EX – JOGADOR CONTA SOBRE SUA HISTÓRIA NO FUTEBOL BRASILEIRO

♦Beatriz Villela Teixeira e Fabiana Biondi Camargo

Roberto Rivellino, ex-jogador da seleção brasileira na década de
60, já era apaixonado pelo futebol desde pequeno, mas nunca imaginava chegar aonde chegou. Começou atuando em pequenos times, até ir para o Corinthians, onde continuou por quase 11 anos. Atualmente, tem uma escola de futebol, onde ensina crianças e adolescentes, e aonde nos proporcionou essa entrevista.

 

VC: Sabemos que você nasceu em uma família de imigrantes italianos. De onde veio essa paixão pelo futebol? Quando você começou a jogar?

RR: Desde quando eu andava, já tinha bola no pé. Faz parte da cultura brasileira, futebol está na segunda perna do garoto brasileiro, então eu gostava. Antigamente a gente se divertia por pouco, se eu pudesse eu jogava futebol de manhã, tarde e a noite. Tanto é que não tinha essa facilidade de ter muitas bolas. Meu pai me dava uma bola, eu cuidava da bola e ensebava-a porque era de couro. Isso tudo porque eu gostava, realmente sempre gostei de jogar futebol, mas nunca tinha a pretensão de ser jogador profissional, gozado, já que não era essa coisa de hoje em dia, essa loucura que todo mundo quer ser um atleta profissional. Eu jogava com a minha turma, a molecada que vivia na rua. Graças a Deus a gente tinha espaço, a gente tinha nosso campo, a gente brincava. Então era bola de manhã, a tarde e a noite.

VC: Você começou sua carreira como Amador no Clube Atlético Indiano na capital paulista. Algum dia imaginou que chegaria aonde chegou?

RR: Não tinha essa coisa de “eu vou ser jogador de futebol”, então eu não imaginava. Tanto é que dois clubes foram muito importantes na minha vida, que  foram o Indiano e o Banespa onde jogava futebol de salão, que também foi um esporte que me ajudou muito.

VC: Ao ser transferido para o Fluminense, dizem que foi contra a sua vontade. Quais foram as maiores mudanças e como você se sentiu com isso?

RR: O Fluminense era um time fantástico que foi muito importante para mim, já que o presidente deles, que para mim foi o maior presidente que eu tive na minha vida, revolucionou o futebol carioca e montou o Fluminense. Assim, foi muito legal e muito importante na minha vida. Chegou um ponto com esse episódio da minha saída do Corinthians que eu até pensei em parar de jogar futebol. Eu não me imaginava em outro clube, eu não me via com outra camisa. Aí apareceu o Fluminense, uma outra proposta, eu saí de São Paulo porque na época eu achava que ia ser bom para mim. Fiquei praticamente 4 anos no futebol carioca, que foi um momento mágico da minha vida.

 

VC: Falando agora do ano de 1970, conquistamos o terceiro título mundial do Brasil na Copa do Mundo. Como você se sentiu fazendo parte desse momento?

RR: Nós saímos do Brasil, vaiados, desacreditados, ninguém acreditava na seleção, ainda mais pelo grupo que estávamos que era Inglaterra, Checoslováquia, e Romênia, já que a Inglaterra era na época a atual campeã do mundo, a Checoslováquia era a campeã da Europa e a Romênia era a sensação. Todos achavam que o Brasil não ia se classificar, o time não vinha se encontrando, jogando um bom futebol. Mas graças a deus lá na Copa, nós nos encontramos, fizemos uma estreia fantástica contra a Checoslováquia, onde ganhamos de 4 a 1 e foi bom. Fico muito feliz porque você tem que estar no momento certo, na hora certa, no lugar certo, onde uma nata de jogadores maravilhosos que compunham aquela seleção estavam lá, tanto é que tínhamos o maior jogador do mundo com a gente, o Pelé. Mas ele fez parte de um todo, não era ele só que resolvia, tinham N jogadores na seleção de 70 que hoje são falados, que todo mundo sabe que fizeram parte da seleção.  Diferente das copas de 94 ou 2002 onde apenas os mais importantes aparecem. Mas aquela seleção foi muito legal nesse aspecto todo, e eu fiquei muito feliz.

 VC: Sabemos que a seleção atual não está em uma fase muito boa, após perder de 7 a 1. O que você tem a dizer sobre isso?

RR: Depois da maior vergonha do futebol brasileiro, que eu considero 10 a 1 já que foram 7 gols contra a Alemanha e depois 3 da Holanda . Eu fiquei 10 anos dentro da seleção e joguei 123 vezes. Quando tomamos 7 a 1, eu estava em casa com a minha senhora e fiquei decepcionado.

Foi uma vergonha realmente, e depois daquilo, nós que gostamos de futebol, achávamos que ia ter uma mudança muito forte dentro da seleção, ia resgatar, ia ter outra mentalidade, ia tentar renovar o futebol brasileiro, mas não aconteceu nada disso. Por isso que nós ainda estamos sofrendo, seria até bom para o futebol brasileiro que a seleção não se classificasse para a copa do mundo, para cair a ficha de todos.

VC: Muitos dizem que o time atual do Barcelona é o melhor em todos os tempos. Qual sua opinião sobre isso?

RR: Adoro o Barcelona. Eu vibro, eu torço por eles, já que o futebol atualmente está tão chato de ver. Para mim são 4 times que me agradam muito, são o Bayer de Munique, Paris Saint Germain, Real Madrid e Barcelona. A maneira como jogam me agrada porque são times defensivos, que vão buscar, tem opção de jogada. Não é aquele time “vamos esperar eles errarem para pegar a bola”, então esses times me agradam muito, por isso que eu sempre torço pra Liga dos Campeões. Então, o Barcelona para mim é um time diferenciado que começou justamente com o Guardiola, ou então um pouco lá atrás com o Kroif.

 

 VC: Diego Maradona dizia que você era o melhor jogador da época. E, a partir da vitória de outros torneios, você ficou conhecido por muita gente. Como você reagiu a isso?
RR:
Antigamente, não havia essa globalização que existe hoje. Hoje, todo mundo conhece o Rivelino. E mesmo lá fora, a gente não conhecia os jogadores. A gente só se conhecia realmente quando se encontrava em campo. Afinal, uma copa do mundo marca,  é o auge de qualquer jogador, é um momento muito importante.

VC: Foi com a camisa do Fluminense, contra o Vasco da Gama, que o drible “elástico” ficou eternizado no imaginário popular. De onde veio esse movimento?
RR:
Eu errei o drible, quando eu o dava a bola teoricamente iria para um lado, mas como o movimento era rápido, eu fiz a bola passar embaixo da perna dele. Aí quando passou, eu pensei “já foi né”. Foi um momento que realmente marcou minha vida, logo depois fiz um gol que foi um dos mais bonitos que eu fiz.

VC: Em 2014, sabemos que o Corinthians fez a você uma homenagem colocando um busto no parque São Jorge. Como é pra você fazer parte da história desse time?

RR: Hoje, graças a Deus, quando falam dos melhores jogadores, o Rivelino está sempre no meio. O Corinthians fez essa homenagem pra mim, que foi uma das homenagens mais bonitas que eu já recebi na minha vida, no sentido de estar eternizado, marcado para o resto da vida. Fizeram outra homenagem para mim que também foi fantástica, os jogadores me convidaram para ir na inauguração do Itaquerão, fiz o primeiro gol da partida. Foi uma momento muito legal e, um ano mágico para mim. Esse reconhecimento não tem dinheiro que pague. Quando eu saí do Corinthians, não foi a torcida que me tirou, eu sempre tive um relacionamento maravilhoso com o torcedor. Foi a imprensa, que na época fez uma campanha maldosa comigo e me tiraram.

VC: Atualmente, você é comentarista no programa Cartão Verde na TV Cultura, além de outros trabalhos. Como é sua rotina?

RR: Hoje, tenho minha escolinha de futebol, na verdade a muito anos, uma coisa mais social. Não é para formar craque, já que não me ensinaram a jogar futebol. Deus dá o dom para você ser um profissional, claro que você se aperfeiçoa treinando, mas é diferente. Hoje eu faço, também dois programas, o Cartão Verde, onde estou a mais ou menos quarto anos e o Esporte Interativo que já faço a quase um ano no Rio, toda segunda feira as dez e meia da noite com o Zico, um programa muito bacana, que eu estou adorando fazer.

 VC: Se você não tivesse escolhido o futebol, o que você acha que teria feito?

RR: Eu penso o seguinte, Deus dá condições para você, um dom para você seguir. Era para eu ser jogador de bola. Não posso te dizer que iria ser um engenheiro, um dentista. Deus fez eu jogar bola, e eu não me arrependo de nada, se eu pudesse fazer tudo de novo, eu faria com maior prazer. Foi uma oportunidade que eu agarrei, não havia essa coisa do meu pai me obrigar a ser jogador de bola. Foi acontecendo naturalmente, eu gostava. Fui treinar no Palmeiras, aliás era Palmeirense quando pequeno, nunca neguei. Eles não me aceitaram, então fui para o Corinthians e virou minha segunda casa, me abraçaram, me abriram as portas e eu só tenho que agradecer a eles, até hoje. Sou Corintiano, amo o Corinthians e respeito muito esse time.

VC: A partir do momento que você começou a ficar conhecido por todos. Quais foram as vantagens e desvantagens disso?

RR: Tem momentos que tem um “mala”, “mala” é aquele cara que não deixa você almoçar, que não deixa você sair na rua para comprar. Aquele que acha que tem o direito de abordar você, mas claro que as vezes é legal, fico muito feliz quando acontece hoje em dia, é um reconhecimento. Ia ser triste se eu andasse no aeroporto por exemplo, e ninguém me conhecesse. Mas hoje é legal , vem umas pessoas tirar um “selfie” comigo, é fotografia para todo lado, é muito gratificante. Mas tem horas, momentos da sua vida que você se torna muito conhecido e não tem sossego. Ainda mais esses jogadores de hoje, já que a mídia é muito forte.

Tinham momentos quando eu estava no Corinthians que eu saia para almoçar, e não conseguia comer, meu almoço ficava frio porque ou eu atendia o  cara ou iam começar a falar mal de mim. Tinham pessoas que pegavam a cadeira e sentavam do meu lado, eu com a minha esposa, minha família e eu tinha que aturar o cara me fazendo perguntas, sem comer. Então tem essas pessoas inconvenientes.

VC: Para finalizar, sabemos que cada momento, partida é único. Mesmo assim há momentos que marcaram mais que outros. Queríamos saber qual jogada ou gol você julga ter sido mais importante ou marcante?
RR:
A copa do mundo é muito marcante, você não foge. É o auge do atleta profissional. Antigamente, comecei no juvenil do Corinthians, eu queria me projetar, aparecer no juvenil para ser lembrado no Aspirante. Fui para o Aspirante, apareci muito bem. Logo, me levaram para o profissional, e eu então queria jogar em uma seleção, e da seleção jogar uma copa do mundo, então essa era a trajetória, íamos buscando, escalando, correndo atrás. Isso é muito legal, importante.

Quando você fala “os gols”, tem muitos gols na minha vida importantes, sempre tive uma felicidade nos meus chutes. Além de todos os apelidos me comparando aos meus gols, e as cobranças de faltas, como Reizinho, que era um apelido comparando com o Pelé , mas que para mim já era muita coisa, Menino do parque, bigodinho, entre outros.

Oitavo Ano

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *