{"id":846,"date":"2023-04-18T15:02:00","date_gmt":"2023-04-18T18:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/?post_type=resenha&#038;p=846"},"modified":"2023-04-28T11:04:20","modified_gmt":"2023-04-28T14:04:20","slug":"o-tedio-das-tardes-sem-fim","status":"publish","type":"resenha","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/resenha\/o-tedio-das-tardes-sem-fim\/","title":{"rendered":"A caixa-forte do imagin\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Por Cristiane Tavares<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>De m\u00e3e ruandesa e pai franc\u00eas, o autor, compositor e int\u00e9rprete Ga\u00ebl Faye nasceu no Burundi, de onde precisou fugir aos 13 anos de idade, em fun\u00e7\u00e3o da guerra civil deflagrada no pa\u00eds e do genoc\u00eddio em Ruanda, na d\u00e9cada de 90. Seu primeiro romance, <em>Meu pequeno pa\u00eds<\/em> (R\u00e1dio Londres, 2019), traz marcas autobiogr\u00e1ficas e <em>O t\u00e9dio das tardes sem fim<\/em> \u00e9 inspirado em sua inf\u00e2ncia. No texto assinado pelo autor, nas \u00faltimas p\u00e1ginas do livro, ele conta que, quando menino, teve a oportunidade de se entediar, j\u00e1 que n\u00e3o havia escola no per\u00edodo da tarde, nem telas para entretenimento: <em>\u201cguardo desses dias im\u00f3veis a lembran\u00e7a de um per\u00edodo encantado em que pude encher at\u00e9 a borda a caixa-forte do meu imagin\u00e1rio. O t\u00e9dio das minhas tardes de inf\u00e2ncia era uma viagem em que o tempo me pertencia, um espa\u00e7o onde eu fabriquei imensos sonhos.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O livro \u00e9 dedicado \u00e0s duas filhas do autor, Suzana e Louisa, a quem ele deseja, justamente, <em>\u201ctardes sem fim, pa\u00edses imagin\u00e1rios e sonhos ilimitados\u201d<\/em>. O desejo estende-se aos leitores de todas as idades que encontram neste livro uma narrativa po\u00e9tica ilustrada com desenhos em aquarela, pelo premiado quadrinista e ilustrador franc\u00eas, Hippolyte. As imagens do artista retratam o personagem em seu universo dom\u00e9stico <em>\u201cna velha casa t\u00e9trica, da B\u00e9lgica dos tr\u00f3picos\u201d<\/em>, inserindo, por vezes, elementos on\u00edricos na paisagem realista. Em uma dupla de p\u00e1ginas, por exemplo, a casa de tijolos vermelhos, heran\u00e7a de uma violenta coloniza\u00e7\u00e3o belga, aparece min\u00fascula, imersa em um imenso jardim com pomar e \u00e1rvores imponentes, e, ao fundo, temos a imagem gigante do menino deitado, seu corpo estirado compondo a paisagem. Ele est\u00e1 fora da casa, num tempo-espa\u00e7o outro, de reinven\u00e7\u00e3o das dimens\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:47px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"513\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/o-tedio-das-tardes-sem-fim-miolo-1024x513.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-851\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/o-tedio-das-tardes-sem-fim-miolo-1024x513.jpg 1024w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/o-tedio-das-tardes-sem-fim-miolo-300x150.jpg 300w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/o-tedio-das-tardes-sem-fim-miolo-768x385.jpg 768w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/o-tedio-das-tardes-sem-fim-miolo-1536x770.jpg 1536w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/o-tedio-das-tardes-sem-fim-miolo-2048x1026.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>O t\u00e9dio das tardes sem fim<\/em> (Editora Oh! Outra Hist\u00f3ria)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:47px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>O texto abusa da sinestesia e mergulha o leitor nas sensa\u00e7\u00f5es das tardes sem fim: o sol \u201czebrando sombra e luz\u201d atrav\u00e9s da janela da sala, a algaravia do papagaio e das aves no viveiro, o vento dan\u00e7ando nas cortinas, a torneira pingando, a chuva tamborilando no teto de lata, o sil\u00eancio da hora da sesta. Tempo suspenso prop\u00edcio aos encontros intimistas: <em>\u201cna hora das coisas est\u00e1ticas, a mim mesmo fabrico.\u201d<\/em> Como diriam os versos da poeta Ad\u00e9lia Prado no poema &#8216;Leitura\u2019, \u201c<em>eu sempre sonho que uma coisa gera\/ nunca nada est\u00e1 morto\/ o que n\u00e3o parece vivo, aduba\/ o que parece est\u00e1tico, espera\u201d<\/em>. Fabricar-se a si mesmo nas horas est\u00e1ticas pode acontecer, tamb\u00e9m, no encontro com o outro. Encontro afetuoso, que se d\u00e1 em horinha de inteireza, quando se empreendem <em>\u201cexpedi\u00e7\u00f5es cavalheirescas, gargalhadas loucas, pactos de sangue.\u201d <\/em>A amizade marca presen\u00e7a nas tardes sem fim e o t\u00e9dio a dois \u00e9 cumplicidade em elevado grau: <em>\u201camigo \u00e9 o que conta, \u00e9 o que resta, amigo, palavra infante.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Amigos reais e imagin\u00e1rios cabem. Assim como intertextualidades: <em>\u201cPequeno Pr\u00edncipe do t\u00e9dio, entre carneiro e fastio\u201d<\/em>. Enquanto os adultos fazem digest\u00e3o, o menino \u201crumina mais de uma quest\u00e3o\u201d e brinca de ser outro com os bonecos, corpo esparramado no ch\u00e3o. \u00c9 na lajota fresca da sala, com desenhos em mosaico, que ele tra\u00e7a \u201crotas err\u00e1ticas\u201d com seus carrinhos de brinquedo e pode acompanhar a fileira de formigas \u201cem parada militar a desfilar no matagal\u201d. A observa\u00e7\u00e3o ativa da natureza convoca para um \u201c\u00e9den particular\u201d. O menino vive a c\u00e9u aberto, chupa manga do p\u00e9, descansa \u00e0 sombra da figueira, \u201c\u00e1rvore-templo, \u00e1rvore-universo\u201d. Apequena-se e agiganta-se em seu quintal expandido. <em>\u201cNada de mimo, bombom, guloseima. \/ Sem programa, sem tev\u00ea, um aqu\u00e1rio era o que tinha pra ver.\u201d<\/em> Inimagin\u00e1vel para algumas crian\u00e7as acostumadas a rotinas exaustivamente ocupadas, o t\u00e9dio das tardes sem fim \u00e9 trampolim para universos paralelos, \u201cum descanso na loucura\u201d, como diria Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste tempo-espa\u00e7o outro a aus\u00eancia materna n\u00e3o se substitui. N\u00e3o \u00e9 preciso preench\u00ea-la, evit\u00e1-la, escond\u00ea-la, apenas senti-la. <em>\u201cEscrevo cartas \u00e0 minha m\u00e3ezinha\/ Aus\u00eancia que aprendi a suportar estando eu t\u00e3o sozinho.\u201d<\/em> Solid\u00e3o que \u00e9 nomeada t\u00e9dio nos versos finais da narrativa po\u00e9tica, fechamento dissonante do restante do texto porque por demais conclusivo: <em>\u201cAssim foi minha vida,\/ uma eterna rotina,\/ a vida era assim:\/ era o t\u00e9dio das tardes sem fim.\u201d<\/em> Ritmado e mel\u00f3dico, feito refr\u00e3o de uma can\u00e7\u00e3o, os versos que encerram o texto parecem buscar resumir \u00e0 rotina e \u00e0 rima o tempo alargado da inf\u00e2ncia: a caixa-forte do imagin\u00e1rio transbordante, o corpo em descanso agigantando a paisagem, o gosto das tardes ensolaradas \u00e0 sombra das \u00e1rvores, a cumplicidade amiga no sil\u00eancio a dois. Acompanhar o menino em sua povoada solid\u00e3o abre janelas para inf\u00e2ncias ao ar livre, fabricantes de sonhos, sem fim desejadas.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:47px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:26% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img decoding=\"async\" width=\"770\" height=\"825\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/O-tedio-das-tardes-sem-fim-capa.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-848 size-full\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/O-tedio-das-tardes-sem-fim-capa.png 770w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/O-tedio-das-tardes-sem-fim-capa-280x300.png 280w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/O-tedio-das-tardes-sem-fim-capa-768x823.png 768w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>O t\u00e9dio das tardes sem fim<br>Escrito por: Ga\u00ebl Faye<br>Ilustrado por: Hippolyte<\/p>\n\n\n\n<p>Traduzido por: Alexandre Barbosa de Souza<br>Editora<em> <\/em>Oh! Outra Hist\u00f3ria<br>2023<br>32 p\u00e1ginas<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiane Tavares De m\u00e3e ruandesa e pai franc\u00eas, o autor, compositor e int\u00e9rprete Ga\u00ebl Faye nasceu no Burundi, de onde precisou fugir aos 13 anos de idade, em fun\u00e7\u00e3o da guerra civil deflagrada no pa\u00eds e do genoc\u00eddio em Ruanda, na d\u00e9cada de 90. 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