HISTORIADORA ARGENTINA CONTA SUA EXPERIÊNCIA DURANTE GOLPE DE 76

♦ Julia Singer Monteiro e Gustavo Andriotti Gurman

“Sempre terá um lugar vazio dentro de mim”. É assim que a historiadora Silvia Alegre, 58, define o que ela sente sobre o golpe político da Argentina de 1976. Ela tinha 19 anos quando foi forçada a sair da Argentina para fugir dos militares. Mudou-se para o Brasil, onde vive até hoje.

Esposa, mãe e avó, Silvia é formada em Ciências Sociais pela USP e atualmente estuda para receber doutorado em História pela mesma faculdade.

VeraCidade- O golpe de 76 foi feito com o objetivo de tirar a presidente Isabelita Perón do poder. O que você achava de seu governo?

Silvia Alegre- Quando o golpe ocorreu, o governo estava totalmente desacreditado, com inúmeros problemas de corrupção. Como a presidente havia herdado o governo do falecido marido, ela não tinha nenhuma legitimidade. A Argentina encontrava-se em uma situação de grande desgoverno. Então o governo por falta de impulso, apoiadores e de legitimidade, acabou fazendo aliança com uma direita muita radical e corrupta. A minha impressão é que o governo estava caindo aos pedaços.

VC- Temos o conhecimento que você foi militante antes do golpe. O que mudou na sua vida como participante de um grupo de esquerda com o golpe?

SA- Na realidade, foi uma grande mudança. Eu comecei a militar em um grupo de esquerda quando eu tinha 14 anos e sai da Argentina aos 19 anos. Antes do golpe eu militava em secundaristas. Nós lutávamos pelas reivindicações estudantis, o preço do transporte pública. Nas férias íamos trabalhar em favelas e em bairros mais pobres fazendo trabalho social. Muitas vezes fazíamos trabalho cultural, apresentações de teatros, ajudávamos as mulheres a cuidar das crianças, fazíamos festas, tudo nas comunidades. Quando veio o golpe tudo isso acabou, você não podia fazer um “piu” que vinham em cima de você. Por isso todas as organizações de esquerdas passaram a ser clandestinas. A militância passou a ser soberana e as pessoas não se conheciam, já que não era mais o colégio.

VC- Já que você era conhecida no meio estudantil, quando o golpe estourou você teve que virar clandestina. Como foi essa mudança?

SA- Foi terrível. Como fui expulsa da escola, comecei a trabalhar em um escritório que mexia com fotografia, mas depois de um tempo fechou.  Antes do golpe as pessoas iam para minha casa por causa de reuniões. Consequentemente era um lugar bem conhecido então fui obrigada a sair de casa. Ainda não era independente economicamente, o que deixou tudo mais difícil. Mas a coisa que mais me marcou foi que logo após o golpe, as pessoas começaram a sumir. Por exemplo o namorado da minha irmã, que era muito amigo meu, desapareceu no dia 15 de abril. Logo em maio, minha mãe resolveu pegar meus dois irmãos e vir para o Brasil, deixando-me sozinha com minha irmã.

VC- Sabemos que milhares de pessoas morreram. Você perdeu algum parente, conhecido ou um amigo? Se sim, qual foi o impacto na sua vida?

SA- Eu perdi muitos amigos. Por sorte, nenhum parente morreu, mas minhas perdas foram enormes. Perdi meu namorado, minha irmã perdeu o namorado dela, então foi tudo muito forte para mim.  Eu diria que praticamente todos os meus amigos morreram. Hoje, eu fiz novos amigos tudo aqui no Brasil, mas sempre terá um lugar vazio dentro de mim. Eu vou para a argentina com frequência. Sempre que chego, tenho aquele momento de tristeza, depois passa, mas no primeiro momento sempre tem aquela lembrança dos anos que se passaram.  

VC- Sabemos que você ficou presa durante certo tempo. Quanto tempo você ficou? Qual foi sua experiência?

 SA- Foi uma prisão estudantil. O lugar que eu estudava era um tremendo colégio, a parte de esportes tinha um polígono de tiro para praticarmos atividades físicas. Uns meninos começaram a rodar pela escola com espingardas. Um homem viu que tinha gente armada na escola e acabou chamando a polícia, que me levou junto com outras 22 pessoas. Eu, que já era maior de idade, tive um processo aberto. Fui presa outra vez. Pegaram-me em um lugar que nos encontraríamos para uma reunião. A prisão foi bem difícil. Os guardas nos ameaçavam, sempre passavam as mãos nas meninas, nos abusando. Mas graças a Deus, eu nunca fiquei presa mais de uma semana.

A historiadora Silvia Alegre debatendo em aula o mercado atual

A historiadora Silvia Alegre debatendo em aula o mercado atual

VC- Como a gente sabe várias pessoas foram exiladas, incluindo você. Como foi essa experiência?

SA- Quando você é jovem, depois do primeiro choque, a separação e tal, o exílio parece meio com uma aventura durante os primeiros tempos.  Já que você está em um país diferente, com uma língua que você não entende, você quer apreender tudo, ver tudo. Ao mesmo tempo que nos divertíamos, a saudades são muito grandes. Você não pode voltar para seu país. As notícias que chegavam sempre eram muito tristes, muita gente desaparecendo.  Era uma grande mistura de emoções.

VC- Você passou um tempo aqui no Brasil. Durante esse período, você chegou a passar por algum tipo de preconceito por ser argentina?

SA- Vou ser sincera. Não havia sofrido nenhum tipo de preconceito até a copa de 78, que a Argentina ganhou aliás. Lembro-me que nós fazíamos um grande esforço para falar sem sotaque e evitávamos falar na rua. Mas além da época de futebol nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Minha impressão inicial era de que os brasileiros adoram estrangeiros, mesmo os vizinhos.

VC- Você chegou a se mudar de volta para Argentina quando o golpe acabou?

SA- Minha família voltou e eu fiquei. Gostei muito do Brasil desde que eu cheguei. Quando todo mundo voltou, eu desfiz o exílio. Dessa forma estava no Brasil porque eu queria ficar. Entrei na USP para estudar, ciências sociais.  Comecei a me naturalizar brasileira e decidi ficar.

VC- A recuperação nunca é fácil após um golpe sanguinário que nem esse. Foi muito difícil se recuperar do golpe e de suas consequências?

SA- Sim, muito. Eu acho todos que viveram o golpe de 76, independentemente da idade, carregam isso para o resto da vida. Ter sentido um medo tão profundo, ter visto a quantidade de amigos que se foram, acompanhar todas as coisas que tinha acontecido, os cabos de concentração, as torturas, tudo isso vai ficando em algum lugar da consciência da gente. Uma amiga minha de muito tempo me encontrou no Facebook e me mandou uma foto nossa com outras 20 meninas na frente da porta da escola. Eu olho aquela menina de 12 anos sorridente que eu era, devia ser muito feliz. Depois dessa vivencia do golpe, fica uma tristeza, uma coisa que nunca vai embora. Por causa dessa experiência vivida, por causa do medo, você é transformado e deixado com uma marca indelével.

Oitavo Ano

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