Caixinha de Segredos

 

♦ Gabriela Pires Citino

 

Eu não sei vocês, mas na minha visão, certas coisas não funcionam sem as outras, e isso vai das coisas mais simples até as mais complexas. Pensando na cultura brasileira, é uma espécie de anormalidade comer arroz sem feijão, já que um complementa o outro. A mesma coisa acontece em relação ao nosso organismo. Por exemplo, já não é de hoje que ouvimos dizer que o ser humano é uma das espécies mais maravilhosas da natureza, mas o que seria de nós sem o cérebro? A resposta é óbvia: sem essa estranha e curiosa massa cinzenta que fica guardada dentro de nossos crânios, não seríamos nada. Aliás, sem um cérebro, a reflexão que será trazida nessa crônica não poderia nem ter sido feita, da mesma forma que esse texto não estaria sendo escrito.

Nessa tarde chuvosa de domingo fui surpreendida com um vídeo de aproximadamente 18 minutos em meu Facebook, no qual uma neurologista dava depoimentos sobre seu próprio AVC, (o que foi um tanto quanto irônico, já que, nesse momento, a mesma estudava sobre distúrbios cerebrais, quando acabou sofrendo um). É claro que não consegui assistir atentamente ao vídeo inteiro, mas não porque sou distraída e, sim, porque algumas reflexões sobre cérebros começaram a invadir o meu.

Fiquei imaginando então como seria cursar neurologia, especificamente, participar de uma das “aulas práticas” nas quais os alunos tem a experiência de mexer com um cérebro humano.

Como fazem isso tranquilamente? Dentro do cérebro estão armazenadas todas as vivências, movimentos e pensamentos de quem o possui. Então, de quem seria o cérebro no qual os alunos estão tocando? Quais experiências, boas ou ruins, teriam marcado a vida dessa pessoa? Qual seria o seu nome? Por acaso seria Margarete? Teria conhecido alguma Margarete? Era homem ou mulher? Seria ela filha de um banqueiro rico ou de um carpinteiro? Será que seus pais moravam juntos ou eram separados? Será que a relação dos dois era boa, ou viviam brigando constantemente, de forma que o proprietário do cérebro em questão ficasse assustado ou chateado, indo chorar escondido em seu quarto? Teria sequer chorado escondido em seu quarto quando teve o coração partido pela primeira vez? Ou teria corrido para os braços da mãe? Quem teria partido seu coração pela primeira vez? Será que o nome do autor de tal crime permanecia guardado em algum lugar daquele cérebro?

É incômodo e, ao mesmo tempo, fascinante pensar que dentro de um cérebro cabem memórias de uma vida inteira, nas quais apenas o proprietário tem total e livre acesso, podendo selecionar as vivências que serão compartilhadas com outras pessoas.

Como uma magnifica caixinha de segredos.

Oitavo Ano

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