{"id":1612,"date":"2018-06-21T19:34:44","date_gmt":"2018-06-21T19:34:44","guid":{"rendered":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/?p=1612"},"modified":"2018-06-21T19:34:44","modified_gmt":"2018-06-21T19:34:44","slug":"varios-ademir-so-um-com-essa-historia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/2018\/06\/21\/varios-ademir-so-um-com-essa-historia\/","title":{"rendered":"V\u00e1rios \u201cAdemir\u201d, s\u00f3 um com essa hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Sou um homem comum de trinta e sete anos. Tenho, como todos, hist\u00f3rias para contar. Algumas s\u00e3o \u00fanicas. Nem todas de que me lembro foram boas, mas certamente marcaram a minha vida.<\/p>\n<p>Paulistano, nascido e criado na zona sul, na regi\u00e3o de Santo Amaro, meu nome \u00e9 Ademir Santana da Silva. Tamb\u00e9m me chamam de Ad\u00ea ou Magrelo. Filho de Aur\u00e9lio, seguran\u00e7a e jardineiro e de Elisabete, dona de casa. Sou ca\u00e7ula de uma grande fam\u00edlia. Tenho cinco irm\u00e3s e um irm\u00e3o. Por coincid\u00eancia Cilene, a mais nova das meninas, nasceu no mesmo dia e m\u00eas que eu. Temos apenas um ano de diferen\u00e7a. E \u00e9 por isso que n\u00f3s somos bem mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Mor\u00e1vamos em uma casa de tr\u00eas quartos no Graja\u00fa, n\u00e3o havia perigo algum. N\u00e3o tinha medo e costumava ficar sozinho em casa. Tudo que eu fazia era na rua. Naquela \u00e9poca passavam menos carros e mais bicicletas. O bairro era seguro \u2013 ou assim me parecia. \u00a0Nossos pais confiavam muito na gente. Conheciam todos nossos amigos, que eram nossos vizinhos. Hoje j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-1622\" src=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/IMG_0080-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"806\" height=\"605\" srcset=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/IMG_0080-1024x768.jpg 1024w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/IMG_0080-300x225.jpg 300w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/IMG_0080-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 806px) 100vw, 806px\" \/><\/p>\n<p>Meu desejo quando crian\u00e7a era ser bombeiro ou policial. Talvez porque umas das minhas brincadeiras prediletas fosse pol\u00edcia e ladr\u00e3o. Como todas as crian\u00e7as joguei bola, brinquei de pega-pega, bolinha de gude, empinei pipa, andei de bicicleta e joguei v\u00f4lei. Isso acontecia sempre com os meus vizinhos, amigos e irm\u00e3os. Toda crian\u00e7a se machuca e eu n\u00e3o fui exce\u00e7\u00e3o: minhas pernas e m\u00e3os viviam raladas.<\/p>\n<p>Nunca deixei de gostar de arroz doce e massa, principalmente do macarr\u00e3o com frango que minha m\u00e3e preparava aos domingos. At\u00e9 hoje vou \u00e0 casa dela comer esse prato \u2013 guardo isso como um \u201cgrande cart\u00e3o postal colorido\u201d \u2013 que me leva de volta para o passado.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o que tenho com meus pais sempre foi de bastante carinho e respeito. Durante um bom per\u00edodo da nossa inf\u00e2ncia quase n\u00e3o v\u00edamos nosso pai, apenas nos finais de semana quando ele nos compensava com passeios ao parque, bicicleta e pipa. Eram momentos deliciosos que jamais me esquecerei. Sab\u00edamos do sacrif\u00edcio que fazia por n\u00f3s. Todos ajudavam nas tarefas de casa \u2013 \u201csujou, limpou\u201d \u2013 minhas irm\u00e3s, no geral, faziam mais.<\/p>\n<p>Nunca fui santo, era um \u201cdiabinho em pessoa\u201d: era brig\u00e3o, batia, estapeava, jogava bombinha nos vizinhos que n\u00e3o devolviam nossa bola, tocava campainha \u00e0 noite nas casas, chutava a bola no port\u00e3o dos vizinhos. Era corajoso, talvez teimoso. N\u00e3o sei se tudo que fazia era traquinagem mas eu era muito danado \u2013 danado at\u00e9 demais. Mesmo assim, meus irm\u00e3os apanharam bem mais que eu. Eu ficava s\u00f3 de castigo.<\/p>\n<p>Uma de minhas grandes lembran\u00e7as foi quando estava batendo uma bolinha no campo molhado e eis que de repente desloquei a r\u00f3tula do joelho. \u201cQue desgra\u00e7a caiu sobre mim\u201d! Deveria ter catorze ou dezesseis anos. Coloquei o gesso para ficar um bom tempo. Depois de um m\u00eas retirei, por pura teimosia. Gra\u00e7as ao meu pai, tive o joelho no lugar.<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca tamb\u00e9m comecei a me interessar por um assunto bem comum \u00e0 adolesc\u00eancia: namoradas. Passei a gastar o tempo conversando na rua, indo ao Habib\u2019s, comendo pizza. Tinha a matin\u00ea nos domingos. Depois veio as baladas. L\u00e1 dentro havia todo tipo de gente: o arrumadinho, o roqueiro, o clubber, punk \u2013 dava muita confus\u00e3o \u2013 vivia acontecendo briga.<\/p>\n<p>A m\u00fasica sempre me acompanhou: uma verdadeira paix\u00e3o. Comecei ouvindo samba, depois tentei entrar em um grupo de pagode, mas n\u00e3o deu certo. Pelo menos aprendi a tocar tam-tam e cavaco, embora machucasse os dedos. Ent\u00e3o passei para m\u00fasica eletr\u00f4nica, um tipo de \u201cBatid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Teve uma vez que fiz uma coisa estapaf\u00fardia: sai escondido de casa com os amigos e fomos para Moema. Pegamos um \u00f4nibus, passamos em baixo da catraca para n\u00e3o pagar a passagem. Ficamos um tempo por l\u00e1 e voltamos. Bem t\u00edpico. Fomos com a cara, coragem, estupidez.<\/p>\n<p>Carros e velocidade: combina\u00e7\u00e3o perfeita&#8230; para dar errado! Certa vez participei de um racha na avenida Robert Kennedy : o carro bateu e por sorte ningu\u00e9m se machucou. Tamb\u00e9m teve a hist\u00f3ria do Jeep. Foi assim que aconteceu: meu amigo e\u00a0 eu\u00a0\u00a0 resolvemos descer uma ladeira a milh\u00e3o , com a capota aberta para nos exibirmos para as meninas. Resultado: ele capotou. Todos se machucaram menos eu. Terminamos a noite na delegacia com um pai respons\u00e1vel tendo de ir buscar os menores de idade. Foi um conjunto de desgra\u00e7as em um s\u00f3 dia!<\/p>\n<p>Minha primeira viagem sozinho: destino final &#8211; Praia Grande, foi um batid\u00e3o ida e volta. Tinha dezoito anos. Fomos seis pessoas dentro de um \u201cGolzinho\u201d.<\/p>\n<p>O tempo passou, a vida correu, parei com as traquinagens. Comecei a trabalhar como office boy aos 17 anos. Com a dispensa do alistamento militar, fiquei indo ao F\u00f3rum at\u00e9 os 19. Com meu primeiro sal\u00e1rio fui ao shopping e gastei tudo em roupa. J\u00e1 o segundo foi diferente: tive de pagar a conta de luz. \u201cIsso se chama responsabilidade\u201d &#8211; disse meu pai. Depois mudei de emprego: uma empresa que fazia chaveiros \u2013 aqueles de brindes. Fui auxiliar de pedreiro, trabalhei na Bayer. Tamb\u00e9m fui \u201ccontrolador de acesso\u201d \u2013 tipo porteiro. Ter essa fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, todo mundo quer mandar em voc\u00ea. Trabalho na escola Vera Cruz h\u00e1 nove anos e tamb\u00e9m trabalho na escola de m\u00fasica, l\u00e1 sou um \u201cfaz tudo\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-1619\" src=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/ademir0001-740x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"1024\" srcset=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/ademir0001-740x1024.jpg 740w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/ademir0001-217x300.jpg 217w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/ademir0001-768x1063.jpg 768w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/ademir0001.jpg 1672w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><\/p>\n<p>Mas nem todas as coisas de que me recordo foram boas ou gostosas. Meu pai ficou cego \u2013 glaucoma. Desistiu de viver, entrou em depress\u00e3o. Chegou at\u00e9 a delirar, travou a coluna. Caiu duas ou tr\u00eas vezes no hospital. N\u00e3o queria mais comer. Morreu de fal\u00eancia m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os. Barbaridade! Nem gosto de me lembrar. Foi um acontecimento memor\u00e1vel e triste para n\u00f3s. Meus olhos se inundaram de l\u00e1grimas e minha alma de solid\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixei a peteca cair. Superei. Casei com a melhor amiga da minha irm\u00e3. Eu a conheci melhor no dia do casamento de Cilene. Que coisa rom\u00e2ntica e empolgante! Adriana e eu estamos juntos e temos uma filha de cinco anos, Marcela \u2013 o motivo de minha alegria. Minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que nada falte a minha fam\u00edlia quero ver minha filha crescer e que seja do bem. Desejo que minha fam\u00edlia fique unida e todos prosperem.<\/p>\n<p>Aprendi com a vida que n\u00f3s temos que ser pessoas boas e respeitar os mais velhos \u2013 n\u00e3o discutir. Um conselho que deixo a voc\u00eas: obede\u00e7am aos seus pais e fa\u00e7am por merecer, n\u00e3o basta pedir para ter. Sonho com menos viol\u00eancia e mais respeito. Poderia terminar contando outras hist\u00f3rias. Acho que j\u00e1 compartilhei muitos infinitos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou um homem comum de trinta e sete anos. Tenho, como todos, hist\u00f3rias para contar. Algumas s\u00e3o \u00fanicas. Nem todas de que me lembro foram boas, mas certamente marcaram a minha vida. Paulistano, nascido e criado na zona sul, na regi\u00e3o de Santo Amaro, meu nome \u00e9 Ademir Santana da Silva. 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