{"id":707,"date":"2016-05-23T20:29:23","date_gmt":"2016-05-23T20:29:23","guid":{"rendered":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/?p=707"},"modified":"2016-05-25T19:24:27","modified_gmt":"2016-05-25T19:24:27","slug":"andando-correndo-e-vivendo-a-historia-da-quase-india-que-virou-avo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/2016\/05\/23\/andando-correndo-e-vivendo-a-historia-da-quase-india-que-virou-avo\/","title":{"rendered":"Andando, Correndo e Vivendo-A hist\u00f3ria da quase \u00edndia que virou av\u00f3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Marina Segre<!--more--><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/1-4.png\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-708\" src=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/1-4-300x197.png\" alt=\"1\" width=\"300\" height=\"197\" srcset=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/1-4-300x197.png 300w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/1-4-768x505.png 768w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/1-4.png 829w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela n\u00e3o nasceu na capital paulista, mas em um local muito distante e at\u00e9 mesmo selvagem, com hist\u00f3rias de guerras muito marcantes para todos os habitantes desse lugar, de ataques de on\u00e7as e de outros bichos e brigas de \u00edndios. N\u00e3o estamos falando da \u00c1frica ou da \u00cdndia, estamos falando do conhecido sert\u00e3o da Bahia, mas n\u00e3o apenas do sert\u00e3o da Bahia&#8230; Da Bahia do cerrado&#8230;. Do centro do Brasil na metade do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa hist\u00f3ria come\u00e7ou em 1948 em uma fazenda chamada Riach\u00e3o do Aricob\u00e9, no vilarejo de Miss\u00e3o de Aricob\u00e9, um distrito do munic\u00edpio de Angical na Bahia. L\u00e1, nasceu a filha primog\u00eanita de uma fam\u00edlia de pequenos comerciantes, que recebeu o nome de Neuracy, \u201caquela que faz o bem\u201d segundo os \u00cdndios Aricob\u00e9s. Ela n\u00e3o nasceu em um hospital ou em maternidade, mas sim das m\u00e3os de Dona Neguinha a parteira mais experiente de toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liga\u00e7\u00e3o deste local com a cultura dos \u00edndios Aricob\u00e9s \u00e9 profunda e lembra a \u00e9poca que os Jesu\u00edtas estiveram nessa regi\u00e3o. Os padres jesu\u00edtas, converteram os \u00edndios para sua religi\u00e3o. Esses \u00edndios viveram muitos anos com a prote\u00e7\u00e3o dos padres porque nessa \u00e9poca eram muitos sagrados e quem matava um deles era punido para sempre. Da\u00ed a raz\u00e3o de um nome t\u00e3o diferente e ind\u00edgena para uma pequena garotinha que viveria muitas aventuras ao longo de sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Nessa regi\u00e3o n\u00e3o havia quase nada, n\u00e3o havia hospitais, ou bancos, n\u00e3o haviam farm\u00e1cias, supermercados ou ruas asfaltadas. Segundo Neuracy, era muito dif\u00edcil sobreviver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neuracy (Neura) tinha quatro irm\u00e3os, Em\u00edlio (Neto), Manoel (Neuri), Niura e Gisele (Gika). Todos moravam em uma casa pr\u00f3pria bem simples, mas organizada. A casa era feita de materiais da regi\u00e3o \u2015 como se fosse a hist\u00f3ria dos 3 porquinhos \u2015, argila, madeira do cerrado e telhas de barro \u2013 nessas casas era comum se encontrar um besouro que transmitia uma doen\u00e7a que fazia o cora\u00e7\u00e3o ficar grande \u2015 esse rem\u00e9dio ainda n\u00e3o existe \u2015 o Besouro Barbeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela era apegada a seus dois tios, chamados Dion\u00edsio e Valdemar, porque eles eram companheiros e estavam sempre prontos para brincadeiras. Em uma dessas brincadeiras Neuracy quase foi sufocada por uma mandioca crua que o trio resolveu comer no meio da mata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com 6 anos de idade ela deixou sua terra natal-que ela amava- com sua fam\u00edlia migrando para o Estado do Paran\u00e1, onde o governo, atrav\u00e9s da companhia Inglesa Norte do Paran\u00e1, que construiu cidades, pontes, ferrovias e rodovias, estava vendendo terras a pre\u00e7o muito barato. A viagem at\u00e9 l\u00e1 n\u00e3o foi f\u00e1cil: \u201cEu fiz uma parte da viagem de \u201cVapor\u201d, outra de trem e outra de \u00f4nibus. Foram uns 15 dias de viagem e quando est\u00e1vamos no rio S\u00e3o Francisco, o vapor quase afundou durante uma tempestade. Foi minha av\u00f3 que segurou \u00e0 for\u00e7a o capit\u00e3o do navio e o obrigou a assumir novamente a navega\u00e7\u00e3o, porque ele estava quase se atirando no mar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eles chegaram ao Paran\u00e1, o pai de Neuracy comprou uma pequena, mas \u00fatil, propriedade e abriu um com\u00e9rcio de Secos e Molhados, al\u00e9m de um a\u00e7ougue. Tudo isso com uma ajuda que tiveram do av\u00f4 para que seus pais come\u00e7assem a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como em Mendesl\u00e2ndia, distrito de Nossa Senhora das Gra\u00e7as, no norte do Paran\u00e1, n\u00e3o havia escolas Neuracy, junto com dois de seus irm\u00e3os foram enviados a uma cidade do outro lado do Rio Paran\u00e1, chamada Presidente Prudente. L\u00e1 todos poderiam estudar para um dia serem \u201cdoutores\u201d porque seus av\u00f3s queriam que eles forem m\u00e9dicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primog\u00eanita de Francisca e Anfil\u00f3fio, era uma \u00f3tima aluna, na verdade, uma das melhores de todo o col\u00e9gio interno das tr\u00eas freiras Beneditinas de Tutzing, que fundaram o Educand\u00e1rio Cristo Rei em Presidente Prudente em 1937. Suas brincadeiras favoritas eram: queimada, amarelinha e principalmente peteleco, nome que era usado para a brincadeira com bolinhas de gude, na qual ela era a maioral. Nessa \u00e9poca, ela pensava em ser freira, professora ou psic\u00f3loga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na adolesc\u00eancia ela nunca saia de casa, porque sua casa ou era o Col\u00e9gio Interno, ou era o com\u00e9rcio dos pais em um pequeno vilarejo com floresta e muitos perigos ao redor. N\u00e3o fazia travessuras e ajudava com as tarefas na casa, no com\u00e9rcio e no a\u00e7ougue. N\u00e3o se apaixonou por ningu\u00e9m nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a faculdade de Pedagogia, fez um curso de teatro em Presidente Prudente e durante a pe\u00e7a Orfeu e Eur\u00eddice, conheceu o homem de seus sonhos. Na pe\u00e7a ela era Eur\u00eddice e ele era Orfeu. Como na mitologia (Orfeu e Eur\u00eddice n\u00e3o tiveram sorte no relacionamento), Neuracy e Hilton se separaram depois de 3 filhos e 10 anos juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus filhos, quando crian\u00e7as, aprontavam poucas e boas. Em uma dessas traquinagens, Emilio &#8211; o filho do meio \u2013 a escondida com seu skate desceu a toda velocidade uma rua perigos\u00edssima na contram\u00e3o. Por coincid\u00eancia Neuracy estava em seu fusquinha subido a mesma rua e por pouco n\u00e3o atropelou seu pr\u00f3prio filho. Quando ela se deu conta do ocorrido e percebeu que o garotinho do skate era seu filho, quase desmaiou. Emilio ficou uma semana de castigo. J\u00e1 seu filho C\u00e9sar, o mais velho, aprontou com ele mesmo: foi brincar com uma garrafa de \u00e1lcool e tentou fazer um c\u00edrculo de fogo entorno de um grande formigueiro. Para sua surpresa escutou um barulho estranho saindo do interior do frasco de \u00e1lcool e sua curiosidade o impeliu a olhar para o seu interior. Quando C\u00e9sar pegou o frasco e mirou o olhar para seu bocal recebeu um sopro de ar quente e fogo diretamente nos olhos. Resultado: n\u00e3o prejudicou a sua vis\u00e3o, mas queimou todos os seus c\u00edlios. F\u00e1bio, o mais novo, tamb\u00e9m aprontava e uma que ficou na mem\u00f3ria foi quando ele aparou os pelos de uma cachorra de estima\u00e7\u00e3o para escrever seu nome em uma das coxas do animal. Um tio chamado Emilio (o mesmo nome do filho do meio de Neuracy), achou que seus sobrinhos haviam marcado a cachorra com ferro quente! E saiu gritando a plenos pulm\u00f5es: \u201cMarcaram a cachorra com ferro quente!!! Marcaram a cachorra com ferro quente!!!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m as bab\u00e1s concordadas por Neuracy aprontaram algumas. Uma delas costumava aplicar fita adesiva na chupeta do Fabio, quando ningu\u00e9m estava em casa. Uma outra gostava muito de passear de bicicleta, mas como n\u00e3o poderia deixar todas as crian\u00e7as em casa sempre levava algu\u00e9m, geralmente contra a vontade, na garupa. Ap\u00f3s descer uma grande ladeira a toda velocidade com C\u00e9sar chorando ela acabou sendo descoberta e precisou ser demitida. E esses foram apenas dois de muuuitos outros epis\u00f3dios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Neuracy al\u00e9m de lecionar, gostava muito de fazer coisas diferentes acabou conseguindo um emprego como radialista e logo teve seu pr\u00f3prio programa, que era feito para crian\u00e7as. Os anos se passaram e seu programa transformou-se para atender seus f\u00e3s agora adolescentes. Assim, o programa infantil de Mara L\u00edvia, se reinventou no programa \u201cMenudos de Mara L\u00edvia\u201d. Mara L\u00edvia era seu nome art\u00edstico, o dono da radio havia achado estranho o nome Neuracy.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neuracy n\u00e3o parava, ap\u00f3s se aposentar como professora abriu uma escola de educa\u00e7\u00e3o infantil chamada Escola Monteiro Lobato. Ela era f\u00e3 de Monteiro Lobado e por isso nunca acentuou o nome de seus filhos, porque ela dizia que Lobato era contra acentua\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias. Nesta escola havia poucas classes, mas muito espa\u00e7o, muitas \u00e1rvores como mangueiras, jabuticabeira, umbuzeiro, coqueiros, abacateiro e seriguela. Al\u00e9m disso, havia galinhas garnis\u00e9s, jabutis, porquinhos-da-\u00edndia, coelhos e muitos p\u00e1ssaros, todos criados soltos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 protagonista do filme que est\u00e1 escrevendo para si mesma, e a cena \u00e9 longa. J\u00e1 se passaram muitos, anos e ela ainda promete surpreender no final&#8230;. Sua persist\u00eancia \u00e9 admir\u00e1vel, assim como sua coragem, seus medos, suas aventuras, suas escolhas e seu jeito de ser. Tudo deveria estar em uma tela de cinema. Afinal, \u00e9 tudo hist\u00f3ria!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2-5.png\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-709\" src=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2-5-300x222.png\" alt=\"2\" width=\"300\" height=\"222\" srcset=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2-5-300x222.png 300w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2-5-768x568.png 768w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2-5-1024x758.png 1024w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/2-5.png 1185w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marina Segre<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[33],"tags":[70,125,124],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7wWE5-bp","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/707"}],"collection":[{"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=707"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/707\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":854,"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/707\/revisions\/854"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}