{"id":269,"date":"2016-06-16T08:00:59","date_gmt":"2016-06-16T08:00:59","guid":{"rendered":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/?p=269"},"modified":"2017-05-15T18:28:40","modified_gmt":"2017-05-15T18:28:40","slug":"5-f-catimba-argentina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/2016\/06\/16\/5-f-catimba-argentina\/","title":{"rendered":"5&ordm; F &#8211; Catimba argentina"},"content":{"rendered":"<p>\u201cLevei um baita frango, um peru enorme\u201d. Entre tantas situa\u00e7\u00f5es contadas por Eus\u00e9bio Ignacio, essa \u00e9 uma que poderia ser considerada por muitos goleiros, um constrangimento e tanto. J\u00e1 para outros, com senso de humor como o dele, um acontecimento cotidiano, relembrado de forma hil\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tempos dif\u00edceis foram vividos durante o per\u00edodo da Ditadura Militar na Argentina. Foi no meio dessa algazarra que Ignacio nasceu, em fevereiro de 1977. Eus\u00e9bio Oscar, jornalista, e Marta Graciela, dona de casa, tiveram muita coragem de ter dois filhos nesta \u00e9poca. Infelizmente, Ignacio, o primog\u00eanito, nasceu com problema pulmonar. Felizmente, foi isso que o incentivou a praticar esportes, contando sempre com o apoio da fam\u00edlia. Maria Em\u00edlia, a tempor\u00e3, nasceu sete anos mais tarde.<\/p>\n<p>Desde pequeno n\u00e3o conseguia ficar parado: parecia ter \u201cformiguinhas\u201d pelo corpo. Descobriu isso brincando nas ruas do bairro Almagro, em Buenos Aires. Praticava todo tipo de esportes todos os dias \u2013 apesar da fam\u00edlia ser \u201cperna de pau\u201d.<\/p>\n<p>Na escola prestava muita aten\u00e7\u00e3o nas aulas. E quando chegava em casa fazia a li\u00e7\u00e3o \u00e0s pressas para sair na rua e se divertir. Guarda isso na mem\u00f3ria, como uma colorida bola de handebol.<\/p>\n<p>Era um garoto muito levado e aprontava v\u00e1rias travessuras. Seu alvo predileto era o vizinho, um velho ranzinza, que n\u00e3o devolvia as bolas mal miradas que costumavam cair em seu quintal. S\u00f3 as conseguia de volta se o filho dele estivesse em casa. Uma traquinagem muito ousada e extravagante que fez com o velho, come\u00e7ou quando ele e seus amigos perceberam que o carro estava fora da garagem. Aproveitaram a oportunidade para colocar v\u00e1rios chicletes mascados na ma\u00e7aneta. No momento em que foi abrir a porta, o rabugento ficou com a m\u00e3o \u201cchicletada\u201d. Ignacio nunca se esqueceu da face espantada e abobada do vizinho.<\/p>\n<p>Passados alguns anos, Ignacio come\u00e7ou a ter novos gostos. Descobriu que estar com uma garota poderia ser muito mais divertido do que uma bola de futebol. Mas ainda assim sua paix\u00e3o pelo esporte persistia. At\u00e9 os 16 anos praticou de rugby a beisebol, passando por gin\u00e1stica ol\u00edmpica, handebol, v\u00f4lei entre outros.<\/p>\n<p>Aos 18 anos, para sua surpresa, o pai cortou a mesada: se quisesse ganhar dinheiro, teria de trabalhar. O emprego que arrumou foi como assistente de pedreiro na empreiteira de um amigo da fam\u00edlia. Durante quase um ano, Ignacio p\u00f4de se exercitar e se tornar um homem mais forte gra\u00e7as \u00e0 quantidade de peso carregada nas costas. Pelo menos se livrou do escrit\u00f3rio, terno e gravata.<\/p>\n<p>Mal sabia ele que dois dias depois de ter conclu\u00eddo a faculdade, uma manifesta\u00e7\u00e3o brutal marcaria novamente a hist\u00f3ria da Argentina, resultando em 20 mortes. \u00a0Sua carga de trabalho se reduziu apenas em uma hora semanal. Consequ\u00eancia de uma mega crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica que foi cruel demais com o povo.<\/p>\n<p>Como muitos teve de deixar sua terra natal, migrando para o Brasil. Como poucos teve a indica\u00e7\u00e3o de um amigo que o acolheu no Rio de Janeiro e o incentivou a continuar seus estudos na USP.\u00a0 Com pouca bagagem (dez meias, dez cuecas e dez camisetas) e sabendo falar apenas \u201coi\u201d, \u201ctudo bem?\u201d e \u201conde fica a USP?\u201d chegou em S\u00e3o Paulo em agosto de 2002, disposto a fazer uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Logo ao chegar foi convocado para a sele\u00e7\u00e3o de handebol da USP na posi\u00e7\u00e3o de goleiro.<\/p>\n<p>Jogadas inesquec\u00edveis costumam fazer parte da vida de todos os atletas, sejam elas boas ou ruins. Assim tamb\u00e9m aconteceu com Ignacio. Uma delas ocorreu em Maring\u00e1, Paran\u00e1, na semifinal da Copa do Brasil. Faltavam apenas 9 minutos para o t\u00e9rmino da partida, quando ele se distraiu e essa \u201cbobeada o levou a um baita frango, um peru enorme\u201d. Sua impress\u00e3o foi de ter conseguido agarrar a bola. Apesar de estar ganhando do time advers\u00e1rio por cinco gols de diferen\u00e7a, esse lance foi o respons\u00e1vel por fazer o time desabar: baixaram a guarda at\u00e9 o final da partida e isso os levou a derrota. Uma explos\u00e3o de tristeza.<\/p>\n<p>A defesa gloriosa aconteceu em um jogo do campeonato da USP na Universidade Luterana Brasileira. Eles estavam ganhando por um gol quando a defesa do seu time marcou um sete metros \u2013 p\u00eanalti no handebol. O meia esquerda do time advers\u00e1rio &#8211; um brutamonte apelidado de Cavalo \u2013 iria fazer a cobran\u00e7a. Ignacio, nesse momento, pensou que seria quase imposs\u00edvel catar essa bomba, ent\u00e3o fingiu uma c\u00e2imbra com a inten\u00e7\u00e3o de atrair a aten\u00e7\u00e3o do batedor. A catimba argentina deu certo: o gigante caiu no golpe, arremessou a bola na suposta perna lesionada e ele defendeu, impressionando o p\u00fablico. Sujeito de sorte, esse Ignacio!<\/p>\n<p>Muitas defesas se passaram&#8230; Ignacio sentia cada vez mais a saudade tomar conta de si: a fam\u00edlia, seus amigos, o bairro Almagro&#8230; Entristeceu ao lembrar que abriu m\u00e3o de tudo. Quase se arrependeu ao sentir na pele o peso de tomar decis\u00f5es na vida. Morar em outro pa\u00eds certamente foi uma delas. Al\u00e9m disso, o dinheiro ficou curto para cobrir suas despesas. Aprendeu com isso o que era \u201cxepa\u201d: chegar ao final da feira para comprar produtos bem mais baratos. Gra\u00e7as a seu carisma seus 10 reais rendiam o suficiente para a semana.<\/p>\n<p>Foi nesse per\u00edodo, extremamente complicado, que Ignacio conheceu sua futura esposa: a mulher perfeita. Ela o acolheu e o convenceu a permanecer aqui.<\/p>\n<p>Atualmente faz o que gosta \u00e9 professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, treinador de handebol mirim e pratica corrida. Futuramente pretende participar de uma maratona -\u00e9 s\u00e9rio \u2013 e se por ventura tiver filho ter\u00e1 um nome composto: Eus\u00e9bio mais um outro nome \u2013 e isso pode ser brincadeira \u2013 assim como ele, mantendo a tradi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia iniciada por gera\u00e7\u00f5es anteriores, uma linhagem de Eus\u00e9bios sem previs\u00e3o de t\u00e9rmino!<\/p>\n<p>Ignacio, como todos n\u00f3s, tem muitas faces que o fazem ser quem ele \u00e9 na vida. Como atleta, acredita que \u201cum bom esportista faz um esporte e n\u00e3o uma guerra.\u201d Como imigrante, reconhece a import\u00e2ncia sobre sua origem, pois n\u00e3o se esquecer \u201cde onde voc\u00ea vem, quem voc\u00ea \u00e9\u201d, garante que nada dar\u00e1 errado. Como professor, aprendeu que \u201cvoc\u00ea nasce com um talento e ajuda esse talento\u201d, assim como \u201cvoc\u00ea nasce professor\u201d. Finalmente, como sonhador, desde crian\u00e7a, esperava ser uma pessoa conhecida, mudar o mundo e ser feliz. O maior de seus sonhos era ser atleta e conseguiu, pois \u201cnunca baixou a cabe\u00e7a e nem desistiu\u201d. Sempre foi um homem esperan\u00e7oso.<\/p>\n<p>E que humor! Quando ele conta os fatos, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o sorrir. Estamos contando de um homem vivendo toda sua pot\u00eancia o tempo todo. Ignacio pode e deve se orgulhar muito do lugar onde est\u00e1 hoje, e de quando olha para tr\u00e1s. Ele vem de longe e tem muitas hist\u00f3rias que n\u00e3o se poderia imaginar.<\/p>\n<h3>V\u00eddeos<\/h3>\n<div class=\"embed-vimeo\" style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/166205933\" width=\"806\" height=\"453\" frameborder=\"0\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<div class=\"embed-vimeo\" style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/166205924\" width=\"806\" height=\"453\" frameborder=\"0\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cLevei um baita frango, um peru enorme\u201d. Entre tantas situa\u00e7\u00f5es contadas por Eus\u00e9bio Ignacio, essa \u00e9 uma que poderia ser considerada por muitos goleiros, um constrangimento e tanto. J\u00e1 para outros, com senso de humor como o dele, um acontecimento cotidiano, relembrado de forma hil\u00e1ria. 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