FASCINAÇÃO PELA DESCOBERTA

♦ Camila Abdallah Mônaco e Laura Otranto Galvão Bueno

Maria Sílvia Abrão, educadora na área de Ciências da Escola Vera Cruz, que descobriu sua paixão no mundo acadêmico depois de 8 anos trabalhando na universidade com pesquisas em diferentes laboratórios, “Decepcionei-me com a política universitária e quando passei a fazer um trabalho que ficava restrito ao laboratório passei a ficar entediada. ”. Pertencendo a uma família repleta de pessoas que têm profissões ligadas a área das ciências biológicas , Maria Sílvia, sempre soube que gostaria de seguir alguma profissão nesse meio. Nessa entrevista ela nos conta um pouco de sua carreira e como a biologia a influenciou como educadora. Vendo essa profissão como um meio reparar os erros cometidos por nós, humanos, conscientizando seus alunos.

VeraCidade: Sabemos que você é bióloga. Desde cedo você sabia que seguiria essa carreira?
Maria Sílvia Abrão:  Desde cedo eu soube que gostaria de seguir alguma profissão ligada à área das ciências biológicas. Acredito, que isso se deve ao fato de pertencer à uma família repleta de médicos, dentistas e cientistas naturais.

A medicina foi logo descartada por mim, fosse ela humana ou veterinária, pois eu sabia que teria dificuldades em ter uma vida sobre meus cuidados. Eu nunca me perdoaria se algum dos “meus pacientes” morressem nas minhas mãos, mesmo que eu não tivesse nada à fazer por ele.

Quando cursava ensino fundamental II, cheguei a pensar em fazer odontologia. Mas no final desse período, por volta do 9º ano,  uma grande amiga minha iniciou seus estudos em Ciências Biológicas na Unicamp e eu muitas vezes estudava com ela. Pronto, foi nesse momento que tive a certeza que gostaria de ser Bióloga.

VC: Ao se formar, você foi direto para o mundo acadêmico? O que levou a escolher essa profissão?

MSA: Durante todo o meu curso fiz estágio em diferentes departamentos da Universidade. Trabalhei com citogenética na Unesp, histologia e bioquímica ICbio –USP e por fim no departamento de fisiologia animal da USP. Fui bolsista da CAPS, CNPQ e FAPESP nos projetos de iniciação científica e mestrado.

Acredito que o que me levou a escolher essa profissão foi a fascinação que tenho pela descoberta, pela a investigação, aliada a uma facilidade grande de acesso a esse tipo de conhecimento advinda da minha família.

VC: Quando você ingressou nessa carreira, qual era o seu maior objetivo? Você conseguiu alcançá-lo? Quais estratégias utilizadas para isso?
MSA: Meu maior objetivo quando ingressei na carreira de Bióloga era ser pesquisadora, seguir a vida acadêmica, investigando, fazendo ciência. Para alcançá-lo desde o meu primeiro ano de faculdade, procurei fazer estágio, mesmo que de forma voluntária.

VC: Como bióloga você já deve ter feito várias pesquisas ao longo de sua carreira. Qual delas foi mais significativa?
MSA: A pesquisa mais significativa para a qual dediquei alguns anos de minha vida foi no estudo do mecanismo de ação de alguns hormônios, que atuam na mudança de cor em peixes. Esse é um trabalho bastante bioquímico que procurava identificar o que acontece dentro da célula após a ação de um hormônio conhecido como MCH (hormônio concentrador de melanina) e MSH (hormônio estimulador de melanina). Este trabalho fazia parte de um grupo grande de estudos. Eu era responsável pelos peixes ósseos e outros pesquisadores, no meu laboratório ou em outros laboratórios dentro e fora do país, estudavam a ação de hormônios, que produziam a mudança de cor em diferentes seres vivos. Tais estudos renderam dois trabalhos – PECULIAR ALPHA-ADRENOCEPTOS PROMOTE PIGMENT AGGREGATION IN THE TELEOST, SYMBRANCHUS MARMORATUS, MELANOPHORES publicado em  1991 na revista Comparative Biochemistry and Physiology Part C: Comparative Pharmacologu vol. 99 Issue 1-2 pages 147-151 & Protein-Kinase C Mediates MCH Signal Transduction in Teleost, Symbranchus marmoratus, Melanocites, publicado em 1991, na revista Pigment Cell & Melanoma Research 4:66-70.

VC: Como estudantes assumimos que devam ter pontos altos e baixos em uma profissão. O que você julgaria ser as maiores dificuldades? E como as superou?
MSA:
Ao longo dos 8 anos que fiquei na universidade, trabalhando com pesquisa em diferentes laboratórios, decepcionei-me com a política universitária e quando passei a fazer um trabalho que ficava restrito ao laboratório passei a ficar entediada. Nessa época, a mãe de uma colega minha de faculdade falava sempre que me levaria para conhecer a escola em que ela trabalhava, que gostaria que eu trabalhasse lá. Nessa época eu acreditava que não queria dar aulas, mas fui levada pela, então assessora de matemática da escola Vera Cruz, para conhecer o trabalho que era feito aqui. Foi aí que percebi que eu não queria ficar fechada em um laboratório, queria trabalhar com gente. Então, paralelamente ao trabalho no laboratório passei a trabalhar como monitora em uma empresa especializada em Estudos do Meio Ambiente, a mesma empresa que acompanha à Ilha do Cardoso até hoje, a APEL.

Depois, de algum tempo me tornei professora auxiliar da antiga 5ª série e depois de 6ª série, aqui na escola. Mas o mais curioso foi que me tornei professora de matemática. Como eu conhecia o material do Vera fui trabalhar na Escola Carandá que adotava esse Material. Trabalhei lá por 8 anos e retornei, como professora de Ciências no ano de 2003.

VC: Na sua opinião a sua profissão, de bióloga, contribuiu ou poderá contribuir para o mundo e para a sociedade de que forma?
MSA: A minha formação me proporcionou uma capacidade ampla de análise. Como tudo na biologia funciona como sistema, com diferentes partes extremamente relacionadas, nós biólogos aprendemos a pensar dessa forma. Observar e analisar diferentes situações sob várias óticas, pontos de vista.  Dessa forma muitas vezes conseguimos enxergar a solução de um problema. Acredito que o mundo está precisando de novas formas de organização social, formas alternativas de produção que garantam a manutenção dos recursos e a sobrevivência  do planeta. Assim, se eu conseguir formar alunos capazes de criar soluções diferentes para os problemas que têm se apresentado para humanidade, a partir de análise, acredito que eu e minha profissão estamos contribuindo com o mundo na construção de sociedade melhor.

VC: Pesquisamos e fizemos uma notícia sobre médicos que regeneraram olhos de crianças com cataratas usando células tronco. Tendo conhecimento sobre o corpo humano e esse meio, qual a sua opinião sobre essa ação?
MSA: Os avanços científicos e tecnológicos, quando bem utilizados por um cidadão ético, garantem uma vida digna, feliz a todos, a todas as formas de vida. A consciência, que nos permite fazer ciência, nos leva a refletir sobre nossas práticas. Analisando os erros e acertos cometidos pela humanidade podemos nos reconhecer como agentes transformadores da natureza, que modificam e constroem a nós mesmos. É a responsabilidade que temos conosco, com todos os homens e com todos os seres vivos, que determina uma ação é construtiva ou destrutiva. O caso, citado por vocês, é para mim o que justifica a necessidade dos estudos com células tronco. Só podemos parabenizar aos médicos, e todos os outros profissionais, que estiveram envolvidos no desenvolvimento dessa tecnologia, a qual possibilitou às 12 crianças “enxergar o mundo com os próprios olhos”.

VC: Atualmente, temos conhecimento de diversas doenças que estão cada vez mais difíceis de combater. As bactérias e vírus estão mais resistentes e nossos antibióticos não tem o mesmo efeito sobre elas. Qual a sua perspectiva em relação a isso?

MSA: A resistência bacteriana ocorre em grande parte pelo uso indiscriminado do antibiótico, o qual pode provocar uma seleção artificial desses seres vivos. Além disso, a utilização de materiais de limpeza com agentes bactericidas, na sua constituição, também contribui com esse processo de seleção.  Portanto, seria necessária a reeducação da sociedade como um todo, inclusive da comunidade médica, quanto a esse tema. O monitoramento da venda dos medicamentos feito pela agência de vigilância sanitária (Anvisa) é uma forma controle desse processo. Hoje, os antibióticos e fungicidas, na sua grande maioria, só podem ser vendidos sob prescrição médica.
VC: Cada vez mais a espécie humana vem se conscientizando do estrago que tem feito ao ambiente ao nosso redor e suas consequências. No seu ponto de vista, ainda há tempo de fazer mudanças? E se não as houverem quais seriam as consequências?

MSA: Para a solução efetiva, em tempo hábil, das questões ambientais que vêm se apresentando em função das ações humanas, se faz necessária a busca de novos paradigmas sociais e econômicos, os quais dependem da esfera política. É esse o motivo que me leva a trabalhar com a educação de jovens, por acreditar que ainda há tempo para repararmos os erros cometidos por nós. Se não houver tempo hábil, como vocês colocaram, ou se não forem tomadas decisões agora, nosso planeta se tornará inabitável para inúmeras formas de vida que conhecemos atualmente. Entretanto, a vida sempre surpreende. Como nosso planeta já passou por cinco grandes processos de extinção, “no caso da falta de tempo para fazer mudanças significativas”,  passará pelo sexto processo. As espécies serão transformadas e a vida permanecerá existindo no planeta Terra!

Oitavo Ano

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