SÉRGIO BRITTO E SEU TRAJETO PELO MUNDO MUSICAL

♦ Cecília Tiné Torkomian, Sofia Pluciennik Fautinoni e Silva e Luís Ventura Corazza Genioli

Sérgio de Britto Álvares Affonso, músico brasileiro e integrante dos “Titãs” há 30 anos, nasceu no dia 18 de setembro de 1959, no Rio De Janeiro. É o único membro carioca do grupo, porém deixou o Rio quando era bem pequeno. Até os seus 13 anos, Britto queria ser pintor e escutava com frequência, músicos clássicos como “Bethoveen”, em virtude de seu pai ouvir bastante esse tipo de música. Quando sua irmã passou a estudar violão ele ouviu o álbum “Help” dos ” The Beatles” pela primeira vez, a partir daí, passou a se interessar em fazer música. Com 14 anos, teve suas primeiras aulas de piano. Ele curtia bandas como “Yes”, “Emerson”, “Lake & Palmer”,” The Who”, “Led Zeppelin”, “The Beach Boys”além de vários artistas de MPB. Quando sua irmã desistiu de seu violão, Britto passou a tocá-lo.

Sérgio Britto, músico dos Titãs
Sérgio Britto, músico dos Titãs

Pouco depois, entrou para o “Colégio Equipe”. Enquanto os outros futuros membros dos Titãs passavam por várias bandas e festivais, Britto compunha sozinho, em casa. Hoje em dia ele tem uma carreira de sucesso e é o integrante com mais composições dos “Titãs”.

Nessa entrevista Sérgio Britto conta um pouco sobre sua carreira e sobre a vida de um músico, além de, experiências marcantes e outras curiosidades sobre sua vida.
VeraCidade: Sabemos que você é um ótimo cantor e músico. Quando começou seu trajeto pelo mundo da música? Você sempre gostou de música? De que forma sua família o apoiou?

Sérgio Britto: Eu comecei a me interessar por música aos quatorze, treze anos, antes disso eu gostava de pintura, eu desenhava muito, eu cheguei a até a fazer faculdade de artes plásticas. Eu comecei a tocar de brincadeira, já que minha irmã tinha um violão, ela não tocava muito então eu comecei a toca-lo. Depois, minha mãe, vendo meu interesse por música, me comprou um piano, aí eu comecei a aprender música clássica. O que me deu um “click” mesmo foi a vontade de compor, antes disso era mais uma brincadeira mesmo.

VC: Em algum de seus álbuns, como: “Eu sou 300”, “A minha cara” e “Purabossanova”, você fez alguma referência a alguém que você gosta?

SB: Sim, muitas referências. Principalmente nos meus discos solo, em que falo da minha vida pessoal, dos meus filhos, da minha mulher. Eu acho que quando você faz um trabalho solo, essa coisa mais pessoal é mais fácil de realizar, com um grupo, uma banda de rock, isso nem sempre tem espaço.

VC: Estamos cientes que além de tecladista você é compositor com maior número de canções gravadas dos “Titãs”. Como se dá seu processo de composição de novas músicas?

SB: Depende. Tem muitas maneiras de compor uma música, eu acho que quando compõe você tem que estar atento a tudo que te chama atenção, tudo aquilo que você acha que pode ser uma boa ideia. Por exemplo, se você está brincando no piano e acha uma frase legal, um encadeamento harmônico que você goste, uma melodia que vem na sua cabeça ou algo que você queira falar, já é um começo. Como dizia Cartola, “ você deve compor sempre usando a sua experiência, a imaginação e as coisas que te contam”. Em uma música, uma canção é muito importante o que você diz, sua opinião sobre aquele assunto, é isso que faz diferença, tornando uma música especial.

VC: Sabemos que suas músicas são especialmente boas. Porem gostaríamos de saber quais delas são suas preferidas, das que você compôs?

SB: Eu não tenho muitas músicas preferidas, mas eu vou falar uma que eu gosto, que é desse disco solo do “Purabossanova”, porque a Rita Lee cantou comigo, eu convidei ela para cantar, ela gravou um clipe comigo, foi muito generosa, uma pessoa que eu sempre admirei muito, então essa música tem esse significado especial para mim. Porém eu gosto muito de todas e não consigo escolher.

VC: Toda sua rotina de gravação não deve ser fácil. Quais os pontos negativos e positivos da fama?

SB: Não sei, acho que você tem que saber se controlar, porque se você da muita trela para o que os outros falam, se forem só elogios você fica autocomplacente, você fica se permitindo fazer coisas que não são tão boas e perde o senso critico, eu acho que todas essas coisas são aspectos ruins. Os pontos positivos são que a fama abre portas, se você tem um nome conhecido você consegue contato com gente que você dificilmente conseguiria, ganha facilidade para encontrar gravadoras e radio, ou programas de televisão e isso realmente é muito facilitador. O lado chato é que tem um lado mais invasivo, mas eu não tenho esse problema pois não tenho esse tipo de fama, (ainda bem! *risos*) ou também de você acabar se confortando.

VC: Há 30 anos você faz parte desse grupo e não deve ser fácil. Qual é o segredo para manter a harmonia entre os integrantes?

SB: Olha…Não sei se a gente mantém a harmonia, a gente vive até no conflito. Acho que o segredo é exatamente você permitir que todo mundo se manifeste e você ir se ajustando sempre, a flexibilidade é o segredo. Se adaptar e respeitar o outro, respeitar a diferença. Até porque sempre tem opiniões contrárias as suas, e chegar a um meio termo é difícil, isso é um exercício constante.

VC: Como se deu o encontro dos integrantes dos Titãs? Como era no começo? Vocês imaginavam ter tanto sucesso?

SB: Foi basicamente na escola, a gente deveria ter uns 17 anos. No último ano da escola, todo mundo que compunha ou tocava começou a se juntar, e dai tivemos a ideia de formar uma banda. Tocamos em uma festa da escola e nós, Titãs, éramos só uma brincadeira, porque a gente tocava com outros garotos que tocavam melhor que a gente, nós só cantávamos, eles que eram “os músicos”. A gente se apresentava de brincadeira, mas acontece que o pessoal da escola gostou muito do que nós fizemos.

VC: Sabemos que os Titãs trabalharam com vários músicos diferentes. Teve algum que te surpreendeu ou te ensinou algo valioso?

SB: Muita gente, eu já trabalhei com muitos produtores e produtor em geral é um cara com muita experiência de estúdio e gravação. Gravar em estúdio é uma situação complicada, você estranha e fica tenso porque você ouve muito bem tudo o que você faz e tem que chegar no timbre dos instrumentos. Então o Liminha, por exemplo, que é um dos melhores produtores da música brasileira, me ajudou muito, ele é muito bacana. Tem um produtor também, americano, que se chama Jack Endino, que é um cara muito sábio, que sabe te deixar mais a vontade no estúdio. Isso é importante porque a sua tensão passa para a música, então você tem de estar relaxado, mas às vezes não consegue. Outros que me ensinaram muito foram os diversos artistas que eu gosto e ouço muito, você sempre aprende ouvindo a música dos outros.

VC: No início de sua carreira, as apresentações da banda não contavam com o rock tão pesado e os novos figurinos. O que aconteceu ao fazer esta mudança?

SB: Ah, aos poucos, né? As pessoas acham que a gente fez uma guinada assim drástica porque a gente fez o “Sonífera Ilha” e tinha umas músicas mais pops, mais bobinhas e depois a gente fez o “Cabeça de Dinossauro” que é um disco mais sério e agressivo, mais pesado. Na verdade, o lançamento desse disco é o que marcou, que transformou a gente numa banda mais respeitada no Brasil. Tem algumas coisas ali que contribuíram, a prisão de dois caras da banda por porte de drogas, por exemplo. Isso foi uma coisa traumática para a gente. Ficamos um tempo sem poder trabalhar, suspenderam alguns shows… Isso causou um tipo de revolta juvenil que levou a gente a fazer um disco mais radical. Mas acho que antes disso a gente já gostava de coisas mais pesadas, a gente não tinha experimentado gravar, mas sempre tivemos esse desejo de fazer uma coisa mais pesada e mais agressiva.

VC: Os Titãs construíram uma grande carreira musical. Quais as principais mudanças que ocorreram desde o começo?

SB: A gente passou por muitas coisas. A gente teve um cara que morreu na banda. Três caras que saíram da banda. A gente fez discos diferentes, já exploramos muitas coisas. É difícil de falar, mas acho que as saídas e as perdas foram mudanças importantes. Outra coisa que talvez tenha sido importante no nosso trajeto foi o “Acústico”. A gente tocou com uma orquestra grande com quatro violinos que fez muito sucesso há alguns anos atrás. A gente chegou a vender quase dois milhões de discos, o que é muita coisa. Isso também foi um momento muito marcante na nossa carreira.

VC: Toda apresentação é singular, todavia sabemos que existem shows que marcam de certa forma nossas vidas. Houve algum fato curioso durante um evento que você pode nos relatar?

SB: Eu fiz muitos shows, mas tem alguns que eu lembro. Por exemplo, esse disco “Cabeça de Dinossauro”, no começo teve uma resistência e poucas pessoas o conheciam, não tocava em rádio porque era uma música meio diferente na época. Lembro de um show que teve em São Paulo em um lugar chamado Projeto SP. A gente não tinha muito público naquela época. A gente tinha sempre umas 300, 400 pessoas e o lugar era grande. O show tinha vendido todos os ingressos, e as pessoas cantavam todas as músicas do disco. Então a gente ficou muito surpreso, foi muito emocionante para a gente porque aconteceu de repente, do dia para a noite, literalmente. Então não é à toa que esse disco é tido atualmente como o melhor da nossa carreira. Pelos outros, eu mesmo tenho minhas dúvidas, mas em geral as pessoas pensam que é a melhor coisa que a gente fez até agora.

VC: Você e os Titãs são ícones do rock nacional, porém o estilo de música apreciado pelos jovens atuais mudou bastante. Qual sua opinião sobre as músicas atuais? Acha que a qualidade da música está se perdendo com o tempo?

SB: Eu não sei. Acho que a música vive de ciclos, como tudo. Acho que hoje em dia o rock é uma coisa que tem pouco espaço na mídia, embora tenha muita garotada que faz música, que tem banda, que gosta de música pop. Existem muitas meninas hoje em dia, muito mais do que na minha época de jovem, que tocam, que pensam em ter banda, que compõem. Então acho que isso é uma coisa positiva, bacana e legal. Mas na grande mídia, eu vejo um predomínio muito grande do sertanejo, do funk, do axé. Nada contra, só acho que quando uma coisa predomina desta maneira, fica meio monótono. Parece que você está ouvindo a mesma música, o mesmo gênero, mesmo estilo de se vestir, de falar, de se comunicar o tempo inteiro. Acho que fica um pouco limitador. Iria preferir que houvesse mais diversidade. Podia dar espaço para muita banda, para muita garotada por aí que consegue pôr a cabeça para fora.

VC: Como você citou antes, há músicas “vazias” e muitos artistas comentam que as músicas atuais são meio vazias, você concorda?

SB: Acho que você não pode julgar uma coisa por aquilo que ela não se propõe a fazer. Acho que tem música que é puro divertimento, que o cara não quer dizer nada demais, quer fazer uma brincadeira com duas frases, tem um ritmo divertido, legal. Tem coisa que funciona, que é divertida, que serve para a balada, para a festa. Tem outras que não funcionam para a nada. Acho que esse é o problema. Eu não tenho muito preconceito com música. Não gosto de ficar falando “na minha época era legal, agora é tudo uma porcaria”. Acho isso uma visão errada das coisas. Acho que hoje tem coisas legais e coisas nem tanto. Mas sempre foi assim.

VC: Sabemos que você tem dois filhos. Queríamos saber se eles tocam alguma coisa, se você os incentivou a ouvir um tipo de música, se você acha que ele vai seguir esse caminho.

SB: O Zé acho que não mais. Ele já tocou um pouco de bateria, experimentou baixo e agora ele quer fazer cinema. Mas também já vai fazer 18 anos, e já escolheu outro caminho: fez teatro. Acho que vai seguir algo artístico. A Júlia talvez. Faz aula de piano. Ela canta bem, é afinadinha, tem jeito, dança. Ela é muito tímida, então talvez isso a atrapalhe um pouco. Mas eu também era, ainda sou. Acho que tem tímidos que conseguem fazer música independentemente disso.

VC: A infância deles foram muitos influenciadas pela música. Você incentivou eles a gostarem?

SB: Eu não forço. Eu tenho esse negócio no meio da sala (piano), tenho um monte de instrumentos espalhados por aí. Sempre deixei eles mexerem à vontade. O Zé teve até uma bateria quando era pequeno. Mas acho que tem essa coisa da vocação… Às vezes a família não tem nenhum músico, não tem nada, e a criança fica fissurada e quer ter um instrumento. Quando ele pega o instrumento, não larga, fica em cima. E tem outras que tem tudo e o cara não se interessa. Então acho que a gente não pode forçar isso. Se você força, é provável que o tiro saia pela culatra. Aí fica uma chatice. Acho que música tem que ser um prazer, além da chatice que tudo tem – porque estudar é chato, mas tem que ter um prazer nisso.

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