O ESPORTE POR JUCA KFOURI

♦ Francisco Marcondes Ferraz e João Pedro Costa Fernandes

Juca Kfouri, 66, vê o futebol e o mundo como poucos. Formado em Ciências Sociais pela USP, é apaixonado pelo esporte bretão, como eu, você, e milhares de pessoas espalhadas pelo mundo. Participou de movimentos como a Democracia Corinthiana e atualmente escreve colunas para o UOL e Folha de São Paulo, além de ser comentarista na ESPN. Confira nossa entrevista com ele, na qual debatemos com ele assuntos como Olimpíadas, CBF e o futebol mundial.

 

 

 

Veracidade: As Olímpiadas são um evento esportivo de extrema importância, e esse ano elas serão sediada no Brasil. Qual é a sua expectativa em relação a Olímpiada?

Juca Kfouri : Olha, eu acho que vai ser uma festa linda, como a Copa do Mundo foi, mas acredito que o Brasil não é um país adequado para receber a Olímpiada. Porque não temos uma política de esportes. Uma olímpiada em regra, coroa uma política esportiva, jamais é o primeiro passo, como se está dizendo aqui. Depois disso, o Brasil vai se tornar um país olímpico, o que não vai. E o país tá gastando demais em áreas que são secundárias comparadas as verdadeiras necessidades.

 VC: O futebol brasileiro passa pelo seu pior momento na história 7-1, técnico da seleção que não inspira confiança e cartolas ultrapassados. Como podemos sair dessa situação e voltar a ser conhecidos no cenário mundial?  

JK: O futebol precisa de um “choque de capitalismo”. O futebol brasileiro precisa profissionalizar a sua gestão, os clubes brasileiros precisam ser tratados como empresas, como na Europa, com ações na bolsa de valores. O futebol brasileiro é um antro de gente incapaz, medíocre e que usam o futebol para enriquecer. Então os clubes de futebol estão falidos, porém os cartolas ricos. A CBF é uma entidade podre.

VC: Você é um crítico feroz da CBF. Para você, qual é o principal erro que eles cometeram com o futebol de nosso país?

JK: O principal erro é não permitir que os clubes organizem o Campeonato Brasileiro, impedir que se crie uma liga de futebol profissional e de ter dado um peso desmedido a seleção brasileira, a seleção virou a grife do futebol brasileiro. Antes, a seleção era respeitada mas o Santos excursionava, o Botafogo excursionava. Os clubes brasileiros eram muito conhecidos. Hoje em dia, não.

VC: Agora é o contrário. Os times europeus são muito mais famosos.

JK: Exatamente isso. Inclusive aqui, qualquer loja esportiva pelo mundo afora tu vai ver a camisa da seleção mas não vai ver camisas de times brasileiros. Vai até ver camisas de times argentinos. River Plate, Boca Juniors, além das camisetas dos clubes europeus: Barcelona, Real Madrid, Milan…

VC: O preconceito no futebol é um grande problema. O machismo e a homofobia são comum em nosso futebol. Um exemplo disso são os gritos homofóbicos e machistas em nossos estádios. Como mudar esse cenário?

JK: Aí meu amigo, aí é típico de um país mal-educado. Isto aí é fruto de uma falta de educação histórica no Brasil. Enquanto o país não investir de fato na educação e possa tratar na escola deste tipo de coisa, que possa mostrar que isso é preconceito, agente vai continuar assim. Porque, infelizmente, somos isso mesmo. Um país machista, preconceituoso, racista, embora não gostemos de admitir.

VC: Sim, o racismo aqui é velado.

JK: É, é velado, embora a maior parte da população brasileira ser no mínimo mestiça. A falta de educação na escola leva a esse tipo de coisa.

VC: Você acredita que a divisão de verbas entre os times no campeonato brasileiro é uma boa ação? Ela daria certo, a competitividade aumentaria? A ideia de implantá-la, em sua percepção, já é uma discussão dos órgãos de futebol brasileiros?

JK: Então, claro que a maneira que é dividida a renda entre os clubes brasileiros.

VC: Você teve participação ativa na Democracia Corinthiana, e viu de perto as transformações no Corinthians. Como foi participar desse movimento?

JK: Olha, eu de fato tive uma participação na democracia corintiana, não é exatamente o que um jornalista deva fazer porque o papel da gente (jornalistas) é noticiar, informar, criticar e não é necessariamente participar das coisas, mas ali a gente vivia uma situação muito especial, viviamos a ditadura no Brasil e quando você está em uma ditadura é muito difícil você exigir de si mesmo, como cidadão, que você não tenha uma posição porque é muito claro a luta do bem e do mal, então se você se juga do bem é claro que você vai ficar contra a ditadura e a democracia corintiana era um movimento contra a ditadura em um momento em que se fazia no Brasil a campanha para se eleger o presidente, o que a gente não fazia. Juntou-se ali um bando de gente bacana, liderado pelo Socrates. A Placar apoiou a Democracia corintiana com todas as forças, e como eu sou corintiano, isso me levou a fazer um papel ainda maior do que eu deveria ter feito. Mas foi uma experiência inesquecível.

VC: Por ser grande fã do esporte bretão, imagino que veja a Libertadores e a Champions League. Qual é a sua preferida? O que mais lhe apaixona em cada uma delas?

JK: Sem dúvida nenhuma a Champions League é uma coisa superior, porque, vai desde a qualidade dos estádios, a qualidade do gramado e a qualidade do futebol porque os grandes jogadores do mundo, inclusive os da América do Sul, estão jogando na Europa. A Libertadores está progredindo. Essa Libertadores desse ano dá claros sinais disso. Tava vendo ontem, por exemplo, Atlético Nacional-COL e Rosario Central-ARG, e muito agradável de ver a qualidade do jogo, a qualidade do gramado, bem, mas no fim ainda teve aquele quebra-pau que ainda nos caracteriza, sangue quente latinos que somos, sem nos esquecer que na Europa também há muita gente também de sangue latino. Enfim, por enquanto, a diferença é muito grande.

VC: A FIFA enfrenta sérios problemas. Fifagate, denúncias e mais denúncias sobre a Copa do Catar. O que pensa sobre?

JK: Olha Chico, eu ás vezes penso que nem vai ter Copa no Catar. Se as investigações na  FIFA forem a fundo, ficará muito claro que o Catar comprou a Copa e que é um absurdo realizar um evento desses num lugar que tem as temperaturas que tem, que vai obrigar mudar a data da Copa no Mundo, fazer no final do ano, atrapalhando o natal e a passagem de ano. A Copa do Mundo no Catar é um escândalo. Se tu pensar bem, não é apenas a Copa do Mundo no Catar. Se você olhar, a penúltima Copa do Mundo foi na África do Sul, a última no Brasil, a próxima na Rússia e depois tá previsto pra que seja no Catar. Sabe os que esses países tem em comum?

VC: Subdesenvolvimento.

JK: São países de pouquíssimo controle social, de muitíssima corrupção. No caso do Brasil e da África do Sul, são países com democracias recentes. Na Rússia, difícil dizer que há uma democracia, mas válá, e no Catar certamente não. Por que não põe a Inglaterra? A Grã-Bretanha teve apenas um voto pra sediar a Copa que vai ser na Rússia. Porque a Inglaterra tá pronta pra fazer uma Copa do Mundo, ela não precisa construir nenhum estádio. Ela faz em Londres, em Cardiff, em Manchester, em Newcastle. Mas isso não interessa para as empreiteiras. Interessa pra elas fazer o que fizeram aqui. Construir 12 estádios, porque os já construídos foram jogados no chão pelas empreiteiras. É fazer essa farra que enche os bolsos dessa gente.

VC: Falta planejamento.

JK: Porque tu não faz a Copa em lugar que esteja pronto para sedia-la?

VC: Torcer para clubes europeus está ficando cada vez mais comum entre os brasileiros. O interesse aumentou bastante e compete com nosso futebol. Você acha isso bom ou ruim?

JK: Me preocupa muito isso, é uma coisa inevitável que é o mundo globalizado, se o futebol brasileiro estivesse em um nível superior assim mesmo estaríamos vendo os torneios de outros países, como eles estariam vendo os nossos e essa concorrência seria menos acirrada como é. Eu tenho visto isso, sem dúvida nenhuma, e vocês também por exemplo na escola, a garotada està cada vez mais Barcelona, Real Madrid entre outros.

VC: O esporte tem um papel social muito importante no Brasil. Para uma pessoa pobre, é uma chance de ascenção na vida e você costuma ver o futebol dessa forma também. Para aqueles que dizem que é “apenas um jogo”, o que você diria a essa pessoas?

JK: Eu acho que quem diz que futebol não tá entendendo nada do que é o futebol e não tá entendendo nada da importância que o futebol tem aqui no Brasil. Futebol não só é, como você disse, um dos poucos meios de asenção social no país, como em poucos lugares do mundo se usa metáforas futebolisticas como a gente usa aqui no nosso dia-a–dia, no nosso linguajar habitual do brasileiro. Daí eu te digo que tá errado que o Brasil receba uma Olímpiada, porque até hoje nenhum governo brasileiro nesses 16 anos teve a preocupação de democratizar o acesso a prática esportiva, de fazer o esporte escolar pra valer, não nas particulares, mas sim nas públicas. Tu não encontra quadras, não encontra nada nessas escolas. E o esporte é, antes de mais nada, uma questão de saúde pública, um fator de prevenção de doenças, não é apenas um divertimento e forma de ganhar a vida. No Brasil não fomos capazes de entender que o esporte tem esse significado, é uma dura tarefa fazer as nossas autoridades entenderem isso. Mas você olhe, o Brasil já teve alguns ministros do esporte, a partir do Pelé que foi o primeiro. Veja, o primeiro ministério do esporte foi em 1995, no governo FHC. Até então, sequer ministério tinha. Do Pelé pra cá, já passaram sete ministros. Nenhum deles tinha alguma relação com o esporte. Tivemos desde a bancada envangélica até o pessoal do PcdoB. Isso dá medida de como o esporte é usado pra fazer arranjos políticos.

VC: Hoje, no Brasil, é muito dito que há um “Fla-Flu” político em virtude de haver uma grande divergência política. O futebol sempre esteve ligado com política e sempre vai ser assim. Você considera isso bom ou ruim?

JK: João Pedro, você tocou numa coisa que é essencial, porque isso é a grande hipocrisia nacional. O João Havelange se fez na vida dizendo que fazia esporte, que era apartidário, apolítico e não queria saber de política. Com isso, ele fazia a pior forma de política possível, porque era conivente com as ditaduras da América do Sul e as Africanas, mas dizia que não se metia com política. O Fla-Flu político no Brasil só faz o país andar pra trás, porque você não pode tratar a política com esse nível de intolerância. Dividir a sociedade entre “coxinhas” e petistas. Você não pode ser contra o impeachment porque se for contra o impeachment você é petista. Eu sou contra o impeachment e não sou petista. E as pessoas, os obturados, os fanáticos não entendem que uma coisa é diferente da outra. Ao mesmo tempo, eu conheço muita gente boa a favor do impeachment que não é “coxinha”. Essa intolerância que você pode admitir em um campo de futebol, pela burrice da paixão, quando a paixão cega, aquilo que disse antes, de tratar o rival como inimigo, o rival não é inimigo, foi transferido pra política. Isso não vai fazer do Brasil um país melhor, não tenha dúvida.O Fla-Flu político no Brasil só faz o país andar pra trás, porque você não pode tratar a política com esse nível de intolerância.

VC: Inclusive você também sofreu algumas hostilizações(por sua posição política).

JK: Pois é, acabei ficando com eles, que os identifiquei e acabei ficando com eles no escritório de advocacia do advogado deles. Eram quatro ignorantes políticos, fazer o que.

Oitavo Ano

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