Escrita fantasma trazida à luz

 

Na terça-feira, dia 11 de setembro, a pós-graduação Formação de Escritores, do Instituto Vera Cruz, promoveu um bate-papo em torno de tema ainda pouco explorado: a escrita fantasma. Participaram do encontro o jornalista Ivan Marsiglia, do historiador e escritor Renato Prelorentzou e do escritor e tradutor Tiago Novaes, com a mediação da jornalista e escritora Gabriela Aguerre.

 

Aguerre lembrou que o ofício do escritor-fantasma – ou ghostwriter – costuma gerar certo preconceito, por não ser considerado um trabalho autoral. “Este debate é uma oportunidade de desconstruirmos o preconceito sobre essa atividade mantida nas sombras. Ao assumir a tarefa da escrita para quem não se sente capacitado a escrever sua própria história, percebi que é quase um exercício de criação de ficção o trabalho de dar voz a esse personagem”, disse.

 

 

Ofício clandestino

Com experiência em dois nichos diferentes de escrita fantasma – textos técnicos e biografias e autobiografias –, Prelorentzou contou que ouviu falar em ghostwriter pela primeira vez quando leu “Budapeste”, de Chico Buarque, cujo personagem principal é um escritor-fantasma.

 

“A questão central da escrita fantasma é o escritor se reconhecer naquilo que escreve sobre os outros, da mesma forma que às vezes achamos que os escritos dos outros dizem respeito à nossa própria vida”, explicou. Segundo ele, o maior desafio do ghostwriter “é aprender a sair de cena e transitar por diferentes estilos, vozes e formatos, o que dá uma perspectiva muito original sobre a escrita como um todo”. Para ele, a escrita fantasma é um lugar privilegiado, um grande laboratório: “é uma oportunidade de aprender a se enveredar por várias vozes”.

 

A obscuridade atribuída ao ofício decorre, principalmente, do fato de o próprio autor se colocar nessa posição quase que de clandestinidade, segundo Novaes. Sobre o perfil dos escritores que exercem essa função, ele afirmou: “Há dois tipos de autores. Um é aquele que não consegue se libertar de sua própria voz; o outro é aquele mais metamórfico, que encarna diferentes vozes com facilidade. O primeiro certamente terá mais dificuldade de trabalhar nesse ofício.”

 

Na escrita de não ficção – na qual a escrita fantasma aparece com mais frequência –, são utilizadas técnicas ficcionais para se contar uma história. Não a serviço do autor, como explicou Marsiglia, mas para fazer “a melhor e mais colorida contação da realidade, até porque as fronteiras entre ficção e não ficção são muito tênues”.

 

Coordenadora da pós Formação de Escritores, Marcia Fortunato lembrou que o debate acerca da escrita fantasma traz à tona uma discussão sobre o próprio entendimento de autoria. “Autor não é aquele que possui o conteúdo em si, mas quem dá forma a esse conteúdo. Autor é aquele que determina ‘como’ se contar um conteúdo”, ressaltou.