{"id":1271,"date":"2023-09-17T19:54:00","date_gmt":"2023-09-17T22:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/?post_type=resenha&#038;p=1271"},"modified":"2023-10-28T09:06:44","modified_gmt":"2023-10-28T12:06:44","slug":"por-que-apresentar-elza-soares-as-criancas","status":"publish","type":"resenha","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/resenha\/por-que-apresentar-elza-soares-as-criancas\/","title":{"rendered":"Por que apresentar Elza Soares \u00e0s crian\u00e7as?"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cMulher do fim do mundo<\/em><br><em>Eu sou e vou at\u00e9 o fim cantar.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">[Alice Coutinho e R\u00f4mulo Fr\u00f3es]<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>&nbsp;Em um pa\u00eds campe\u00e3o em \u00edndices de feminic\u00eddio, racismo e aporofobia a publica\u00e7\u00e3o da biografia ilustrada de uma cantora negra, nascida em uma favela carioca, pode gerar inc\u00f4modo ou mesmo passar indiferente para boa parte dos leitores. Por que apresentar Elza Soares \u00e0s crian\u00e7as? O que em sua vida \u201cmerece\u201d ser contado em livro? Na l\u00f3gica das vidas que valem mais \u00e0 medida que menos pretas, merecimento \u00e9 a r\u00e9gua que tra\u00e7a um destaque aqui, outro ali, preferencialmente daqueles que ralaram muito para conseguir qualquer reconhecimento em vida, fazendo jus \u00e0 tal meritocracia.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 por contrariar essa l\u00f3gica perversa, o livro <em>Elza, a voz do mil\u00eanio<\/em>, j\u00e1 seria altamente indicado para leitura. Para al\u00e9m desse aspecto, a vida que se conta ali guarda semelhan\u00e7as com muitas outras Elzas, Zez\u00e9s, Ninas e, por que n\u00e3o, Margaridas, Marielles, Bernadetes, Marias da Penha. Mulheres que ousaram viver uma vida diferente daquela predestinada a elas, tornando-se marco na luta por direitos. A dedicat\u00f3ria do livro n\u00e3o deixa d\u00favida: <em>\u201cPara Elza. E toda a gente que resiste.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, quem escreve o texto \u00e9 uma mulher negra, a poeta cearense nina rizzi, que assina seu nome com min\u00fasculas, do mesmo modo que bell hooks, intelectual negra afroamericana cujos livros infantis nina traduziu para o portugu\u00eas. H\u00e1 uma coer\u00eancia \u00e9tica e est\u00e9tica na sele\u00e7\u00e3o que a autora faz dos fatos da vida de Elza apresentados no livro. Podemos ouvir a voz rouca da artista em trechos que reproduzem n\u00e3o apenas seus grandes sucessos musicais, como suas emblem\u00e1ticas falas. Um exemplo \u00e9 o famoso di\u00e1logo travado entre ela e Ary Barroso, ao se apresentar no programa <em>Calouros em Desfile<\/em> (1953), quando respondeu \u00e0 pergunta \u201cDe que planeta voc\u00ea veio\u201d, dizendo: <em>\u201cDo mesmo planeta que o seu, seu Ary. Planeta Fome!\u201d<\/em> (p.14) Seguindo algumas p\u00e1ginas, descobrimos que <em>Planeta Fome<\/em> seria o t\u00edtulo de um \u00e1lbum lan\u00e7ado por Elza em 2019: <em>\u201cum \u00e1lbum afrofuturista, onde mais do que cantar sobre a revolta, cantou sobre um mundo futuro, onde n\u00e3o sucumbimos, estamos vivos e vivas.\u201d <\/em>(p.40)<\/p>\n\n\n\n<p>A sinceridade \u00e1cida de Elza Soares, somada ao senso cr\u00edtico, aparecem nas muitas aspas escolhidas a dedo pela autora, num bonito tributo, a um s\u00f3 tempo afetivo e pol\u00edtico, como se evidencia neste trecho em que cita um coment\u00e1rio da cantora sobre seu \u00e1lbum <em>Deus \u00e9 mulher<\/em> (2017): <em>\u201cEu acho que Deus \u00e9 m\u00e3e. Ele me ouviu desde crian\u00e7a, que eu venho pedindo socorro e miseric\u00f3rdia para uma menina negra, pobre, sem possibilidade nenhuma de vencer na vida. E acabei vencendo, com tudo para n\u00e3o dar certo e deu certo. Ent\u00e3o Deus \u00e9 minha m\u00e3e, Deus \u00e9 mulher.\u201d <\/em>(p.39)<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo vale para as refer\u00eancias ao contundente posicionamento pol\u00edtico da cantora num pa\u00eds de heran\u00e7a colonialista, escravista, conservadora, careta, t\u00e3o bem resumido nas p\u00e1ginas finais do livro: <em>\u201cSua voz \u00e9 um presente que canta as lutas e as gl\u00f3rias do povo negro, das pessoas que vivem em pobreza, das crian\u00e7as, das mulheres, das pessoas LGBTQIAPN+, hist\u00f3rias muitas vezes silenciadas.\u201d<\/em> (p.44)<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide has-media-on-the-right is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:auto 19%\"><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>Um percurso por sua vida, desde a inf\u00e2ncia, at\u00e9 os \u00faltimos anos, passando pelo casamento com o jogador de futebol Man\u00e9 Garrincha e pelo ex\u00edlio no per\u00edodo de ditadura militar no pa\u00eds, se apresenta de maneira fluida e sem didatismo. Explica\u00e7\u00f5es excessivas n\u00e3o caberiam na biografia de uma mulher irreverente, que fez da arte n\u00e3o apenas seu sustento, mas sua principal forma de luta contra as injusti\u00e7as sociais. O aspecto art\u00edstico, sem d\u00favida, se intensifica na escolha de um artista gr\u00e1fico tamb\u00e9m negro e m\u00fasico, Edson Ik\u00ea, para compor as ilustra\u00e7\u00f5es que acompanham o texto.<\/p>\n\n\n\n<p>A ilustra\u00e7\u00e3o da bel\u00edssima capa se reinventa em imagem de p\u00e1gina dupla, no interior do livro, apresentando uma Elza Soares envelhecida, mas n\u00e3o menos exuberante, homenageada pela escola de samba carioca Mocidade Independente, com o enredo \u201cElza Deusa Soares\u201d (2020). Como ondas sonoras algumas imagens atravessam as p\u00e1ginas em dimens\u00e3o e perspectiva crescentes, unindo tempos distintos da vida da artista. Um astral elevado se reflete nas cores quentes, criando uma ambi\u00eancia envolvente que dialoga com a fluidez e a intensidade do texto verbal. Como diz Edson Ik\u00ea em sua apresenta\u00e7\u00e3o, na \u00faltima p\u00e1gina do livro: <em>\u201ctive o prazer de ilustrar a potente hist\u00f3ria de Elza Soares, e o clima de samba e jazz sempre embalaram meus desenhos, tra\u00e7os e sonoridades.\u201d<\/em><\/p>\n<\/div><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"768\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Elza-Soares-Edson-Ike.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1274 size-full\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Elza-Soares-Edson-Ike.jpg 512w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Elza-Soares-Edson-Ike-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 pergunta lan\u00e7ada no t\u00edtulo deste texto, para al\u00e9m dos argumentos aqui expostos, a partir de uma leitura atenta e afetiva do livro, vale lembrar os resultados da recente pesquisa realizada pelo Instituto Geled\u00e9s, em parceria com o Instituto Alana: depois de dez anos de promulga\u00e7\u00e3o da lei 10.639\/03, apenas 30% das secretarias municipais de educa\u00e7\u00e3o efetivaram a obrigatoriedade do ensino de hist\u00f3ria e cultura africana e afro-brasileira em seus curr\u00edculos. Se um tanto j\u00e1 foi feito, muito ainda h\u00e1 por fazer nesse sentido. Nas palavras de Elza Soares: <em>\u201cA carne mais barata do mercado <strong>foi <\/strong>a carne negra. N\u00e3o \u00e9 mais a carne negra. Eu sou negra. Minha m\u00e3e \u00e9 negra. Minha voz \u00e9 negra. O Brasil \u00e9 negro. Repitam comigo, t\u00e1 bem? Gritemos juntos. Unidos\u201d. <\/em>(p.37)<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o Brasil \u00e9 negro e ind\u00edgena, ainda que muitos n\u00e3o queiram. E apresentar \u00e0s crian\u00e7as a vida de pessoas que orgulhosamente se autodeclaram pertencentes a estes grupos, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 uma resposta tardia \u00e0 mencionada lei, como tamb\u00e9m uma a\u00e7\u00e3o potente para a constru\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios \u2013 e conviv\u00eancias &#8211; antirracistas.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:33px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:22% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img decoding=\"async\" width=\"783\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/elza-a-voz-do-milenio.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1272 size-full\" srcset=\"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/elza-a-voz-do-milenio.jpg 783w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/elza-a-voz-do-milenio-235x300.jpg 235w, https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/elza-a-voz-do-milenio-768x981.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 783px) 100vw, 783px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>Elza \u2013 A voz do mil\u00eanio<br>Escrito por: nina rizzi<br>Ilustrado por: Edson Ik\u00ea<br>Editora VR<br>2023<br>50 p\u00e1ginas<\/p>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMulher do fim do mundoEu sou e vou at\u00e9 o fim cantar.&#8221; [Alice Coutinho e R\u00f4mulo Fr\u00f3es] &nbsp;Em um pa\u00eds campe\u00e3o em \u00edndices de feminic\u00eddio, racismo e aporofobia a publica\u00e7\u00e3o da biografia ilustrada de uma cantora negra, nascida em uma favela carioca, pode gerar inc\u00f4modo ou mesmo passar indiferente para boa parte dos leitores. 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