Crônica de vários olhares

Michaela Maresca

Vamos de esquerda a direita. A primeira, Luciana, ela tem 13 anos, igual do que eu. Ela estuda na escola pública, por sorte para ela a escola fica muito perto da sua casa, só dois quarteirões. Perto né? Sim, muito. Graças a isso ela vai caminhando desde que tinha 6 anos quando começou.

A seguinte Carol, na verdade se chama Carolina, seu pai é artista, sua mãe advogada. Ela conhece a Luciana desde os 6 anos e são intimas amigas, sempre juntas, não importa onde estão, estão juntas, na escola tentaram que elas fiquem separadas, e sabe o que aconteceu? Não funcionou, a qualidade do trabalho delas duas caiu, piorou o rendimento no estudo e na aula. Depois de uma queixa dos pais à escola, a escola decidiu por elas juntas de novo, e elas começaram a melhorar.

A seguinte se chama Larissa, ela é a melhor amiga de toda a aula, tem gente que fala que é a melhor amiga de todas as aulas de toda a escola. Eu acho que não. Para mim a mais amada da escola toda é Amanda que é a seguinte na foto. Amanda tem o sorriso mais bonito que já vi na minha vida. Se você está feliz, seu sorriso faz você mais feliz ainda, se você está triste, só com um sorriso Amanda te faz sentir melhor. Mas o mais belo dela não é o sorriso, são os olhos cor mel. Ela consegue fazer com que os olhos sorriam, e Amanda consegue também isso. Não sei como faz, mas ela gera isso nos demais, calma e alegria. Do lado da Amanda estão Cristiane e Luisa, elas duas se odeiam muito, e sempre foi impossível ver elas juntas. Nesta foto conseguimos o impossível, que elas duas estejam juntas, pelo menos, fisicamente. Antes desta foto nunca tinham ficado juntas assim. Depois desta foto tudo continuou igual. Não se aguentam, não se suportam, e querem estar bem longe uma da outra. Nunca entendi porque elas são assim, são duas irmãs que nunca podem se juntar. Mas o impossível não existe para ninguém e Amanda conseguiu que elas fiquem juntas pelo menos um minuto. O que fez Amanda? Não vou contar a vocês, é meu segredo, mas ela fez um milagre só com uma frase, e obvio com seu sorriso e seus olhos. Que olhos meu Deus.

 

Ninguém na sala gostava da Idade Media, na verdade ninguém gostava de história. Amanda também não gostava, mas seu olhar era tão mágico que os professores achavam que ela gostava. Na verdade tudo mundo achava que Amanda gostava deles. Mas a idéia de ir a Museu não foi de Amanda, foi de Luisa. Lembro quando a Luisa levantou a mão e o professor concedeu a palavra a Luiza. Só por fazer isso Cristiane a odiava, suspirou e olhou para o teto em busca de socorro. Luisa escutou e sentiu essa mensagem, mas não se magoou e começou a falar sobre a importância de além de ler, ve-la. Contou que tinha ido ao museu do Prado a ver arte com seu avô e que começou a entender melhor algumas coisas da Idade Media. O professor se empolgou e falou para toda a classe que ia a pedir permissão na escola para levar todo mundo ao museu. Todos gritaram de alegria, vocês sabem, sair da escola para nos é festa, mesmo se vamos a um museu. E chegou o dia que visitamos o museu. Nós esperamos e ficamos lá algumas horas caminhando, escutando ao professor contar novamente a Idade Media. Na verdade  Luisa tinha razão, deu para entender muito melhor olhando-a. Dava para entender claramente que os reis, príncipes, princesas e a Igreja dominavam o mundo, principalmente porque não existe nenhuma arte que mostre ao povo pobre. Quem tinha dinheiro para fazer uma arte eram os ricos, é por isso que eles se tornaram visíveis e imortais na arte. Os pobres, como sempre, continuam invisíveis ate o dia de hoje.

Quem tirou a foto fui eu. Meu nome é Carol e adoro tirar fotos. Se vocês observarem a foto podem entender claramente o que quis retratar. Quando mostrei a foto para minha família meus pais ficaram surpresos e falaram da pena que dava olhar essa foto. Eu perguntei porque sentiam isso. Eles me responderam que dava para ver que a minha geração não estava nem ai com a arte. Eu perguntei por quê. Eles me falaram, olha a suas amigas, todas no telefone olhando a Whatsapp. Eu não quis discutir com eles e deixei-os pensarem isso, é como que já existe um julgamento contra a nossa geração, se temos o celular na mão todo o dia significa que estamos perdendo tempo ao invés de estar vivendo sem ele. Nossas vidas começaram com tecnologia de perto, a deles não. Somos diferentes e vivemos épocas diferentes. É uma discussão perdida para mim e para eles. E seguramente aconteça algo assim com meus filhos. Eu vou querer ensinar a eles como o mundo funciona desde a minha visão e não a deles.

 

Eu tirei a foto e eu sei o que queria mostrar. Olhem. Onde esta o foco? Na arte e não nas minhas amigas. Mas todo mundo quer achar que o foco esta nas minhas amigas e que elas estão usando o Whatsapp completamente desinteressadas no maravilhoso desenho do grande de Velazquez. E para você, que esta lendo agora, vou contar um segredo, um que ninguém ate hoje sabe. Sabe o que minhas amigas estão fazendo? Elas estão estudando sobre a obra de Velazquez, e não porque era obrigatório e sim porque ficamos todos super interessados na técnica dele, as pinturas parecem fotos mas foram feitas a mão. A história de Velazquez nos ensinou ainda mais sobre a Idade Media e como os artistas trabalhavam para Igrejas ou senhores feudais. Aprendemos que arte nos ensina e nos mostra como era uma época, quais eram seus interesses, e seus sonhos. Antes de Velazquez só se mostrava a Deus nas artes, na época dele começamos a ver a Deus, mas também aos homens. A importância do homem foi crescendo com o passar dos anos até chegar a ficar nas telas dos artistas como centro de suas cenas. E hoje? O que está mostrando a arte? Nada de Deus, pouco do homem e muito de manchas sem sentido. O que significa isso? Deixo a vocês pensando nisso.

q

Oitavo Ano

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *