{"id":869,"date":"2023-04-18T14:44:00","date_gmt":"2023-04-18T17:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/?post_type=conversas&#038;p=869"},"modified":"2023-04-26T10:06:41","modified_gmt":"2023-04-26T13:06:41","slug":"cada-canto-um-canto","status":"publish","type":"conversas","link":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/conversas\/cada-canto-um-canto\/","title":{"rendered":"Cada canto, um canto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Entrevista com o autor e professor da P\u00f3s LCJ, Edimilson de Almeida Pereira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os t\u00edtulos dos poemas de <em>Cada bicho um seu canto<\/em> n\u00e3o revelam o nome do animal que aparece em cada texto, o que abre possibilidades para uma leitura metaf\u00f3rica. Voc\u00ea poderia comentar um pouco sobre a escolha dos t\u00edtulos?<\/strong><br>Sua interpreta\u00e7\u00e3o capta exatamente a minha proposta para os t\u00edtulos \u2014 e para toda a minha escrita. Uma quest\u00e3o que sempre se imp\u00f5e \u00e0 literatura para os p\u00fablicos adulto e jovem \u00e9 o embate entre a necessidade da literatura de ensinar algo (fun\u00e7\u00e3o did\u00e1tica) ou dinamizar o prazer da aprecia\u00e7\u00e3o (fun\u00e7\u00e3o est\u00e9tica). H\u00e1 muito n\u00e3o considero essa quest\u00e3o como um jogo de oposi\u00e7\u00f5es. Prefiro escrever no entrelugar desse par m\u00ednimo (didatismo\/esteticismo), pensando em levar os leitores a constru\u00edrem eles mesmos os significados para o texto que t\u00eam \u00e0 sua frente. Procuro articular jogos de forma e imagem, rumor e sil\u00eancio, reflex\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o apostando no desejo do leitor de interagir com o texto, interpretando-o a partir de suas experi\u00eancias pessoais e sociais. Os animais de <em>Cada bicho um seu canto<\/em> foram escolhidos a partir das caracter\u00edsticas que apresentam.<br>Por exemplo, a leveza e for\u00e7a do gato; a rapidez e a tens\u00e3o da vespa etc. O interessante foi perceber como, \u00e0s vezes, esses tra\u00e7os biol\u00f3gicos servem como met\u00e1foras para a\u00e7\u00f5es culturais criadas por n\u00f3s, seres humanos, em sociedade. A inten\u00e7\u00e3o dos poemas n\u00e3o \u00e9 atribuir aos animais atributos morais humanos, como na f\u00e1bula. O prop\u00f3sito \u00e9, segundo uma percep\u00e7\u00e3o que temos hoje, demonstrar que participamos todos de um mundo de seres viventes, que t\u00eam suas modalidades de linguagem, seus sistemas de comunica\u00e7\u00e3o e que interagem entre si. Por isso, o t\u00edtulo do livro, ou seja, cada ser vivente (animal ou planta) possui o seu modo de se expressar (o seu canto).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ao escrever para crian\u00e7as, a rela\u00e7\u00e3o l\u00fadica com a linguagem se intensifica? Quais rela\u00e7\u00f5es de semelhan\u00e7a e diferen\u00e7a voc\u00ea observa no seu processo de escrita para p\u00fablicos distintos (infantil e adulto)?<\/strong><br>Quando escrevo poesia, penso em poss\u00edveis leitores complexos, que sabem muito sobre os jogos de palavras e de imagens, que vivem, tanto quanto eu, mergulhados nas m\u00faltiplas experi\u00eancias da vida. Considero o princ\u00edpio de que nossas vidas e mundos s\u00e3o plurais, ricos em significados, alguns mais vis\u00edveis e outros menos. Por isso, no ato da escrita, na busca pelos sentidos, n\u00e3o fa\u00e7o distin\u00e7\u00e3o entre os p\u00fablicos porque para \u201cconversar\u201d com eles sou desafiado a entender a complexidade de todas as formas de linguagem e de vis\u00f5es de mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><br><strong>Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o entre a literatura contempor\u00e2nea produzida em pa\u00edses da \u00c1frica e a literatura brasileira?<\/strong><br>Essa n\u00e3o \u00e9 uma pergunta de f\u00e1cil resposta. Cada pa\u00eds africano, assim como o Brasil, apresenta suas especificidades hist\u00f3ricas, pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais. S\u00e3o fatores que interferem de maneira decisiva no ambiente de cria\u00e7\u00e3o e de circula\u00e7\u00e3o dessas literaturas. Quando falamos de rela\u00e7\u00e3o entre elas \u00e9 importante considerarmos as similaridades decorrentes de fatos como a viol\u00eancia do passado<br>colonial ou seu contraponto, os processos de luta de liberta\u00e7\u00e3o do colonialismo. Esses aspectos s\u00e3o fundamentais na articula\u00e7\u00e3o dessas literaturas, por\u00e9m, h\u00e1 outros igualmente importantes para o desenho de literaturas que podem ser, ao mesmo tempo, transnacionais e espec\u00edficas de um territ\u00f3rio. De modo<br>objetivo, acredito que a circula\u00e7\u00e3o das obras \u2014 em tradu\u00e7\u00f5es, concursos liter\u00e1rios transnacionais, encontros entre escritores, estudiosos e leitores, pol\u00edticas p\u00fablicas de barateamento e distribui\u00e7\u00e3o dos livros, fomento \u00e0s resid\u00eancias liter\u00e1rias nos diferentes pa\u00edses etc. \u2014 \u00e9 importante para termos uma ideia do imensur\u00e1vel patrim\u00f4nio cultural que subsiste nos pa\u00edses afetados pelo hediondo tr\u00e1fico de escravizados. Patrim\u00f4nio esse que aponta, para al\u00e9m dessa heran\u00e7a, outros horizontes sociais e<br>pol\u00edticos, baseados no respeito, na democracia e na rela\u00e7\u00e3o fraterna entre as pessoas de diferentes sociedades.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Especialmente no que diz respeito \u00e0 literatura infantojuvenil brasileira, como voc\u00ea v\u00ea a presen\u00e7a de vozes negras atualmente? Acredita que a lei n.10.639, de 2003, contribuiu para dar maior visibilidade a essas vozes?<\/strong><br>A lei n.10.639 e seus complementos, que inclu\u00edram as literaturas ind\u00edgenas, s\u00e3o frutos do engajamento de movimentos sociais que pensam num pa\u00eds atento \u00e0 sua diversidade social e cultural. Essa porosidade social, que decorre tamb\u00e9m da vontade pol\u00edtica de v\u00e1rios agentes (tais como educadores, dirigentes sindicais, pol\u00edticos, comunicadores, influenciadores, comunidades religiosas e m\u00eddias progressistas),<br>\u00e9 necess\u00e1ria para que tenhamos um ambiente favor\u00e1vel ao surgimento de v\u00e1rias vozes liter\u00e1rias.<br>No entanto, espera-se que essas vozes n\u00e3o sejam limitadas pelas regras do mercado, que se apropria de temas fundamentais para reduzi-los \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de produto de interesse moment\u00e2neo. Isso \u00e9 um desafio tamb\u00e9m para todos os artistas, de modo geral, e para os escritores, de modo particular. O tensionamento entre fun\u00e7\u00e3o social e fun\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da literatura \u00e9 ampliado, mais do que nunca, sob condi\u00e7\u00f5es em que a busca pela afirma\u00e7\u00e3o da diversidade etnicossocial pode se transformar em cerceamento e objetifica\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 experi\u00eancia est\u00e9tica. Creio que \u00e9 necess\u00e1rio um debate aberto, profundo e cont\u00ednuo entre as pessoas que interagem no ambiente cultural do pa\u00eds, a fim de n\u00e3o perdermos de<br>vista a amplitude e a complexidade do patrim\u00f4nio cultural gerado, h\u00e1 muito, nas dif\u00edceis teias da afrodi\u00e1spora.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1022,"template":"","class_list":["post-869","conversas","type-conversas","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-json\/wp\/v2\/conversas\/869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-json\/wp\/v2\/conversas"}],"about":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-json\/wp\/v2\/types\/conversas"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1022"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/site.veracruz.edu.br\/blogdaposlcj\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}