OCUPAÇÃO DAS ESCOLAS AOS OLHOS DE UMA ESTUDANTE

♦ Louis Kyrio Renouard e Anita Schwenck Nejme

N.D., com 15 anos de idade, do primeiro colegial, é estudante da Escola Estadual Virgília Rodrigues Alves de Carvalho Pinto e esteve presente nas ocupações do centro Paula Souza e na Diretoria de Ensino Centro Oeste (DEC), lutando por seus direitos de ser ouvida, junto aos seus colegas. Há algum tempo atrás, alunos de escolas públicas se depararam com a situação dificil que é a falta de merenda nas escolas e, mais tarde, o desvio da verba que seria destinada a compra dos alimentos.  Assim decidiram ocupar as escolas com o objetivo de mudar este cenário.

VeraCidade: Sabemos que as ocupações ocorreram em virtude da ausência da merenda escolar. O que vocês alunos pretendiam com a ocupação?

Ocupação em uma escola no Oeste de São Paulo
Ocupação em uma escola no Oeste de São Paulo

N.D.: A gente pretendia chamar a atenção da mídia e do governo, para conseguir mudar alguma coisa, porque não estava dando certo só fazer manifestações e ficar tentando falar, basicamente, com a Laura Laganá, quem comanda as ETECs e controla esse negócio das merendas, então nós ocupamos para chamar atenção.

V.C.: Desde quando vocês começaram a perceber a ausência da merenda?

N.D.: Então, na verdade sempre houve a ausência da emenda, mas a gente pensava que era normal, não sabíamos que tinha uma verba.

V.C.: A polícia esteve presente na ocupação. Qual foi a postura da polícia diante desta manifestação? Houve alguma situação de agressão física?

N.D.: Quando ocupamos elas não podem entrar, só que tiveram vezes que eles entraram sem mandado, quando eles entravam tinha agressão verbal e algumas vezes física.

V.C.: Tendo em mente que os principais envolvidos são adolescentes do colegial, você sabe nos dizer em média quantos adolescentes estavam presentes nas ocupações? E quais escolas estão envolvidas no ato?

N.D.: Em média devia ser 500 mil alunos e 300 escolas. Eu não sei todas as escolas de cor, mas eu sei que tinham umas 20 ETECs e umas 4 estaduais que ocuparam, além da diretoria de ensino Centro Paula Souza.

V.C.: As ocupações foram um grande ato que chamou a atenção dos políticos. Qual foi a posição e a reação do governo em relação ao que aconteceu?

N.D.: A gente sempre tentava dialogar com eles em ato só que eles nunca ouviam, a gente já foi na frente do centro Paula Souza, onde a diretora das ETECs que controla as merendas, Laura Laganá, para tentar conversar e ela nem parou para nos escutar, então a gente ocupou, eles ficaram desesperados porque queriam voltar a trabalhar. Então eles prometeram que ia ter merenda em agosto, agora se não tiver a gente vai ter que voltar para luta.

 V.C.: Havia algum partido politico envolvido, sendo a favor ou contra?

N.D.: Não, a organização dos secundaristas é a partir da área, não tem nenhum partido que controla e diz o que temos que fazer, tem partidos que apoiam sim, mas esses não nos representam.

V.C.: Nesse manifesto, eram alunos destas escolas que estavam lutando por seus direitos. Vocês estão sendo informados de cada descoberta que fazem sobre o roubo da merenda? O que você sabe a respeito?

N.D.: Sim, nós somos informados, porque na nossa organização tem advogados que nos que apoiam. Eles nos ajudam a saber o que esta acontecendo mais por dentro do governo, saber se a gente pode fazer algumas coisas e como funcionam as leis, para poder fazermos algo. Sobre o que está acontecendo agora, eu sei que abriu a CPI da merenda e está tendo muita perseguição dos estudantes.

V.C.: Mas agora falando sobre a ocupação internamente. Você que estava lá, como era a convivência nas escolas? Tinha algum tipo de organização lá dentro?

N.D.: A gente organizava as ocupações assim, tinha três assembleias por dia, nessas assembleias deliberávamos algumas coisas, também discutíamos quais eram os problemas que estavam tendo e o que devíamos fazer para melhorar. Era uma organização horizontal, ou seja, não tinha um líder, então nessas assembleias haviam votações para decidir as coisas, nós tínhamos regras e punições, como não podíamos usar nenhum tipo de droga lá dentro. Haviam comissões de alimentação, de limpeza, de segurança e de comunicação, cada comissão tinha uma função dentro do prédio, havia também regras que as comissões faziam, por exemplo a de segurança. Cuidavam de uma parte do prédio que não podiamos ultrapassar.

V.C.: Sabemos que existe um grupo de pessoas que foi contra as ocupações das escolas. Houve algum confronto violento entre este grupo e vocês que estavam ocupando?

N.D.: Tiveram varias ocupações e nelas houveram vários problemas diferentes, mas ao mesmo tempo semelhantes, nas ETECs, principalmente, houveram esses confrontos, pois as pessoas que estudavam a noite eram contra o ato e invadiam a ocupação para bater nos estudantes, ou por exemplo no Centro Paula Sousa, onde eu estava, alguns dias, tinham vizinhos que tacavam ovos lá dentro para tentar acertar os alunos.

V.C.: Alguns adolescentes foram levados pela policia para a delegacia. Qual foi o motivo? Em sua opinião, você acha que foi justo ou apenas um exagero? 

N.D.: O motivo real de o porque fomos a DP a gente não sabe, mas os policiais disseram que teve muito desacato a autoridade, houve uso de drogas dentro da ocupação e depredação do local, mas eu participei de uma das ocupações que houveram estudantes levados para a delegacia e essas acusações não aconteceram. Em todas as ocupações os estudantes deliberaram que se alguém usasse drogas ele seria expulso e foi o que aconteceu. Não podiamos depredar, e quando acontecia nós consertavamos com nosso próprio dinheiro ou, no caso de algo escrito, apagava, o maior desacato que houve foi nosso pedido que um policial não agredisse uma menina. Eu não acho que isso esteja certo, foi um exagero muito grande da PM.

 

V.C.: Ficamos sabendo que a prefeitura mandou um grupo de pessoas para conversar com os alunos nas escolas. Isso realmente aconteceu? O que foi discutido? Eles foram respeitosos?

N.D.: Sim, isso aconteceu durante a ocupação do Centro Paula Sousa e eles queriam fazer um acordo que era: se a gente desocupasse, eles iriam fazer uma reunião com alguns estudantes, no máximo 10, pra decidir a questão, mas nós somos uma organização horizontal, então não queríamos 10 estudantes representado três mil, queríamos uma assembleia aberta ou um debate onde pudesse ir quem quiser, além disso não tínhamos garantia que se desocupássemos íamos continuar a ter voz e eles não iam nos ignorar, também não sabíamos se realmente iria acontecer a reunião. Então recusamos a proposta.

 

V.C.: Em muitos casos a CPI não da nenhum resultado, agora que esta foi “liberada”, como você espera que façam para que as ocupações não deem em nada?

N.D.: Os estudantes organizam assembleias todas as semanas e essa foi uma das pautas, a gente estava conversando que a CPI pode não mudar muita coisa, porque as vezes eles não cooperam, discutimos que não podemos mostrar que agora estamos  tranquilos e tudo certo, vamos continuar pressionando. Não ocupando, mas fazendo atos, intervenções, estando presente nas reuniões onde eles vão falar, então queremos ter alguém de nós presente. Enfim, vamos continuar pressionando para voltar a ter merenda.

V.C.: Vocês se esforçaram muito para conseguir cumprir o objetivo da ocupação. Qual foi a sensação que vocês tiveram ao ganhar a causa?

N.D.: A nossa sensação, vou falar mais por mim, foi de alivio, conseguimos falar e ser ouvidos, é muito ruim a sensação de ninguém te escutar, é como se você tentasse alcançar algo, mas não conseguisse. Então quando conseguimos nós nos sentimos muito bem. Mas também tem uma questão psicológica muito grande, também temos sentimentos e sofremos pressão policial, agressão verbal e física, toda a pressão das ocupações, todos os dias. Fomos para escola e não tínhamos o que comer, então quando nos ouviram foi um grande passo e ficamos muito felizes, pelo menos por ter conseguido mostrar as pessoas nossa situação, agora precisamos conseguir mudar, mas só pelo que já aconteceu estamos bem felizes.

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