimo”.

 

Durante os dois dias de oficina, Leila abordou os momentos mais importantes para a construção de um texto de não ficção. Autora de trabalhos publicados em veículos como La Nación, Rolling Stone, El País, Vanity Fair, Granta, Lettre Internationale e L´Internazionale, a jornalista falou sobre a importância da escuta, apuração e seleção das informações. “A forma, no entanto, nunca pode estar mais interessante que a história. A história é a rainha da não ficção. Uma atmosfera tem que ser criada à medida que o texto está sendo escrito”, frisou. Para ela, todos os elementos presentes em um texto têm que estar nele pelo sentido narrativo e não pela beleza.

 

A partir da leitura de obras de sua autoria, como o livro Uma história simples (Bertrand Brasil, 2017) e dos textos “El gigante que quiso ser grande”, “La voz de los huesos”, “La dama del tango”, dentre outros, Leila analisou, com os participantes da oficina, os recursos de um texto narrativo, o que se pode ou não fazer em textos dessa natureza e a apresentação dos personagens. “Coisas básicas”, na definição da jornalista, dos principais momentos para a construção de um texto: a reportagem, seleção das informações, sofisticação do uso da linguagem, e criação do tom e da atmosfera para se contar uma história. “A composição de um texto depende do tamanho da paciência, ambição e perseverança do jornalista. Escutamos e nos doamos como profissionais para sermos o melhor veículo para aquela história. Dentre todos os homens da terra, por que eu vou escrever um texto sobre determinado personagem?”, indagou.

 

 

Descrição com detalhes

Leila se define como alguém que gosta de trabalhar com os “escombros da notícia, com as sobras”. “Um jornalista tradicional descarta certos diálogos, mas, para mim, são eles que carregam mais sentido, são mais ricos”. Para ela, se queremos elucidar a história de um grande personagem, é preciso mostrar como esse talento foi se construindo. “Qual a trajetória por trás da grande bailarina na qual se transformou María Nieves? Que passado do gigante Jorge González produz o presente que ele viveu? Para quem eu vou contar? Por que lhe interessaria ler tudo isso? A vida entra no texto pelos detalhes”. Segundo Leila, em muitos momentos, há uma confusão em pensar o jornalismo literário como o escrever bonito e nada mais, quando, na verdade, o que o jornalista precisa transmitir é um conteúdo, contar uma realidade.

 

Questionada se teria alguma dica aos que querem ingressar no mundo da não ficção, Leila responde, sorrindo, que não dá dicas: “Pode ser interpretado como um ato de modéstia”, explica.

 

Para a escritora, cada um tem que desenvolver um método próprio e único, encontrar a sua maneira de escrever. “O único conselho que eu creio que se pode dar é que se leia muito. Um jornalista que não lê, que não lê de tudo – ficção, não ficção, poesia etc. –, que não vai ao cinema, que não sabe nada de fotografia e artes plásticas é um jornalista muito limitado, sem cultura geral”, salienta. E acrescenta: “Os jornalistas mais interessantes são quase eruditos, gente que sabe muito de muitas coisas – de história, política, sociologia. Para se alcançar a profundidade em um texto, há de se conseguir ser uma pessoa com muitas outras dentro de si, e isso não se alcança lendo apenas o jornal”.