{"id":1280,"date":"2017-05-15T18:36:03","date_gmt":"2017-05-15T18:36:03","guid":{"rendered":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/?p=1280"},"modified":"2017-05-18T16:15:09","modified_gmt":"2017-05-18T16:15:09","slug":"5oa-coletivo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/2017\/05\/15\/5oa-coletivo\/","title":{"rendered":"5&ordm; A &#8211; Entre o amor e a tristeza"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o nasci em S\u00e3o Paulo, sou piauiense de Tingui que hoje se chama Marcos Parente. \u00c9 uma pequena cidade no nordeste do Piau\u00ed. Em 1966, eu Alzenira Ramos dos Santos e Silva, mais conhecida como Z\u00ea, nasci.<\/p>\n<p>Na minha fam\u00edlia h\u00e1 cinco meninas e cinco meninos. Os homens nasceram primeiro. Minha m\u00e3e na sexta gravidez estava na espera de uma garota e para a surpresa de todos ela nasceu: Eva, acompanhada de Ad\u00e3o que infelizmente faleceu &#8211;\u00a0 pena que eu n\u00e3o pude conhec\u00ea-lo. Foi a partir da\u00ed que minha m\u00e3e deu \u00e0 luz somente a meninas.<\/p>\n<p>Sempre tive minha av\u00f3 como exemplo. Fui morar com minha \u201csegunda m\u00e3e\u201d por volta dos 10 anos. Foi f\u00e1cil pois a casa dela era na mesma rua dos meus pais.<\/p>\n<p>Durante anos e anos meu passatempo favorito era brincar com bonecas de pano, feitas por minha av\u00f3 e minha tia. No meu bairro todos viviam praticamente juntos. As casas, nossos \u201cbrincadouros\u201d, ficavam com os port\u00f5es abertos e os animais de estima\u00e7\u00e3o podiam sair a hora que quisessem e voltavam quase sempre no final do dia. Uma vez o meu cachorro n\u00e3o voltou. No Piau\u00ed a gente tinha que tomar muito menos cuidado com os animais do que aqui em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Adorei a impress\u00e3o de come\u00e7ar a estudar, pois a primeira escola \u00e9 muito importante para toda e qualquer crian\u00e7a, e eu n\u00e3o fui exce\u00e7\u00e3o tanto que tinha o sonho de ser professora. Uma das quais nunca me esqueci, foi a Ivone, que dava aula de Ci\u00eancias, minha mat\u00e9ria predileta. Eu poderia ter aproveitado mais para meu sonho ter se tornado realidade, por\u00e9m o trabalho na ro\u00e7a tamb\u00e9m me encantava bastante, at\u00e9 mais do que a aprendizagem escolar. Crian\u00e7a acha que n\u00e3o aprende nada, mas quando cresce valoriza cada momento. O que n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos naquela \u00e9poca \u00e9 que estudar fosse t\u00e3o importante para a vida.<\/p>\n<p>Ainda me lembro de um epis\u00f3dio que aconteceu em casa quando fui desobediente. N\u00e3o era uma menina levada, por\u00e9m uma vez desafiei minha m\u00e3e: uma vizinha chegou pedindo uma x\u00edcara de \u00f3leo. Mam\u00e3e falou a ela que j\u00e1 tinha acabado e a contrariei. Insisti v\u00e1rias vezes que tinha. E ter at\u00e9 tinha, mas n\u00e3o uma quantidade que desse para dividir. Assim que a mulher partiu, levei uma baita surra. Sofri como uma danada. Teimar na frente de um estranho era inaceit\u00e1vel. Para os adultos, estava fora de cogita\u00e7\u00e3o, coisa totalmente \u201cilegal\u201d dentro do nosso c\u00f3digo de boas maneiras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-1316\" src=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Casa-da-Ze-MEIA-FOLHA-795x1024.jpg\" alt=\"Casa da Ze MEIA FOLHA\" width=\"795\" height=\"1024\" srcset=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Casa-da-Ze-MEIA-FOLHA-795x1024.jpg 795w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Casa-da-Ze-MEIA-FOLHA-233x300.jpg 233w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Casa-da-Ze-MEIA-FOLHA-768x989.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 795px) 100vw, 795px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez esse tenha sido o motivo de minha adolesc\u00eancia ter sido t\u00e3o regrada &#8211; n\u00e3o costumava sair e nem me recusava a seguir as ordens da fam\u00edlia. Aprendi a ceder. L\u00e1 em casa \u201cn\u00e3o era n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Minha primeira paquera &#8211; era assim que n\u00f3s cham\u00e1vamos \u2013 foi aos 18 anos com o Joaquim. Essa foi a primeira vez que o romance floresceu em mim. A vida seguiu e fui conhecendo outras pessoas, entre elas Jorge &#8211; mal sabia eu que ele se tornaria meu futuro marido.<\/p>\n<p>Ao encontr\u00e1-lo senti uma sensa\u00e7\u00e3o absolutamente indescrit\u00edvel. Por outro lado, minha fam\u00edlia n\u00e3o apoiava nosso relacionamento porque ele era mais velho e tinha problemas com a bebida: n\u00e3o conseguia maneirar. Mesmo assim persisti e levei a paix\u00e3o adiante.<\/p>\n<p>O tempo passou, nos casamos e viemos para S\u00e3o Paulo tentar uma vida nova. Como toda despedida houve abra\u00e7os, beijos e l\u00e1grimas. Chegamos. Nossa primeira hospedagem creio n\u00e3o ter sido a melhor. \u00a0Fomos morar em uma casa junto com os primos de Jorge. Essa n\u00e3o foi uma experi\u00eancia agrad\u00e1vel, tanto que tive de pressionar meu marido para sairmos de l\u00e1.<\/p>\n<p>Tempos depois o momento mais emocionante e esperado de minha vida aconteceu: o nascimento da J\u00falia &#8211; o presente que Deus me deu &#8211; come\u00e7ava ali um novo cap\u00edtulo de minha hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-1313\" src=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/CAMERA-1024x701.jpg\" alt=\"CAMERA\" width=\"806\" height=\"552\" srcset=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/CAMERA-1024x701.jpg 1024w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/CAMERA-300x205.jpg 300w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/CAMERA-768x526.jpg 768w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/CAMERA.jpg 1383w\" sizes=\"(max-width: 806px) 100vw, 806px\" \/><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tive experi\u00eancias que me marcaram muito. Nem todas as emo\u00e7\u00f5es que me lembro foram t\u00e3o boas e gostosas. Algumas foram muito ruins e me abalaram, como a morte de minha av\u00f3 quando eu tinha aproximadamente 20 anos. Tamb\u00e9m houve o falecimento de outros familiares, que eu amava muito: tios&#8230; primos&#8230; Para alguns isso pode causar espanto &#8211; coisa dif\u00edcil de compreender e aceitar, mas entendi que isso acontece \u00a0com todos. A morte faz parte da vida. Temos de lidar com isso. Com o tempo aprendi a superar o sentimento de n\u00e3o ter um parente por perto.<\/p>\n<p>Entretanto nem tudo foram espinhos. Um primo me indicou para trabalhar na escola Vera Cruz. Consegui o emprego, onde estou at\u00e9 hoje. Comecei na limpeza e agora atendo os alunos que precisam de cuidados m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>O tempo foi deixando v\u00e1rias marcas e, como acontece com muitos de n\u00f3s, come\u00e7aram a surgir alguns problemas de sa\u00fade, nada muito grave: em mim, \u00a0apareceram as dores na coluna e Jorge ficou diab\u00e9tico. O amor j\u00e1 curou meu marido uma vez, ent\u00e3o agora o que\u00a0 temos de fazer \u00e9 acreditar na fam\u00edlia que constru\u00edmos com tanto esfor\u00e7o e carinho. Mesmo com estas dificuldades, continuo trabalhando bem, seguindo ainda com sonhos e planos. O jeito \u00e9 nunca desanimar.<\/p>\n<p>Tenho a sorte de todo ano, nas f\u00e9rias, conseguir visitar meus parentes no Piau\u00ed e matar um pouco das saudades. Por isso, uma das minhas inten\u00e7\u00f5es \u00e9 me mudar de vez para Marcos Parente e reatar meus la\u00e7os com amigos e familiares, com quem brincava e brigava quando era menina. Isso s\u00f3 poder\u00e1 acontecer quando minha filha terminar o ensino m\u00e9dio \u2013 falta bem pouco para ela se formar.<\/p>\n<p>Outra possibilidade \u00e9 montar meu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, um sal\u00e3o de beleza, pois adoro cuidar de cabelos.\u00a0 Hoje em dia minha paix\u00e3o \u00e9 cozinhar.<\/p>\n<p>Eu poderia terminar contando sobre os alunos que me procuram l\u00e1 na salinha de atendimento. O cuidado que \u00e9 preciso ter com eles, ouvir a queixa, tentar acalmar, tudo isso \u00e9 muito especial. Acho que todos gostam de receber carinho e aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que nos torna \u00fanicos, especiais. Esse trabalho me escolheu. E eu aceitei.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 assim que minha hist\u00f3ria acaba&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1312\" src=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/cachorro.jpg\" alt=\"cachorro\" width=\"863\" height=\"828\" srcset=\"http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/cachorro.jpg 863w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/cachorro-300x288.jpg 300w, http:\/\/site.veracruz.edu.br:8087\/historias\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/cachorro-768x737.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 863px) 100vw, 863px\" \/><\/p>\n<p>Essa tamb\u00e9m seria uma hist\u00f3ria muito boa para ser contada, mas posso deixar que cada um imagine como ela \u00e9 e como vai terminar!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o nasci em S\u00e3o Paulo, sou piauiense de Tingui que hoje se chama Marcos Parente. \u00c9 uma pequena cidade no nordeste do Piau\u00ed. 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