PSICOLOGIA NA ESCOLA

♦ Fernanda Tito Costa Pereira e Valentina Gregori Yusta

Marília Freitas Pereira tem 70 anos e trabalha na área de psicologia há 45 anos. Tem quatro filhos e teve seu mais novo quando tinha acabado de se formar e iniciava seu primeiro trabalho. Começou sua vida profissional atendendo crianças em psicoterapia. Sua primeira especialização foi em psicanálise. O atendimento com crianças levou-a a estudar as relações familiares, possibilitando trabalhar com famílias, casais e grupos. Ela tem um consultório e dá cursos e palestras.

VeraCidade: Você trabalha nessa área há muitos anos. Existem muitos casos relacionados ao aprendizado. Quais deles são mais decorrentes?

Marília Freitas: A questão de aprendizagem tem tudo a ver com o estado psíquico da pessoa que está num processo de aprendizagem. Os distúrbios emocionais e psicológicos, interferem no processo de aprendizagem de uma pessoa, então a escola tem que estar atenta e ajudar o desenvolvimento psicológico da criança, e buscar uma boa relação com a família, em virtude deles serem os dois principais contextos onde a criança vive. Cuidar das relações da família com a escola, das relações da criança com professores e colegas são importantes para o processo de aprendizagem.

VC: Ao longo desse tempo você atendeu à uma grande variedade de casos relacionados à adolescência. Quais   deles foram mais difíceis de serem tratados?

MF: Não sei se tem casos mais difíceis de serem tratados, tem uma questão que é a seguinte: Qualquer adolescente que iniciar um processo terapêutico precisa se envolver e para isso ele precisa reconhecer que está vivendo situações difíceis e que ele precisa de ajuda. A grande questão sempre em um processo terapêutico é a pessoa vir e dizer, eu preciso de ajuda, o que torna o processo mais fácil, porque ela está se responsabilizando. Quando a pessoa vem e diz que o problema é o pai, a escola, o amigo, é muito mais difícil o processo terapêutico dele, porque ele não está se responsabilizando nem reconhecendo que se encontra em uma situação difícil, não que ás vezes o problema não seja com o pai, com a escola, etc…. Mas ele tem que reconhecer que ele não sabe lidar com aquilo que está acontecendo na relação com o pai, escola, etc….

VC: Sabemos que você atende à muitos casos diferentes. Como você lida, quando se trata de problemas que envolvem o desenvolvimento e aprendizagem do aluno? E, de que forma isso envolve a escola também?

MF: Quando o paciente é criança ou adolescente, quem vem me procurar são os pais. Quando me procuram porque a escola me encaminha, provavelmente é porque precisaram de uma ajuda extra de uma psicóloga. Então eu sempre tenho contato com a escola, porque para mim é muito importante que a escola também se responsabilize pelo lado dela, o que ela faz, como ela participa disso e etc….  nessa conversa com a Orientadora ou professora, teremos que buscar novos caminhos para lidar com aquela criança, porque a crença é que os problemas existem nas relações e não dentro da pessoa, então a gente tem que cuidar dessas relações.

VC: Você tem um consultório e atende pessoas de diversas faixa etárias. Qual é a Idade que mais aparece nas suas consultas?

MF: Atualmente, pela minha especialidade em terapia de família, o que eu mais atendo são famílias ou casais, de vez em quando atendo individualmente. Hoje, por exemplo, eu não atendo mais uma criança sozinha, eu posso fazer uma ou duas sessões com essa criança mas eu trabalho com ela na família. As vezes atendo adolescentes, quando ele me pede, quando ele quer algo pra ele sozinho. E as vezes se necessário eu vou na escola.

VC: Vimos que você atende à um público variado. Qual estratégia é utilizada por você?

MF: A principal estratégia de um psicólogo, do meu ponto de vista, é ouvir –  deixar o outro falar. E a partir do que ela fala e como esta fala me afeta é que eu vou conversar com esta pessoa. Se o que ela fala me faz sentir tristeza nós vamos conversar sobre isto.

VC: Sabemos que no seu consultório você trabalha com vários tipos de terapia: familiar, de casal, etc… Qual desses tipos você se sente mais confortável em lidar? Porque?

MF: Eu gosto de fazer terapias em família, mas também gosto muito de algumas individuais e de casais. Porque quando eu parei de fazer terapia individual com crianças para fazer de família, foi muito mais confortável pra mim e mais tranquilo, porque eu estou ajudando aquela família a se relacionar melhor e isso me deixa muito mais tranquila, porque você imagina uma criança de 7 anos que vai ficar 3 horas por semana comigo, sendo que eu não sou a pessoa mais importante na vida dela e nem com quem ela deve passar mais horas e sim com a família, pai, mãe, babá, escola etc…. Então as pessoas mais importantes são essas, e não eu, então eu sou mais importante em fazer com que essas relações familiares caminhem de um jeito mais positivo e que todo mundo possa viver melhor. Então eu gosto muito mais de fazer isto do que, pegar uma criança e trabalhar só com ela porque  ela iria voltar pra casa e o problema ainda estaria lá. Então isso é uma coisa que eu não gosto, eu não trabalho mais.

VC: Vimos que você, de certa forma, da subsídios para que as pessoas consigam resolver os seus problemas. Como é esse processo? Quanto tempo, em média, dura um tratamento?

MF: Essa é uma pergunta que todo paciente faz “Quanto tempo vai demorar”. Eu não sei a princípio quanto tempo vai durar. É interessante porque são modos diferentes de você entender como é um processo terapêutico. Um problema mais circunscrito demora uns três, quatro meses, mas o tempo varia de pessoa para pessoa, de problema para problema. Se o problema é mais grave o processo será mais longo, mas tem também pessoas que vem à terapia para conversar, desabafar, pra viver um processo terapêutico e s vezes ficam muitos anos. Porquê terapia, não é necessariamente ´cura“, o processo terapêutico do meu ponto de vista, é o processo para você ter um espaço para se reconhecer e refletir sobe suas emoções, seu comportamento, não é pra curar, no geral é pra você se auto conhecer.

VC: Você continua nessa carreira há muitos anos, ou seja, é algo que você realmente gosta e tem interesse. O que a motivou para engrenar nesta carreira?

MF: Essa é uma pergunta que nem no meu processo de analise eu descobri como fui parar na psicologia. Eu acho que eu sempre tive essa coisa de cuidar. É uma coisa interessante porque por exemplo eu sou uma pessoa que vai ao restaurante e de repente eu percebo que estou reparando em alguém que me chama a atenção, fico curiosa, ou seja, desde sempre eu tive essa coisa de observar a pessoa e querer saber o que esta acontecendo com ela, é uma forma minha de estar nas relações e no mundo. Então eu acho que isso é uma coisa importante. Ai um dia eu resolvi, não sei como que eu ia fazer faculdade de psicologia.

VC: A ética profissional, impede de você compartilhar os problemas de seus pacientes. No começo, como foi guardar pra você mesma um caso tão chocante presenciado numa consulta? Você não teve necessidade de compartilha-lo com outro profissional da área?

MF: Eu acho que nesse processo de formação é necessário que você compartilhe os casos com um profissional com mais experiência, você precisa disso. Isto é chamado de supervisão. A ética profissional não impede que eu conte o caso e minhas dificuldades ou duvidas a respeito, mas que eu proteja a pessoa, seu nome.

VC: Hoje em dia você dá palestras e cursos. Qual é o ´´cargo chefe“ de suas palestras? Qual é o perfil do público interessado?

MF: Em 1980 eu e um grupo de terapeutas fizemos o Instituto Familiae que oferecia cursos de formação em terapia de família e casal.  Por muitos anos, tivemos alunos que nos procuravam pra essa especialidade. Então quando eu ia falar em congressos ou outro lugar que eu era convidada, o tema era terapia de família e casal. Agora em 2014 nós fechamos o instituto e hoje em dia tenho falado menos. Eu não falo muito do intrapsíquico, o intrapsíquico existe mas ele se atualiza nas relações ele não sai sozinho. Durante os cursos eu não gosto de dar uma aula expositiva, eu gosto de construir uma aula com as pessoas que estão ali. Então se eu estou com os alunos eu quero saber, o que que o trouxe aqui, qual foi seu caminho pra chegar aqui, etc…. E a partir destas conversas eu dou um texto para a pessoa se preparar para a próxima aula, pergunto o que ela achou, que duvidas ela teve, dou atividades com lápis, canetas.

 VC: O termo ´´psico“, de origem grega, significa alma. Portanto, é possível afirmar que psicologia é a ciência que estuda o comportamento humana. Será que todos nos conhecemos todos os nossos lados? Tem como o individuo desenvolver esse auto conhecimento?

MF: Nunca, nem você, nem eu, nem ninguém, a gente esta sempre se conhecendo e se transformando, porque a cada relação você também se transforma. Tem varias formas do indivíduo desenvolver um auto conhecimento, a pessoa pode fazer, teatro, terapia, dança, apenas se perguntar o que esta acontecendo.

VC: Você acredita que todos nos deveríamos fazer algum tipo de terapia?

MF: Eu acho que cada pessoa deveria desenvolver esse processo de poder ter um momento pra si, se conhecer, saber porque aquelas coisas acontecem naquela forma, não necessariamente em uma terapia, as artes contribuem muito para isso para o processo de alto conhecimento. O importante é desenvolver a reflexão, o pensar sobre si nas relações.

VC: Por você trabalhar nessa área há muitos anos já deve ter tido casos bem curiosos. Será que  você pode nos contar, claro sem mencionar o sujeito, algum caso desse tipo?

MF: Tem vários casos que me marcaram muito mas teve um que eu fiquei desesperada e fui procurar um profissional da área. Eu atendia uma mãe e um menino, meu primeiro ou segundo caso, a mãe dizia que o menino não largava ela pra nada, que ela não podia ir ao banheiro, e essas coisas. E ai começou a terapia e o menino entrava junto da mãe, e eu brincava com ele, com brinquedos, e a mãe ficava lá. Ai chegou um dia, depois de umas quatro ou cinco sessões, cheguei na sala de espera e chamei eles e o menino veio correndo sozinho, e a mãe veio atrás. Aí eu não entendi, e a hora que eu entrei e sentei na minha cadeira da sala o menino pulou no meu colo e falou “minha querida” e me abraçou. Fizemos a sessão. No mesmo dia a tarde, a mãe teve um surto, começou a gritar e chorar na rua, foi internada e quando perguntaram seu nome ela disse Marília. Nesse dia eu quase pirei junto e pedi ajuda para meu supervisor. Teve muitos outros, como um que o menino, durante toda sessão me agredia e teve outro também que era uma menina, de quatro ou cinco anos, a menina era filha única e os pais eram separados, na primeira sessão veio a mãe e falou pra mim que a menina estava dando trabalho, que ela não estava obedecendo, dava trabalho pra ir tomar banho, dava trabalho pra comer, essas coisas de criança pequena. A mãe ia casar de novo, estava com namorado e a menina estava com muitos ciúmes desse namorado. Segunda sessão, veio a mãe e a filha, eu sempre falo com a criança, pra saber se ela sabe meu nome, sabe o que eu faço, dai eu falei pra ela “E você? Você tem alguma coisa que você queria me contar?”, ela pegou uma patinha de pano que ela tinha trazido, pegou, segurou na mão, e falou “Você esta vendo essa patinha? Ela me dá muito trabalho”, e tudo que a mãe tinha falado dela ela falou da patinha, a mãe foi arregalando o olho, e no final ela disse assim “Sabe mais? Eu ganhei um cachorrinho, e ela está morrendo de ciúmes”. Então essas coisas são muitos legais de viver.

Oitavo Ano

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